7.4. Blogosfera em 2006

O ano de 2006 inicia-se com a revelação do que pareciam ser mais algumas demonstrações da inesgotável capacidade de renovação da blogosfera:

- a 3 de Janeiro surgia O Espectro, pela mão de Constança Cunha e Sá. Ainda antes do termo do seu primeiro mês de actividade, a 29, seria palco da chegada de Vasco Pulido Valente à blogosfera; não obstante, o blogue acabaria por ter uma existência limitada (pouco mais de dois meses), tendo sido suspenso a 10 de Março, por alegada “falta de tempo;

- a 6, em paralelo com o termo do Afixe, dava-se o simultâneo início do De Vagares; porém, também neste caso, o novo blogue – sentindo a falta de “pujança do seu predecessor – acabaria por não perdurar por muito tempo, suspendendo a publicação em Setembro (“Requiem, a 3; “Fim de emissão?, a 17);

- os regressos de Pedro Boucherie Mendes (a 13), um dos “históricos da grande “explosão da blogosfera, há já 3 anos e meio (então com o Guerra e Pas), agora Aos 35; e

- a 16 de Janeiro, de Daniel Oliveira (integrando – também por pouco tempo… – a equipa do Aspirina B.

A 19 de Janeiro, o jornal “Público lançava o blogue do provedor dos leitores, uma iniciativa pioneira entre as publicações portuguesas: “O blog do Provedor dos Leitores do PÚBLICO foi criado para facilitar a expressão dos sentimentos e das opiniões dos leitores sobre o PÚBLICO e para alargar as formas de contacto com o Provedor”.

“A preocupação de transparência entre quem faz o jornal e quem o lê também pode passar pelo recurso às novas tecnologias, que tendem a ter um peso cada vez maior no nosso quotidiano“, sublinha o provedor Rui Araújo, acrescentado que esta “é mais uma aposta do PÚBLICO, do PÚBLICO Online e do provedor, para que os leitores tenham cada vez mais voz no jornal que é o seu“.

A 21, tinha início o Blogue da Revista “Atlântico, agrupando alguns conhecidos autores, também já com colaborações anteriores em outros blogues, sob a coordenação de Paulo Pinto Mascarenhas, numa publicação que aposta na opinião, no ensaio, e na crítica de livros, cinema e restaurantes, a par de crónicas sobre diversas áreas.

No dia 23, o Blasfémias atingia 1 milhão de visitantes (marcas já antes alcançadas, nomeadamente, pelo Abrupto e pelo Barnabé), traduzindo inequivocamente o interesse que os seus textos, comentários e análises despertam e a importância relativa do blogue no panorama “blogosférico” português, a qual se veio consolidando.

O final do mês de Janeiro fica assinalado por uma nota que não poderia omitir, a do fim do Janela para o rio, um dos blogues mais activos nos seus anos iniciais.


A 2 de Fevereiro, o Proximizade, lançado 3 meses antes, registava um “passar de testemunho: porque “não podemos ficar insensíveis nem indiferentes aos que de (quase) tudo necessitam“; infelizmente, este projecto de solidariedade via blogosfera acabaria por ver a sua actividade suspensa.

O mesmo dia marca o início da colaboração de João Morgado Fernandes no Mau tempo no canil, a qual se prolongaria até 25 de Abril (não obstante a “despedida apenas a 25 de Agosto).

A 5 de Fevereiro, dá-se outra “passagem de testemunho, na plataforma weblog.com.pt, com a sua transmissão para a esfera do portal aeiou.pt.

No dia 6, João Pedro da Costa – deixando o Aspirina B – regressava ao Ruínas Circulares, não obstante alguma irregularidade na sua publicação.

Quase três anos antes, Pedro Rolo Duarte “insurgia-se contra alguns blogues, de “bloggers que dispunham já de outros fóruns para expor as suas ideias. No dia 8, em texto publicado no Diário de Notícias, faria um “mea culpa”, referindo inclusivamente a vontade de criar o seu próprio blogue!

“Dois anos depois (e muita pancada levada em tudo o que era blogue nacional, como se tivesse criticado o meio em si, o que obviamente não sucedeu…), no momento em que vejo Vasco Pulido Valente chegar à blogoesfera, não resta palavra sobre palavra desse meu texto. Engoli-as todas, uma a uma, humildemente. Confesso que há sempre um bom bocado do meu dia que é passado a saltitar de blogue em blogue, lendo o que pensam aqueles que respeito ou admiro, ou descobrindo talentos desconhecidos. Tenho a minha lista de favoritos. E já tive, heresia das heresias, a tentação de criar o meu próprio blogue…

Viria a protagonizar, a partir de 15 de Maio, um programa diário na Antena 1, sobre a blogosfera: “Janela Indiscreta!


A 10 de Fevereiro era anunciado o 3º Encontro Nacional e 1º Encontro Luso-Galaico sobre Weblogs, agendado para 13 e 14 de Outubro de 2006, numa organização do Centro de Estudos das Tecnologias, Artes e Ciências da Comunicação da Universidade do Porto com o apoio da Licenciatura em Jornalismo e Ciências da Comunicação, com coordenação de Fernando Zamith, procurando “juntar investigadores, utilizadores e interessados em weblogs em Portugal e na Galiza. Este encontro tem como principal objectivo contribuir para a exploração deste tema e fomentar o desenvolvimento de uma comunidade de reflexão e investigação transdisciplinar nesta área.”

No dia 14, João Carvalho Fernandes anunciava a suspensão do Fumaças (um dos blogues “históricos); regressaria pouco tempo depois, a 26 de Maio.

Dois dias depois, a 16, iniciava-se o “Mundo Pessoa, Blogue da Casa Fernando Pessoa.

A 21 de Fevereiro, Pacheco Pereira enunciava no Abrupto as “Dez Leis do Abrupto sobre os Debates na Blogosfera, completadas aqui e com versão revista a 2 de Março.


O mês de Março fica marcado, logo a 5, pela polémica entre Vasco Pulido Valente e Clara Ferreira Alves (“Uma Santanete), que culminaria com o anúncio por parte desta da interposição de processo por difamação contra Pulido Valente… e, cinco dias depois, com o termo de “O Espectro.

Segundo notícia do Público de 20 de Março – entretanto objecto de rectificação (ver esclarecimento por Luís Santos, no Atrium) – teria havido contactos entre o Ministro dos Assuntos Parlamentares e alguns responsáveis de blogues:

“Proposta do ministro dos Assuntos Parlamentares
Blogues poderão vir a aceder a comunicados do Governo
20.03.2006 - 10h42 Maria José Oliveira (PÚBLICO)

O ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva contactou vários autores de blogues temáticos com vista a receberem informações diversificadas sobre comunicação social. Desde o início deste mês que o assessor para a comunicação social de Santos Silva, Carlos Narciso, tem vindo a publicar nas caixas de comentários de diversos blogues o seguinte texto, acompanhado do seu endereço electrónico: “Gostaria que me indicassem um email para vos enviar informação com relevância para eventual publicação no vosso blogue”.

O assessor enviou a mesma mensagem para 14 blogues, entre os quais se contam o Blogouve-se, Ponto Media, Jornalismo e Comunicação, Atrium, NetFM, Travessias Digitais, Chão de Papel, Intermezzo e JornalismoPortoNet.

Contactado pelo PÚBLICO, Carlos Narciso afirmou que Augusto Santos Silva, apesar de ter pedido a lista de blogues, ainda não decidiu sobre o envio de comunicados. “O ministro ainda vai ponderar sobre o assunto”, explicou.

Em causa poderá estar o alargamento da discussão pública sobre as leis da rádio e da televisão ou a legislação sobre a concentração de meios de comunicação social. Questionado sobre a possibilidade de os bloggers virem a ter acesso à bancada de imprensa da Assembleia da República (refira-se que desde o ano passado que os bloggers podem assistir aos briefings diários na Casa Branca), Carlos Narciso disse que o ministro não coloca essa hipótese.

No final do mês de Março, a 29, o “caso João Pedro George vs. Margarida Rebelo Pinto chegava aos jornais: “a escritora Margaria Rebelo Pinto e a editora Oficina do Livro interpuseram uma providência cautelar no sentido de impedir a publicação do livro Couves & Alforrecas, Os Segredos da Escrita de Margarida Rebelo Pinto, no qual o crítico João Pedro George analisa a obra da autora de Não há Coincidências.

Numa organização promovida por José Carlos Abrantes, prosseguiam os debates sobre a blogosfera, nomeadamente sobre blogues temáticos: “Os blogues temáticos aparecem com forte credibilidade. Muitas vezes são feitos por especialistas que problematizam, em profundidade, um tema.”


Ao mesmo tempo, no Íntima Fracção, Francisco Amaral publicava uma relação de temas musicais, colocando à eleição dos seus leitores a indicação dos que deveriam constar numa colectânea dos 22 anos do prestigiado programa radiofónico.


É então apresentado pelo Governo o programa “Simplex, um conjunto de 333 medidas de desburocratização, que, naturalmente, viria a ser amplamente debatido na blogosfera.

A 2 de Abril, é anunciado o fim d’O Acidental.

No dia 5, no Abrupto, numa iniciativa inédita na blogosfera portuquesa, inicia-se a pré-publicação de uma edição da “Guerra & Paz Editores, excertos do novo livro de Agustina Bessa-Luís.

No mesmo dia, Clara Ferreira Alves publica artigo no “Diário Digital:

“Os jornais ainda não encontraram a fórmula para combater os seus dois inimigos, a televisão e a net, incluindo esse novo mundo da blogosfera, que será em breve um velho mundo e sofrerá o seu backlash. A blogosfera é um saco de gatos que mistura o óptimo com o rasca e acabou por tornar-se um prolongamento do magistério da opinião nos jornais. Num qualquer blogger existe e vegeta um colunista ambicioso ou desempregado ou um mero espírito ocioso e rancoroso. Dantes, a pior desta gente praticava o onanismo literário e escrevia maus versos para a gaveta, agora publicam-se as ejaculações. Mas, sem querer estar aqui a analisar a blogosfera e as suas implicações, nem a evidente vantagem dessa existência e da qualidade e liberdade que revela por vezes, destituindo do seu posto informativo os jornais e televisões aprisionados em formatos e vícios, o resíduo principal de tudo isto é que os jornais mudaram, e muito, e mudaram muito rapidamente. Parafraseando Pessoa na hora da morte, We know not what tomorrow will bring.

A 6 de Abril, na revista “Sábado”, José Pacheco Pereira analisa um estudo da Marktest sobre a leitura de blogues (questão também debatida por David Justino, no Quarta República), colocando «sérias reservas», nomeadamente em função das premissas em que se baseou a recolha da amostra.

No dia 8, menos de 3 meses depois do seu “regresso e na sequência de uma reduzida participação, Daniel Oliveira abandona o Aspirina B… anunciando que regressará em breve, com outro projecto. O Arrastão viria a surgir pouco tempo depois…

No dia seguinte, nasce o Extratexto, blogue dedicado à edição, indústria editorial e ao mercado do livro em Portugal.


A 10 de Abril, na sequência do termo d’O Acidental, Paulo Pinto Mascarenhas lançava o ABC, “em trânsito” para a sua fixação “exclusiva” no blogue da Revista Atlântico, a partir de 27 de Junho.

Iniciava-se também o “Blasfémias Médicas, blogue temático, especialmente dedicado a assuntos de medicina - então anunciado como o primeiro de uma futura «Rede Blasfémias»; a 23 surgiria o “Vídeo Blasfémias“, especialmente dedicado a filmes e imagens animadas.

A 13, o Kontratempos resolve promover a divulgação de actos administrativos que podem ser desburocratizados na função pública, “pequenos obstáculos que surgem na vida de todos os dias e que as medidas mais macro do governo dificilmente conseguirão eliminar”.

No dia 15, em artigo no Público, João Pedro Pereira aborda os “Novos caminhos da Internet:

Nós, a Rede
15.04.2006 - 08h53 : João Pedro Pereira

“Antes, a Internet era um sítio onde os utilizadores entravam e permaneciam temporariamente. Um parêntesis na vida real, que decorria off-line. Hoje, as pessoas têm uma identidade online, partilham fotografias e vídeos, discutem as notícias, colocam os pensamentos e episódios privados ao alcance de um qualquer motor de busca. “A nossa vida está online e parece que isso interessa aos desconhecidos”, explica José Luís Orihuela, professor na Universidade de Navarra, em Espanha, e autor do blogue eCuaderno. O crescente ritmo de adesão, ao nível social das tecnologias de informação, está a contribuir para um processo imparável de digitalização e virtualização de muitas das nossas experiências quotidianas”, defende Orihuela, para quem o correio electrónico, os chats, os sistemas de mensagens instantâneas, entre outros, “mudaram as práticas sociais e comunicativas”.

A World Wide Web representa uma fatia significativa destas novas formas de socialização. Nascem todos os dias serviços que tornam a Web num espaço de interacção e são cada vez mais aqueles que acorrem aos chamados sites de “social networking” para manter contacto com amigos ou para travar novos conhecimentos, através de um sistema que permite “conhecer” os amigos dos amigos e assim formar uma rede digital de amizades.

Números de um estudo recente levado a cabo nos EUA dão conta da importância crescente desta chamada “Web social”, que faz parte daquilo que muitos especialistas definem como “a segunda geração da Web”. Enquanto os tradicionais gigantes on-line, como o portal Yahoo! ou a leiloeira eBay, mantiveram praticamente inalterados os seus números de acessos, o Blogger (o serviço de blogues do Google), a Wikipédia (uma enciclopédia que qualquer um pode alterar) ou o MySpace (um site de “social networking”) cresceram, respectivamente, 528, 318 e 275 por cento entre 2004 e 2005.

Este recente boom da Web social está relacionado com o aparecimento de ferramentas que permitem que qualquer pessoa comunique, publique e coopere de forma simples, considera Orihuela. “A chamada “Web social” não é mais do que “a Web das pessoas”, aquilo que esta sempre deveria ter sido: um espaço para a criação colectiva de conhecimento, para a cooperação no trabalho à distância e para a publicação à escala universal de todo o tipo de conteúdos.”

A ideia de usar o mundo on-line como um espaço social está, contudo, longe de ser nova. Mas, antes, a Internet era “uma outra vida, onde as pessoas representavam” e se escondiam atrás do nick ou avatar (o nome que se dá à imagem usada pelos utilizadores de chats ou fóruns para se identificarem), explica Paulo Querido, autor do livro Amizades Virtuais, Paixões Reais e co-autor do site DoMelhor.net, no qual os utilizadores escolhem, comentam e votam nas melhores notícias. “Hoje não há duas vidas”, refere. “E as pessoas já não têm a mesma necessidade de ter nicks.”

Inspirados pela filosofia da Web social e pelos potenciais lucros gerados pelas visitas diárias de milhares de utilizadores, surgem constantemente novos serviços destinados a todo o tipo de nichos: mapas que permitem assinalar as casas dos amigos, agendas on-line para que qualquer pessoa possa saber quais os compromissos de outra, sistemas para partilha de sites favoritos ou páginas onde é possível seguir comentários deixados em weblogs e as respectivas respostas. “Estamos a descobrir uma verdade elementar da nossa espécie”, diz Orihuela. “As pessoas querem comunicar e cooperar umas com as outras. Hoje, finalmente, dispomos de ferramentas para o fazer à escala planetária”.”


A 18 de Abril é anunciada a criação de um fórum sobre Podcasting e Podcasts para a Comunidade Portuguesa, visando disponibilizar informação sobre os vários podcasts portugueses, onde seria possível encontrar anúncios de novos programas, notícias sobre podcasting e até alguns contactos de podcasters.

Numa evocação lançada pelo Rua da Judiaria e Miniscente, e debatida, entre outros, pelo Adufe, A Origem das Espécies, Quase em Português e Tugir, relembra-se, a 19 de Abril, o 5º centenário do “Pogrom de Lisboa.

“No “pogrom” de Lisboa de 19 de Abril de 1506, durante o reinado do Rei Manuel I de Portugal, um “cristão-novo” (judeu obrigado a converter-se ao catolicismo sob pena de morte) expressa as suas dúvidas sobre as visões milagrosas na Igreja de S. Domingos em Lisboa. Como consequência, cerca de 4000 judeus, homens, mulheres e crianças, foram massacrados pela população católica, incitados por frades dominicanos. Os judeus foram acusados entre outros “males”, de deicídio e de serem a causa da profunda seca que assolava o país. A matança durou três dias. No seguimento deste massacre, do clima de crescente Anti-Semitismo em Portugal e do estabelecimento da Inquisição, (o tribunal da Inquisição entrou em funcionamento em 1540 e perdurou até 1821) muitas famílias judaicas fugiram do país.

Para além das “polémicas” (também aqui), é fundamental ler as entradas no “Rua da Judiaria” (O Massacre de Lisboa - I, II, III, IV, V, VI e VII).

O Público assinalava a data, referindo a iniciativa de Nuno Guerreiro (Rua da Judiaria):

Judeus assinalaram 500 anos de massacre “esquecido” em Lisboa
19.04.2006 - 22h19 Lusa

Uma oração hebraica e algumas velas acesas junto a uma oliveira marcaram hoje a evocação dos 500 anos do massacre de milhares de judeus em Lisboa, em que participaram algumas dezenas de membros da comunidade judaica. No largo de São Domingos, vários judeus, alguns usando o tradicional “kippah” na cabeça, juntaram-se em oração lembrando o “pogrom”, o massacre que começou na igreja que ali se encontra, seguindo um apelo lançado pelo blog Rua da Judiaria. […]”

Também o Diário de Notícias evocava a data, com o artigo “500 anos para lembrar e pedir perdão:

Sejamos honestos… Há alguém que goste de judeus?” A frase não é de um dos frades dominicanos que terão incitado as gentes lisboetas ao massacre de 4 mil cristãos-novos, em 1506, durante a “semana santa”. Não tem cinco séculos, nem sequer um: é de há dias, escrita na Internet como comentário anónimo à iniciativa de Nuno Guerreiro Josué, que no seu blogue ruadajudiaria.blogspot.com propôs o assinalar da data com uma vigília no Rossio. […]”


A 20 de Abril, Pacheco Pereira escreve uma crónica no “Público, sob o título “A fauna das caixas dos comentários, abordando a questão dos comentadores anónimos nos blogues.

A fauna das caixas dos comentários
José Pacheco Pereira

“A Rede está a mudar tudo, a criar coisas novas, a realizar outras muito antigas que as tecnologias até agora existentes ainda não permitiam e a dar eficácia a velhos, e muitas vezes maus, hábitos que existiam no mundo exterior e agora passam para o mundo interior da Internet. Alguns casos recentes voltaram de novo a mostrar a Internet sob uma luz pouco amável, bem preconceituosa aliás, porque nada do que lá se faz se deixou de fazer cá fora. O que há é um upgrade tecnológico no crime, que a Rede melhora e nalguns casos favorece pela sua acessibilidade e universalidade. São estes os múltiplos exemplos da chamada “fraude nigeriana, ou os casos de que leva os incautos a fornecerem palavras-passe de acesso a contas bancárias; os casos de “cyberstalkers, pessoas que perseguem outras cujo nome e morada aparece na Internet. Isto tudo depois da pedofilia, e de outras utilizações criminosas da Rede.

O que é novo na Rede, quer na “normal quer na criminosa, são as características psicológicas especificas do mundo em linha, em especial a exploração da fronteira, mais ténue do que parece, entre a realidade e a virtualidade. E isso traz elementos novos como se vê se analisarmos para além do crime em si. Um caso actual é o do assassinato de uma menina de 10 anos, por um autor do blogue chamado “Strange Things are Afoot at the Circle K., que tinha feito pouco antes um comentário sobre canibalismo. O que há de novo neste caso e no interesse mediático sobre ele, é que em vez de um diário em papel, ou escritos mais ou menos dementes ou geniais, como era o caso pré-Internet do Unabomber, agora, quase de imediato, todos se voltam para o blogue, para o perfil do blogue, para o rastro na Rede do putativo criminoso. A Rede fica indissociável da nova identidade das coisas, como se entre o mundo virtual e o real a teia fosse completa. E, se calhar, é.

Mas não é este apenas o único aspecto interessante, há outro para que não se tem chamado a atenção: o mundo muito próprio dos que escrevem sobre textos alheios nas caixas de comentários dos blogues ou de órgãos de comunicação em linha. O Things are Afoot at the Circle K. continua em linha e tem, à data em que escrevo, 644 comentários na última nota escrita pelo seu autor, todos eles posteriores ao conhecimento do crime. O blogue continua vivo mesmo depois da prisão do seu autor.

Mas os 644 comentários empalidecem face aos portugueses 1321 comentários do Semiramis cuja anónima autora teria morrido de morte súbita, suscitando as mais contraditórias versões na própria caixa de comentários do blogue. Deixando de parte a polémica sobre as caixas de comentários abertas ou moderadas, ou sobre a sua própria utilidade e valor, deixando de lado também a história pessoal inverificável do que aconteceu à sua autora (ou autor?) anónimo, o interessante é registar que o que há nesse blogue é uma comunidade que aproveita o “lugar para se encontrar. A caixa de comentários tornou-se numa espécie de chat, que parasita a notoriedade do blogue, como já acontecera no Espectro com os seus finais 494 comentários, onde as pessoas se encontram numa pequeníssima “aldeia global, que tomam como sua.”

“O comportamento destas pessoas-em-linha é compulsivo, eles “habitam nas caixas de comentários que são a sua casa. Deslocam-se de caixa para caixa de comentário, deixando centenas de frases, nos sítios mais díspares, revelando nalguns casos uma disponibilidade quase total para comentar, contra-comentar, atacar, responder, mantendo séries enormes que obedecem à regra de muitos frequentadores desta área da Rede: horário laboral na maioria dos casos, quebra no fim-de-semana e nos feriados. São pessoas que estão a escrever do seu local de trabalho ou de estudo, de empresas ou de escolas, onde tem acesso à Internet. Há no entanto, alguns casos de comentadores caseiros e noctívagos, que só podem estar a escrever noite dentro, como era o caso nos primeiros anos da blogosfera portuguesa, antes de se democratizar. É um fenómeno aparentado com muitas outras experiências comunitárias na Rede, mas está longe de ser o mundo adolescente dos frequentadores do MySpace ou dos “salas de conversa virtual.

No caso português, os comentadores não parecem ser muitos, embora a profusão de pseudónimos e nick names, dê uma imagem de multiplicidade. São, na sua esmagadora maioria, anónimos, mas o sistema de nick names permite o reconhecimento mútuo de blogue para blogue. Estão a meio caminho entre um nome que não desejam revelar e uma identidade pela qual desejam ser identificados. Querem e não querem ser reconhecidos. É o caso da “Zazie, do “Euroliberal, do “Sniper, do “Piscoiso, “Maloud, “Bajoulo “Xatoo, “Atento, Dasanta, “José, “e-konoklasta, “Cris, “Sabine, “José Sarney, “anti-comuna, etc,, etc. Trocam entre si sinais de reconhecimento, cumprimentam-se, desejam-se boas férias, e formam mini-comunidades que duram o tempo de uma caixa de comentários aberta e activa, o que normalmente dura pouco. Depois migram para outra, sempre numa tempestade de frases, expressando acordos e desacordos, simpatias e antipatias, quase sempre centrados na actividade de dizer mal de tudo e de todos.

Imaginam-se como uma espécie de proletariado da Rede, garantes da total liberdade de expressão, igualitários absolutos, que consideram que as suas opiniões representam o “povo, os “que não tem voz os deserdados da opinião, oprimidos pelos conhecidos, pelos célebres, pelos “sempre os mesmos. São eles que dizem as “verdades. Mas não há só o reflexo do populismo e da sua visão invejosa e mesquinha da sociedade e do poder, há também uma procura de atenção, uma pulsão psicológica para existir que se revela na parasitação dos blogues alheios. Muitos destes comentadores têm blogues próprios completamente desconhecidos, que tentam publicitar, e encontram nas caixas de comentários dos blogues mais conhecidos uma plataforma que lhes dá uma audiência que não conseguem ter.

Não são bem “Trolls, sabotadores intencionais, mas têm muitas das suas formas perturbadoras de comportamento. A sua chegada significa quase sempre uma profusão de comentários insultuosos e ofensivos que afastam da discussão todos os que ingenuamente pensam que a podem ter numa caixa de comentários aberta e sem moderação. Quando há um embrião de discussão, rapidamente morto pela chegada dos comentadores compulsivos, ela é quase sempre rudimentar, a preto e branco, fortemente personalizada e moralista: de um lado, os bons, os honestos, os dignos, do outra a ralé moral, os ladrões, os preguiçosos que vivem do trabalho alheio, e dos impostos dos comentadores compulsivos presume-se. O que lá se passa é o Far West da Rede: insultos, ataques pessoais, insinuações, injúrias, boatos, citações falsas e truncadas, denúncias, tudo constitui um caldo cultural que, em si , não é novo, porque assenta na tradição nacional de maledicência, tinha e tem assento nas mesas de café, mas a que a Rede dá a impunidade do anonimato e uma dimensão e amplificação universal.

O que é que gera esta gente, em que mundo perverso, ácido, infeliz, ressentido, vivem? O mesmo que alimenta a enorme inveja social em que assentam as nossas sociedades desiguais (por todo o lado existe este tipo de comentadores), agravada pela escassez particular da nossa. Essa escassez não é principalmente material, embora também seja o resultado de muitas expectativas frustradas de vida, mas é acima de tudo simbólica. Numa sociedade que produz uma pulsão para a mediatização de tudo, para a espectacularização da identidade, para os “quinze minutos de fama e depois deixa no anonimato e na sombra os proletários da fama e da influência, os génios incompreendidos, os justiceiros anónimos, o “povo das caixas de comentários, não é de admirar que se esteja em plena luta de classes.

Inevitavelmente, seria acesa a polémica provocada na blogosfera por este artigo, de que são exemplos - para além… dos comentários (via e-mail) no Abrupto -, estas entradas no Blasfémias (de Gabriel Silva, de João Caetano Dias e de Rui Albuquerque), mas igualmente na Grande Loja do Queijo Limiano (também aqui e aqui), no Tugir, e ainda de alguns dos visados (Zazie e Sabine), entre muitos outros.


Integrado no programa das “Comemorações do Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor“, realiza-se a 21 de Abril uma mesa redonda com a designação “Webblogs: o autor/editor”, moderado por Isabel Goulão (Miss Pearls), com a participação de: Francisco José Viegas (A Origem das Espécies), Catarina Campos (100nada), João Villalobos (Prazeres Minúsculos), Rui Branco (Adufe) e Ana Cláudia Vicente (Quatro Caminhos).

Estiveram em debate temas como:
- A dicotomia autor/editor e a questão da validação dos conteúdos;
- Novos caminhos da informação e de debate;
- O uso integrado das tecnologias ao serviço da criatividade;
- O uso de blogues na educação e no desenvolvimento do gosto pela escrita.

O dia 25 de Abril marca o fim de “O Vilacondense.

No dia seguinte, após um interregno de mais de 2 anos, dava-se o regresso (por pouco tempo… apenas até 1 de Agosto) de um dos melhores blogues da fase de grande “explosão” da blogosfera, em 2003, nomeadamente para promover o livro lançado pouco tempo depois, com uma selecção de textos do “Desejo Casar“:

Como é que se reabre um blogue? Indo directamente ao assunto. Informando que, quase três anos depois do fecho do estabelecimento, voltamos a desejar casar. Pelo menos por uns meses. Assumindo que, para além de querermos saber uns dos outros, trazemos um objectivo interesseiro no enxoval da noiva - o lançamento de um livrinho que reúne algumas das coisas que aqui fomos publicando (o Luís, responsável pela selecção da tralha, dirá quando e onde). Fazendo notar que, se virmos bem, o mundo não mudou assim tanto desde que fechámos a loja: continua a haver solidão, parquímetros e o Mário Crespo. Como é que se reabre um blogue? Voltando a dar-lhe corda. Enchendo o depósito. Chamando o resto da turma. Arrumando a pistola no saco. Perdendo a vergonha na cara.”

A 27 de Abril, era apresentado novo blogue do Público, da autoria de José Milhazes, correspondente na Rússia.

No mesmo dia dava-se o lançamento em livro do “Jaquinzinhos, de João Caetano Dias, reunindo uma selecção dos melhores textos publicados no blogue “sulista, sportinguista e liberal”

O final do mês de Abril coincide com o termo do Bombyx-Mori.


A 1 de Maio, Paulo Querido cria um site dedicado ao debate sobre o uso ou não da energia nuclear.

A partir de 2, e na sequência de uma interrogação de Paulo Gorjão (Bloguítica), Luís Carmelo iniciava, no Miniscente, a mais profunda reflexão até hoje elaborada em Portugal sobre a blogosfera, a propósito do “tom dos blogues” (em 46 “capítulos”!).

No dia 5, o Ponto Media, de António Granado, passa a integrar uma rede de blogues convidados do Público.

A 6, nascia o “Lugar Comum“, com Susana Bês, Afonso Bivar, Lutz Brückelmann e Luís M. Jorge, no que surgia como uma nova promessa de renovação da blogosfera; porém, este novo blogue acabaria por ter uma existência muito limitada, de apenas 2 semanas…

No dia 15, Pedro Rolo Duarte dava início, na Antena 1, a um programa diário sobre blogues: “Janela Indiscreta - “O Olhar de Pedro Rolo Duarte pelo Universo dos Blogs”.

A 17, realizava-se mais um debate sobre blogues, organizado por José Carlos Abrantes, “Falar de blogues no jornalismo”, contando com a participação de Paulo Querido (Mas certamente que sim!), Luís Santos (Atrium) e António José Silva (Sopa de Pedra): “Não se trata de discutir se os blogues são jornalismo, mas de saber como pode o jornalismo aproveitar os blogues e as tecnologias que os apoiam para se revigorar.

No dia 24 de Maio, surgia o Arrastão, no regresso de Daniel Oliveira à blogosfera.

Por estes dias de final de Maio, na sequência de debate televisivo (RTP, a 22), com Manuel Maria Carrilho e Emídio Rangel vs. Ricardo Costa e José Pacheco Pereira, discutia-se na blogosfera o “efeito Carrilho (sobre os contadores de visitas dos blogues…).


A 2 de Junho tem início o “Lauro António Apresenta…” - Comentários, críticas a obras actuais, anotações, referências, lembretes, notícias, e tudo o mais que valer a pena referir… Ao sabor do tempo e do local.

No dia seguinte, novo debate sobre “O papel dos cronistas: peixes dentro ou fora de água?”, com Miguel Poiares Maduro, Rui Tavares, Pedro Mexia, Luciano Amaral, Pedro Lomba e moderação de Maria de Lurdes Vale.

No dia 10, Paulo Querido escrevia no Expresso sobre os bloggers “mais produtivos: “A nata da nossa blogosfera publica que se desunha: numa vintena dos mais populares blogues são metidos 72 posts por dia e Pacheco Pereira tem uma média diária de 4,2 entradas.”

Com base no levantamento efectuado por Paulo Querido (no período de 8 de Março a 25 de Maio de 2006), eram os seguintes os blogues “mais produtivos”: (i) Blasfémias, 869 “posts” (média diária de 11); (ii) Máfia da Cova, 538 (6,8); (iii) Bloguitica, 494 (6,3); (iv) Ante et Post, 402 (5,1); (v) Abrupto, 334 (4,2); (vi) Glória Fácil, 311 (3,9); (vii) Mau Tempo no Canil, 261 (3,3); (viii) Bomba Inteligente, 245 (3,1); (ix) Adufe, 235 (3,0); e (x) Aspirina B, 233 (2,9).

A nível de autores, a ordenação em termos quantitativos do número de entradas publicadas era a seguinte: (i) Paulo Gorjão (Bloguitica), 494 (média diária de 6,3); (ii) José Pacheco Pereira (Abrupto), 334 (4,2); (iii) Carla Hilário Quevedo (Bomba Inteligente), 245 (3,1); (iv) Rui Cerdeira Branco (Adufe), 235 (3,0); (v) João Miranda (Blasfémias), 232 (2,9); (vi) João Espinho (Praça da República em Beja), 227 (2,9); (vii) Leonel Vicente (Memória Virtual), 199 (2,5); (viii) “O Padrinho” (Máfia da Cova), 191 (2,4); (ix) Pedro Mexia (Estado Civil), 184 (2,3); e (x) Francisco Trigo de Abreu (Mau Tempo no Canil), 173 (2,2).


A 15 de Junho, Pacheco Pereira escrevia novamente sobre blogues no Público:

BLOGUES: A APOTEOSE DO PRESENTE

“Os blogues continuam a ser criados a uma velocidade de cruzeiro numa verdadeira revolução mundial de novas formas de “fala” dos indivíduos e dos grupos, o que é um dos reveladores da profunda interligação entre “estados” sociais preexistentes e tecnologias que os exprimem e potenciam. O último balanço do “estado da blogosfera” refere a existência de cerca de 35 milhões de blogues seguidos pela Technorati, uma empresa de referência no estudo dos blogues, duplicando o seu número cada seis meses. Nos últimos três anos, o tamanho da blogosfera cresceu 60 vezes, e o número de blogues criados por dia aproxima-se de 75 mil, o que significa que desde que o leitor começou a ler este artigo quase vinte novos blogues (um por segundo) foram criados em todo o mundo.

Claro que sabemos que “criar” e “manter” não é a mesma coisa, e que muitos dos blogues nascentes não passam do acto da criação, mas mesmo assim só um cego (e ainda há muitos cegos que não querem ver) é que não percebe que se está perante um fenómeno que marcará a nossa época, de um antes e de um depois. Não se trata aqui de avaliar os efeitos da blogosfera nas áreas que lhe são adjacentes, que todas estão a mudar por processos que tanto empurram os blogues, como as mudanças nos hábitos de leitura, de procura, de saber, de “ver”, que estão associados à conjugação de novas tecnologias com mutações sociais nas sociedades industriais e democráticas a que chamamos “ocidentais”. O movimento que gera o surto de blogues é muito mais profundo do que os próprios blogues, tornando-os ao mesmo tempo causa e efeito, agente de mudanças e revelador de mudanças. Duas coisas não podem porém ser esquecidas, e muitas vezes são-no, na análise da blogosfera: a primeira é que os blogues suportam-se numa forma tecnológica que valoriza determinados aspectos da “fala” que eles contêm e minimiza outros; a segunda é que a “fala” que se encontra nos blogues não é nova, tem precedentes e história. São estes dois aspectos de que falarei, valorizando o aspecto “literário” e criativo dos blogues, em detrimento de outras funções que os blogues também têm em particular no sistema da comunicação social.

Comecemos pelo primeiro aspecto, o modo como a tecnologia, o software, as plataformas de suporte, moldam a forma do blogue, condicionando o produto final. Os blogues evoluíram das páginas pessoais na Rede, num momento de expansão e democratização da Internet, mas não são uma nova forma de páginas pessoais. O que em todas as plataformas populares, a começar pelo pioneiro e mais usado Blogger, se valoriza não é a apresentação de um indivíduo, dos seus interesses, das suas opiniões, do seu “universo” pessoal, mas sim tudo isto situado no tempo.

Tempo é a chave da novidade dos blogues, os blogues forçam as páginas pessoais a deixarem de ser estáticas e a tornarem-se diários, locais onde opiniões, interesses, confissões, desabafos, impressões, são escritos num ecrã que se comporta como um rolo de papel, que se desdobra entre o presente e o passado. Por isso, acrescentava à frase anterior: tempo desigual, tempo essencialmente presente, é a chave da novidade dos blogues. Na verdade, o ecrã do computador não permite “ler” tudo o que está no blogue da mesma maneira, acentua o que de mais recente é colocado, valoriza no seu prime time a actualidade, o dia último, de preferência o dia de hoje, o presente absoluto. Nos blogues, a actualização é da natureza do próprio instrumento, dominado pelo presente e atirando com o passado para um “arquivo” que raras vezes é consultado.

Nos blogues há uma apoteose do presente, uma menorização do passado e uma inexistência do futuro que condicionam o tipo de escrita e o seu sucesso comunicacional. Este desequilíbrio dos tempos é coerente com alguns dos efeitos da passagem do mundo comunicacional tradicional, da leitura, do silêncio, da lentidão, da memória, para a velocidade do que é “moderno”, para um mundo constituído por imagens rápidas, prazer instantâneo e ilusão de simultaneidade. É o mundo dos directos televisivos, do em linha permanente, do mundo que testemunha tudo em tempo real, da aldeia na “aldeia global”, da superfície, da pele das coisas do marketing e da publicidade. Os blogues trazem para a “fala” essa mesma velocidade e ilusão de instantaneidade de um mundo sem “edição”, ou seja, sem mediação.

O domínio do presente nos blogues molda a “fala”, valorizando o comentário, a opinião, a impressão quase em tempo real sobre o presente a acontecer, mais do que sobre o acontecido e por isso comunica historicamente com a voz dos directos da rádio e da imagem da televisão. O sucesso dos blogues chamados “políticos” em Portugal, como aliás noutros países, não se deve a qualquer deformação da blogosfera, que continua a ser maioritariamente constituída por blogues de outra natureza mas com menos audiência, mas sim à natureza dos “assuntos correntes” que eles tratam de forma ainda mais “corrente” do que os media tradicionais. A competição-tensão entre blogues e os media tradicionais vem desse campo de actualidade que a forma blogue potencia e acelera.

Esta relação pesada com o presente fez os blogues superar as páginas pessoais e, mesmo instrumentos fáceis e grátis que surgiram no último ano para criação de páginas pessoais (como o Google Page Creator), estão longe de competir com o interesse pelos blogues. No entanto, a forma blogue é tão perecível como todas as outras e evoluirá com rapidez para outras formas de comunicação, que por sua vez gerarão novos efeitos da “fala”.

Algum software já disponível introduz novas funcionalidades que combinam as vantagens da presentificação do blogue com um maior papel para modelos em que a “fala” ganha um novo volume, uma nova densidade temporal. Este caminho será facilitado também pelo aumento exponencial da capacidade de armazenamento dos computadores, aproximando-se da possibilidade de nos “meter” dentro de um disco: memórias, estados de alma, visões, sonhos, sons, leituras, imagens, falas, cheiros, afectos, gestos, saberes.

Os estudos sobre o cérebro, a memória, a realidade virtual, teorias sobre os “meme” e projectos como o MyLifeBits, podem mostrar-nos como evoluirá o software do imediato futuro, disponível para que cada um “fale”, em teoria para um mundo inteiro que o pode ouvir. Tudo isto acompanhará aquilo que tenho chamado a “biologização dos devices”, a sua colagem ao nosso corpo, à nossa casa, a diminuição da distância física entre nós e as vozes que nos chegam de fora. Não custa compreender as enormes mudanças que estão em curso, todas diminuindo a distinção entre a realidade e a virtualidade, alterando as literacias necessárias para compreender e agir no mundo real, podendo, conforme a “riqueza” da cada um, ser mais inclusivas ou exclusivas socialmente.

A análise deste processo ganha em ser compreendida também pelo passado da “fala” que perpassa nos blogues e dos seus precedentes. No próximo artigo analisarei os diários como protoblogues, escolhendo exemplos em francês, os diários-cadernos de Valery, Camus, Paul Morand e Cioran e as semelhanças e diferenças de uma escrita presa à sua circunstância vivida no tempo.


A 19 de Junho tem início o Caderno de Verão, “Uma experiência com os dias contados. Escrevem António Figueira, Ivan Nunes, Joana Amaral Dias e Nuno Ramos de Almeida“, activo durante… o Verão (até 22 de Setembro), vindo então a dar lugar ao 5 dias.

No dia 22, Pacheco Pereira editava no Público a segunda parte de um artigo sobre o “estado da blogosfera.

OS BLOGUES ANTES DOS BLOGUES

Tenho o fragmento no sangue.”
(Cioran)

“A escrita que se encontra hoje nos blogues é velha como o tempo, embora o tempo pregue partidas, transformando as coisas noutras muito diferentes. O tempo é aquilo a que hoje se chama os “suportes”, no caso da escrita na Rede, a forma dos blogues.

Repito, a tecnologia do software em que assentam os blogues tem um papel ao moldar a sua forma. Vimos no artigo anterior como ela valoriza o presente, presentificando a escrita, obrigando-a à actualidade. Agora podemos ver como ela acentua aspectos da escrita: favorece o texto contido, aquilo que na linguagem da blogosfera se chama o “post curto”. O “post curto” gera uma tensão sobre o espaço das palavras, acentua a utilização estética da frase, em combinação com o título e com outros elementos gráficos. O facto de os blogues poderem usar simultaneamente texto e imagens, sons e vídeo está a dar origem à primeira grande vaga de um novo tipo de textos, nascidos na Rede e para serem lidos na Rede.

Os blogues revelam e geram novas normas de leitura na Rede que são distintas dos livros, acentuando a não-linearidade da leitura. Esta segue não apenas a frase, mas as ligações, ganha em espessura ao deslocar-se entre as diferentes páginas associadas pelo hipertexto (mais em Hypertext). Move-se não apenas no texto, mas também pelas imagens e sons ligados ao texto, em detrimento da leitura sequencial, habitual no livro e nos jornais. A leitura num ecrã raras vezes anda para trás, tende a andar para o lado antes de andar para a frente. A escrita nos blogues é moldada por estas características físicas do novo texto electrónico e, no seu conjunto, está a ensinar a uma geração um novo cânone de leitura e escrita que poucos exploram conscientemente, mas que molda a todos.

Ora nem todo o tipo de texto, nem todos os conteúdos se prestam a esta nova forma que despedaça legibilidades antigas a favor de novas. No “post curto” a escrita vai desde a mera frase com uma ligação, ou seja, uma porta, um caminho que nos leva para longe daquela página, daquele ecrã até à entrada diarística, impressionista ou faceta, até ao mini-ensaio, pouco mais do que o aforismo. É uma escrita que favorece, comunicando quer com os títulos de jornais, quer com o aforismo, a utilização de mecanismos poéticos, mas também humorísticos e sarcásticos. Nesse sentido os blogues caem sob a crítica que Lukács fazia aos textos de Nietzsche - a de serem, pela sua forma, naturalmente irracionalistas, valorizando a metáfora, a sedução estética, em detrimento da argumentação.

Que textos têm esta qualidade de serem protoblogues? Toda a escrita moldada pelo tempo, ou pela “construção” da personagem (ou da obra) pelo tempo. Os diários, ou uma forma muito francesa de diários, os “cadernos”. Mas também alguma correspondência e ensaios. Textos que colocados em blogues parecem ser escritos para blogues encontram-se no Para Além do Bem e do Mal de Nietzsche, em anotações de Kafka, nos “propos” de Alain, nos diários de Morand, nos “cadernos” de Camus, Valery e Cioran. Noutros casos, o tempo e a história “partiram” os textos originais, dando-lhe essa qualidade de escrita de blogues, como acontece com os fragmentos dos pré-socráticos, restos de textos mais compridos, de tratados e de livros. E muito do que encontramos em dicionários de citações, frases que vivem por si próprias, são matéria-prima de blogues.

No plano gráfico, muitos “cadernos” de desenhos, a começar pelos desenhos de Leonardo da Vinci com anotações, muito dos moleskines de artistas, em que o esboço e o texto manuscrito se entrelaçam, alguma banda desenhada, alguns livros de viagens. A fotografia deu origem a fotoblogues, mas está longe de revelar as suas potencialidades na construção narrativa dos blogues, para onde transporta, em imagem, tudo o que valoriza o texto curto: a impressão, o fragmento da realidade, o “olhar” no tempo. No vídeo, o sketch, o pequeno filme caseiro do género dos “apanhados”, alguns filmes publicitários. O som é o menos explorado nos blogues, mas a sua utilização, por exemplo no Kottke.org como complemento de viagem - o som dos semáforos de Singapura, o ruído de um mercado, o barulho de uma fábrica -, acentua a fragmentação da narrativa ou da ilustração que está no âmago da escrita dos blogues.

Muito significativamente, todo este tipo de material é favorito na actividade de “cópia-colagem” que também a forma blogue e a Rede favorecem, apropriando-se cada um das citações, de textos e imagens que servem de reforço da sua identidade em linha. Nalgumas experiências com sucesso na blogosfera, diários foram colocados na Rede, como o de Samuel Pepys, que foi transformado num blogue, com o texto original e ligações, dando uma nova legibilidade ao texto original do século XVII.

Seria possível fazer o mesmo com muitos “cadernos” de Cioran, Camus e Valery, muito diferentes entre si, mas todos passando o teste do blogue. O facto de, no caso de Cioran, este não ter a intenção de os divulgar e inclusive ter pedido para que fossem destruídos, não retira aos seus textos a pulsão fragmentária que os aproxima do registo dos blogues. Aliás, Cioran, autor dos Silogismos da Amargura é um cultor de uma forma de escrita muito adaptada ao “post curto”.

Valery passava o teste e os seus cadernos ganhariam muito com o uso de hipertexto e ligações. Um aspecto fundamental, nos cadernos de Valery, é a sua utilização como instrumento para a construção da obra, como meio de treinar o pensamento, mas também de o desenvolver, experimentar, testar, deixando-o aparecer sem a responsabilidade do ensaio final, do livro a publicar. Valery usava os seus cadernos, que escreveu ininterruptamente (no final eram cerca de 261 com 28.000 páginas), como um instrumento para pensar, fazendo uso não só da escrita, mas também do desenho, e escrevendo sobre tudo: arte, filosofia, poesia, matemática. E escreveu sobre como o “eu”, como o “seu cogito” “funcionava”, matéria de blogues, como se sabe.

Camus é, de todos, quem, sem dúvidas, faria um blogue excepcional. A escrita, umas vezes mais tensa e outras mais solta, curta e imagética, intercalando fragmentos de diálogos, recordações de paisagens e de encontros, notas de leitura, revela o olhar de Camus sobre a sua geografia africana peculiar, a Argélia, e sobre os acontecimentos que está a viver. Os cadernos de Camus não só suportariam o formato do blogue, como ganhariam com a imagem na sua dimensão mediterrânica. Ganhariam também com o hipertexto, embora menos que Valery ou Cioran, que quase o exigem para serem devidamente lidos.

Em todos os casos que referi, a legibilidade dos textos na actualidade ganharia com a forma blogue, pela representação mais perfeita do tempo que a Rede permite. Os cadernos de Camus são os que melhor se lêem, enquanto os de Valery e de Cioran só são legíveis, na sua forma livro, em antologias depuradas. O de Cioran tem centenas de páginas de um grosso volume e os de Valery estendem-se por dez volumes na edição da Gallimard. Mesmo em Portugal foram os únicos divulgados numa edição barata e popular, de há muito esgotada.

Por tudo isto, valia a pena, e acabará com certeza por ser feito, o teste prático de colocar todas estas escritas na Rede usando modelos iguais ou próximos dos blogues. A blogosfera terá então ao seu lado Nietzsche, Valery, Camus, Cioran e tantos outros, como autores de blogues.

A 23, comemorando o 3º aniversário do Blogouve-se, João Paulo Meneses disponibiliza os textos do blogue em forma de “livro virtual“.

Termina também o período de regresso do Desejo Casar (igualmente a 23 de Junho, ainda com “despedida” a 1 de Agosto), na mesma altura em que se consuma o início do fim do Devagares (a 25 de Junho - não obstante o “Fim de emissão” apenas a 17 de Setembro).


No final do mês, a 29, em mais uma edição de “Livros em Desassossego, o debate – com a participação de Pedro Mexia, blogger, poeta e cronista (que já publicou um livro em que reúne uma selecção de textos publicados n’A Coluna Infame e no Dicionário do Diabo - “Fora do Mundo); Eduardo Prado Coelho, professor universitário, cronista e crítico literário e Fernanda Câncio, blogger e jornalista, e com a moderação de Carlos Vaz Marques – versou o tema: Blogues e livros: cúmplices ou rivais?

Fernanda Câncio já antecipara não imaginar a transposição para livro dos textos que publica no blogue; Eduardo Prado Coelho, defendeu uma posição irredutível, de preservação da “pureza do (seu) desconhecimento do fenómeno da blogosfera.

Eduardo Prado Coelho declarou não ser leitor de blogues, nem pretender vir a sê-lo, por uma razão simples: existem tantas alternativas disponíveis, que já nos tomam tanto tempo, que não haverá necessidade de estar a introduzir mais um elemento “estranho nos hábitos de quotidiano (por exemplo, ver televisão entre as 20h e as 2 da manhã, ler o Expresso, Diário de Notícias e Público aos Sábados de manhã, …); o tempo disponível poderá ser aproveitado, com vantagem – defende o professor universitário, cronista e crítico literário –, nomeadamente com a leitura de obras de literatura.

Exposta amiúde a contradição pelo facto de, afirmando não ler blogues, parecer ter “opinião formada sobre alguns deles, rechaçou tal asserção, alegando que o conhecimento que tem dos blogues deriva das citações publicadas no Diário de Notícias.

Com posições antagónicas e obviamente inconciliáveis em relação a Eduardo Prado Coelho, Pedro Mexia e Fernanda Câncio procuraram expor as “virtudes” da leitura de blogues.

Pedro Mexia começou por referir que a dicotomia blogues vs. jornais (ou “bloggers vs. jornalistas) era uma falsa questão – pode colocar-se nos EUA, em que há “bloggers que pretendem ser “alternativa aos media tradicionais; em Portugal, não haverá nenhum blogue que se oriente pelos princípios éticos e deontológicos de um jornal… apesar de haver blogues sobre jornalismo e blogues de jornalistas.

O poeta e “blogger perspectiva portanto os blogues mais como “cúmplices dos livros, do que como “rivais. Valoriza particularmente a possibilidade que vieram abrir da formação de comunidades de partilha de interesses e gostos literários, por exemplo, para além de terem dado a conhecer novos autores. Discordando claramente de Eduardo Prado Coelho, afirmou que, na blogosfera, se escreve bastante melhor que, em termos médios, nos jornais portugueses.

Sobre a transposição dos textos de blogues para livro, falou da dificuldade em “recontextualizar o que, ao sair da plataforma técnica de edição de blogues (que beneficia dos “links), fica algo descontextualizado ou “datado pelo imediatismo dessa forma de escrita, muitas vezes reactiva a textos de outros “bloggers.


Fernanda Câncio começou por explicar, a título de curiosidade, porque escrevia os seus textos no blogue em minúsculas (por uma questão prática, de rapidez, e por que não gosta do “uso abusivo” de maiúsculas).

Defendeu também que, não obstante o imediatismo e a instantaneidade da publicação, sem o período reflexivo que caracteriza outras formas de escrita, tal não significa necessariamente que a escrita não seja “pensada (mesmo quando falamos, temos a capacidade de pensar e continuar, em paralelo, a articular ideias!…) e, sobretudo, reafirmou também a sua discordância com Eduardo Prado Coelho quanto à alegada falta de qualidade da escrita na blogosfera.

Pelo contrário, Pedro Mexia e Fernanda Câncio concordaram que os blogues possibilitam uma criatividade e tipo de expressão necessariamente ausente dos jornais, em particular a caracterizada pelos “posts curtos, ou “aforismos, na expressão de Pedro Mexia. Falar-se-ia também na “construção de uma personalidade própria – que se pretenderia ver reconhecida como “positiva” – como uma motivação de alguns “bloggers.

A dado momento, da audiência pareceu surgir a preocupação de os blogues serem a “porta de entrada dos jovens para a leitura, o que poderia ser entendido como algo eventualmente nefasto; nesse momento, o debate chegou mesmo a perder “um pouco o pé, quando se começou a amalgamar blogues, com a Internet em geral e… até com referência aos “videogames. Fernanda Câncio esclareceria que não antevia haver efeitos prejudiciais (antes pelo contrário) decorrentes da leitura de blogues, como actividade complementar a qualquer outro tipo de leituras.

Sobre a possibilidade de publicação em livro, Fernanda Câncio afasta-a; o estilo de escrita adoptado é diverso da escrita literária, para além da dificuldade que decorre do facto de, muitas vezes, os textos se encontrarem “datados, por se tratar da referida escrita “reactiva ao que foi escrito por outros, ou relativamente a acontecimentos da actualidade.

Noutra intervenção da assistência, foi sublinhado o papel inovador dos blogues como uma forma inédita de expressão escrita, com a plataforma técnica a proporcionar o intercâmbio quase instantâneo de ideias. E de como alguns autores portugueses poderiam ter beneficiado das potencialidades da ferramenta, citando-se, por exemplo, Vergílio Ferreira.

Este debate foi também notícia aqui.

O final do mês de Junho marca também o início da “debandada da plataforma do weblog.com.pt, com a mudança do Adufe para uma nova plataforma (Adufe 3.0, no “Blogsome“).


A 3 de Julho, a Visão lançava os blogues: “Visão7Sul e “Visão7Norte, com as correspondentes agendas culturais e de espectáculos.

Na mesma altura, o Expresso apresentava também o “Caro leitor - O Blogue da Direcção do Expresso.

Entretanto, a SIC lançara também uma rede de blogues para acompanhamento de temáticas tão diversas como a situação em Timor, o furacão Katrina, o conflito no Líbano, ou o 11 de Setembro (”Impressões”, por Luís Costa Ribas), ou as expedições de João Garcia ao Shisha Pangma e Kangchenjunga.

E, a 6, Luís Carmelo iniciava a publicação, também no Expresso, de “Blogues e meteoros:

“Blogues e meteoros

De olho na blogoesfera

Escrevi há uma década o meu primeiro livro acerca dos temas da instantaneidade e da teoria da cultura. O título desse livro, Anjos e Meteoros, torna-se hoje no subtexto com que passo a baptizar estas crónicas.

Não há adaptações inocentes. Nem de um filme que adapta um romance (já vivi a experiência), nem de um nome que adapta uma tradição (por mais íntima que seja). Quando se adapta, repete-se uma respiração, um sabor, um aceno que nos povoa. Se nesse livro já distante, os anjos eram mediadores entre a ordem terrena e uma outra omnipresente e perfeita, já os blogues de hoje contracenam com a metáfora da velocidade – os meteoros – enquanto novos enunciados que estão a contribuir para alargar o espaço público contemporâneo na omnipresença da rede (e não só).

Quando um novo medium surge, é normal que haja um período inicial de adequação das linguagens à nova moldura comunicacional. Essa procura de sentido aconteceu, por exemplo, com a fotografia, com o cinema, com a rádio ou com a televisão.

Na fotografia, Disdéri codificou a pose, Nadar patenteou a fotografia aérea, os retratos fizeram furor nas classes médias, Ruskin sentiu-se esteticamente incomodado, Muybridge ensaiou o movimento e Salomon criou o fotojornalismo. No cinema, Méliès viveu a mais feérica das prestidigitações, enquanto os Lumière nem chegaram a acreditar no destino ficcional da imagem móvel. Guazzoni fez ressoar a tradição operática, Griffith celebrou a montagem, as séries de episódios fizeram brado e as muitas vanguardas entraram em cena após a Primeira Grande Guerra Mundial. A rádio demorou algum tempo para saber o que fazer a uma voz que estava e não estava, ao mesmo tempo, nos locais onde era escutada. A televisão inventou-se a falar devagar com locutoras fotogénicas que anunciavam uma faixa de programas para todo o serão. Um dia veio a cor, o vídeo e o digital. A televisão, às vezes, já não sabe se é televisão, mas continua a processar-se como se fosse, ela mesma, uma permanente metamorfose de tons.

Ainda que grande parte dos bloggers (passarei a utilizar a palavra “blogueador) e dos críticos da blogosfera não tenham plena consciência do fenómeno, a verdade é que a blogosfera está a atravessar, neste preciso momento, o seu período histórico de procura, ou de adequação do uso das linguagens às características inovadoras do novo medium. Esta travessia pioneira é riquíssima e está excessivamente próxima da experiência para que possa ser ajuizada e examinada de um modo taxativo. Contudo, sinalizá-la, proceder a anatomias cruzadas, identificar tendências e entender os modos como está a criar impactos diversos na rede e no mundo off-line é uma tarefa, não apenas possível, quanto urgente.

É esse o desígnio e o desafio desta espécie de observatório da blogosfera.”

Luís Carmelo (prof. universitário e ensaísta)


No dia 10 de Julho, Paulo Querido iniciava também a sua coluna “Web 2.0, no Expressonline.

No mesmo dia, nascia o Nireblog, sistema multilingue de criação de blogues gratuitos, inicialmente com versões em Português, Espanhol e Basco. Cada língua tem a sua página autónoma, sendo possível seguir a actividade de todos os blogues.

Em 18 de Julho, José Pacheco Pereira anuncia a existência de um “falso Abrupto, que faz notícia 2 dias depois; Paulo Querido daria algumas pistas sobre a questão.

Coincidindo com o seu 35º aniversário, a 27 de Julho, Pedro Boucherie Mendes colocava termo (tal como anunciado desde a sua criação) a “Aos 35, com a entrada “35 coisas que aprendi em 35 anos, de que aqui destaco alguns dos pontos:

1. O amor que temos aos nossos filhos, mesmo infinito, quase nunca nos satisfaz.
3. O sucesso e a felicidade dos nossos amigos é tão importante como o nosso.
8. Na verdade, as pessoas não querem que sejamos francos e directos.
9. Mas quando somos respeitam-nos infinitamente mais.
18. Poucos sabem o que fazer perante um caderno branco e uma caneta.
24. Não somos piores pessoas do que os outros.
25. Nem melhores
.

No final do mês de Julho, é apresentada no PubADdict uma “representação gráfica da blogosfera.


Agosto traz a publicação, na revista “Psicologia Actual de um dossier sobre a blogosfera, organizado por Catarina Campos e José Manuel Fonseca (Anarca Constipado), compreendendo os textos:

- “O porquê dos blogues – Jorge Bacelar (“Animal, do Blogue dos Marretas);
- “Teoria crítica da blogosfera – “O Pornographo;
- “Anatomia de um bloguer – Gabriel Silva (Blasfémias);
- “A arte de blogar através dos tempos – Filipe Nunes Vicente (Mar Salgado);
- “Babyblog – Catarina Campos (100nada / O Meu Filho e Eu / Sociedade Anónima);
- “Engate e amor na blogosfera – Sofia Vieira (Controversa Maresia / Passeai Flores / Sociedade Anónima);
- “Como criar um blogue – Pedro Zany Caldeira; e
- “Blogodependência – Pedro Zany Caldeira

E encerra com ampla discussão blogosférica a propósito da crítica de Eduardo Cintra Torres ao facto de a RTP não dar a “devida relevância” aos incêndios no Parque do Gerês (ver nomeadamente, entre muitos outros, A Esquina do Rio, o Adufe, Blogouve-se, Causa Nossa, ContraFactos & Argumentos e French Kissin - também aqui e aqui).


O mês de Setembro é assinalado com uma nova iniciativa de Luís Carmelo, no Miniscente (desde 30 de Agosto), as “Mini-entrevistas sobre a blogosfera.

A 3, é apresentado um ranking de blogues portugueses, o “Top blogs, um exercício de ordenação ponderada dos blogues nacionais, organizado pelo blog PubADict.

Com base nesta análise, os blogues de maior notoriedade em Portugal seriam assim ordenados:

1. Blasfémias
2. Abrupto
3. Causa Nossa
4. O Insurgente
5. Rua da Judiaria
6. Blogotinha
7. Blogue dos Marretas
8. Gato Fedorento
9. A Arte da Fuga
10. Mar Salgado

No mesmo dia, o Tugir denuncia a presença de representantes das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – consideradas pela União Europeia com um grupo terrorista), na Festa do Avante, criando um movimento de indignação.

Numa iniciativa inédita em Portugal, coincidindo com o lançamento do novo semanário, “SOL“, a 16 de Setembro, o site do jornal permite – para além de aceder à edição em papel –, a criação de uma rede de blogues, numa plataforma própria, visando assim a formação de uma “comunidade virtual”.

A 17, Paulo Querido lança o primeiro anúncio em Portugal solicitandobloggers.

No mesmo dia, e na sequência do “Caderno de Verão, nasce o “5 dias, com a participação de Rui Tavares, António Figueira, Joana Amaral Dias, Ivan Nunes e Nuno Ramos de Almeida: “5 dias é uma nova experiência de comunicação via internet. Não é blogue colectivo, mas antes uma sucessão de blogues individuais e personalizados ou, melhor ainda, um portal de opinião e notícias com um editor diferente em cada dia da semana. Os editores são os que estão ali acima: de segunda a sexta poderão ser aqui encontrados não só os seus textos, mas também contribuições de terceiros escolhidas e enquadradas pelo respectivo editor.

O dia seguinte marca o termo do Terceiro Anel, blogue dedicado ao “desporto-rei”.

A 20 de Setembro, os blogues são objecto de análise na revista “Focus, conforme comentado no Tugir.

A 21 é anunciada a chegada de Pedro Arroja à blogosfera, via Blasfémias, gerando, desde logo, alargada polémica.


A 3 de Outubro nasce o “Passado/Presente – A construção da memória no mundo contemporâneo (entretanto também transferido para a plataforma Wordpress), classificado pelos autores (Rui Bebiano, Miguel Cardina e Tiago Barbosa Ribeiro) como um “quase-blogue”, dedicado à reflexão em torno das relações entre história, memória e actualidade.

É então lançado o livro “Blogs e a Fragmentação do Espaço Público, um estudo fundamental para compreender o papel e relevância da blogosfera em Portugal, da autoria de Catarina Rodrigues, co-organizadora do 2º Encontro de Weblogs (em Outubro de 2005, na Universidade da Beira Interior, na Covilhã). Numa edição de “Livros Labcom” (Laboratório de Comunicação On-line (http://www.labcom.ubi.pt), um espaço física e virtualmente afecto ao Departamento de Comunicação e Artes da Universidade da Beira Interior), este trabalho encontra-se disponível gratuitamente em versão digital (PDF):

As possibilidades permitidas pelos blogs colocam-nos perante um alargamento do espaço público, no âmbito da apresentação de diferentes pontos de vista sobre determinados assuntos. Simultaneamente, a comunicação é feita de forma cada vez mais segmentada e consequentemente fragmentada. A fragmentação referida neste livro manifesta-se sobretudo através da publicação individual permitida pelas potencialidades destas ferramentas comunicacionais e é justificada em cinco capítulos. A fragmentação do espaço público, o regresso de uma subjectividade opinativa, a relação entre blogues e jornalismo, a presença destas ferramentas nas mais diversas áreas e a emergência de novas identidades são as principais temáticas abordadas.”

A 10 de Outubro, numa iniciativa de Rui Cerdeira Branco, nasce um novo blogue temático, o Economia & Finanças… sobre economia e finanças.


A 13 e 14 de Outubro decorre no Porto o 3º Encontro Nacional de Weblogs.

Destaco aqui a intervenção de José Luis Orihuela, “Porque é que os weblogs (não) vão acabar em 2006?” - concluída com 10 “dicas” para novos bloggers:

1. Começa a ler blogs
2. Experimenta várias ferramentas
3. Escolhe um tema, um blog disperso fracassa. Domina o tema e fornece muita informação sobre ele.
4. Toma em atenção a qualidade da escrita, não escrevas como uma “SMS”, um blog é comunicação pública.
5. Faz links para as fontes
6. Esquece as estatísticas e comentários
7. Espera o tempo suficiente para o promover. Só quando tiveres mais conteúdos interessantes é que merecerás um link.
8. Participa na Blogosfera, comenta o trabalho dos outros.
9. Lembra-te que o blog é público, por isso deves ter cuidado com a qualidade.
10. Diverte-te!

As comunicações desta reunião encontram-se disponíveis aqui.

Para saber mais sobre este evento, consultar os com