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7.2. Blogosfera em 2004
O ano de 2004 começava – logo a 3 de Janeiro (Sábado) –, com o artigo de Paulo Querido na revista “Única”, do “Expresso”, intitulado “Blogues de A a Z”:
“2003 foi o ano da diáspora dos blogues portugueses. 2004 será o ano da consolidação. Um guia para acompanhar o futuro”.
Para além do destaque de alguns dos “blogues” que maior relevância assumiram na blogosfera portuguesa no ano de 2003, apresentava ainda alguns aspectos técnicos, relacionados nomeadamente com “Feed” (sindicância), “RSS” e “XML”, para além de utilitários.
No dia seguinte, no Rua da Judiaria, Nuno Guerreiro fazia referência ao artigo sobre a blogosfera portuguesa, com menções a “O Meu Pipi” e ao “Abrupto”, publicado no jornal israelita Ha’aretz:
“… o diário israelita de referência Ha’aretz publicou na sua revista de sexta-feira um resumo de artigo original do Público (Joana Gorjão Henriques) sobre O Meu Pipi. Mesmo para aqueles que não lêem hebraico, vale a pena passar os olhos por esta prosa do Ha’aretz, e descortinar referências, em caracteres latinos, a O Meu Pipi e ao Abrupto. O ano começa bem para a nossa blogosfera. Que 2004 seja um ano feliz.”
De
A 6 de Janeiro, Paulo Querido lança uma novidade, ao colocar disponível na Internet o primeiro texto sobre “blogues” a título de conteúdo pago (o artigo “Blogues de A a Z”, que havia sido publicado na revista do “Expresso2 de 3 de Janeiro).
A 9 de Janeiro, iniciava-se, na SIC RADICAL, com a “equipa completa”, formada pelos quatro autores do “blogue” com o mesmo nome, o programa humorístico “Gato Fedorento”:
“Lamentavelmente, esta Sexta-feira, 9 de Janeiro, às 9 da noite, estreia na SIC Radical o Gato Fedorento, criado, escrito e interpretado pelos quatro autores deste blog. Por enquanto, com apenas 15 minutos – em vez dos 25 que virá a ter – para minimizar o choque dos espectadores mais sensíveis.”
A atestar o sucesso do programa, seguiram-se, já em Novembro, espectáculos ao vivo e a edição de um DVD duplo com todos os sketches da série “Fonseca”.
A 14 de Janeiro, o “Jornalismo e Comunicação” informa que: “O Livro de Bolso do Weblogue, de Rebecca Blood, um dos nomes de referência da blogosfera, vai ser editado pela Campo das Letras, já no mês de Fevereiro, segundo acaba de anunciar a editora. O livro foi publicado em inglês pela Perseus Publishing, em Julho de 2002, com o título The Weblog Handbook: Practical Advice on Creating and Maintaining Your Blog”.
No dia seguinte, o programa de debate político da SIC Notícias, “Quadratura do Círculo”, moderado por Carlos Andrade, com as participações de José Magalhães, Lobo Xavier e Pacheco Pereira (sucessor do famoso programa de sucesso na rádio, “Flashback”, na TSF), inaugura o seu “blogue”: “Quadratura do Círculo” – “Está aberto o debate”.
A 22 de Janeiro, a partir de uma ideia / sugestão de Pacheco Pereira, tem início o “blogue” dos “Cadernos de Camus“ (com “textos a partir dos textos de Camus”), um projecto em “stand-by”:
“Um blogue sobre os cadernos de Camus Repito aqui uma sugestão que já tinha feito há uns meses: usar os cadernos de Camus como texto inicial para um blogue de literatura e filosofia, e, a partir dos seus textos, colocar outros textos, meta-textos sobre as entradas originais de Camus, numa espécie de trabalho colectivo, uma never ending story de inspiração camusiana. Para este tipo de coisas os blogues são uma boa fórmula e o resultado pode vir a ser publicado mais tarde em livro. (Agora que escrevo isto, outros textos também dariam blogues interessantes, certas partes da Bíblia por exemplo.)”
(ver também a entrada no Abrupto, a 13 de Janeiro, “Proto-bloguismo”).
Os dias 22 e 23 de Janeiro seriam dias de “grande rebuliço” e efervescência na blogosfera, a propósito da discussão sobre a autoria do blogue “Possibilidade do Sentir“, cuja autora se fazia passar pela jornalista Anabela Mota Ribeiro, então a iniciar a apresentação de magazine cultural no novo canal “A Dois”.
Para se ter uma ideia da polémica então lançada, veja-se a seguir uma relação(amostra apenas exemplificativa, uma vez que a lista seria bastante extensa!) do que então se “disse”/escreveu: Glória Fácil, Outro, eu, e também aqui, Terras do Nunca, Para mim tanto faz (diversas entradas, a 21 e 22 de Janeiro), Cruzes Canhoto e Matamouros.
Tal como no caso posteriormente verificado de um “blogue” que, a coberto de um nome pouco menos que risível (Matinha Morning Herald) mas com o endereço “http://tsfradio.blogspot.com” (!), se procurou “fazer passar” por algo da responsabilidade de profissionais da TSF, a lição que devemos extrair destas situações é a necessidade de sermos, todos, cada vez mais cuidadosos, perante estas “cartas anónimas”, a faceta “perversa do poder da net”. Hoje, tal como então, parece-me que não podemos “dar crédito” a tudo o que se lê ou diz.
A 24 de Janeiro, a revista “Única”, do Expresso, na secção “Gente” faz referência à atribuição do prémio de melhor “blogue” do ano, atribuído pelos leitores do Ânimo ao Adufe.
O mês de Janeiro encerrava com a revelação, a 29, no “Jornalismo e Comunicação“, “em primeira mão”, de um novo livro sobre “blogues”, da autoria de António Granado e Elisabete Barbosa: “Elisabete Barbosa, do Jornalismo Digital, e António Granado, do Ponto Media são os autores do livro “Weblogs – Diário de Bordo” que vai ser lançado no próximo dia 12 de Fevereiro, pelas 18 horas, na FNAC do Norteshopping”.
A 11 de Fevereiro, Miguel Poiares Maduro escrevia, no Diário de Notícias, uma crónica tendo por temática os “blogues”, em que se destaca a afirmação de que “muita da melhor opinião que se escreve em Portugal hoje em dia encontra-se nos blogs”:
“Os Blogs
Nesta coluna de «blogs» nunca falámos dos verdadeiros blogs, os originais! E, no entanto, este é um dos fenómenos mais interessantes dos últimos anos em Portugal: a emergência de uma nova comunidade crítica e de uma opinião livre de uma marca política partidária. Sejamos honestos, muita da melhor opinião que se escreve em Portugal hoje em dia encontra-se nos blogs. Importados dos Estados Unidos, começaram por trazer uma nova opinião de direita ao espaço público português, mas hoje parecem ser os blogs de esquerda que estão mais activos (a isso não será estranho o facto de, felizmente, muitos dos bloguistas de direita terem passado a colaborar, igualmente, na imprensa escrita, o mesmo não tendo sucedido, da mesma forma, à esquerda). Se quisesse ser provocador, diria que a direita chegou primeiro mas se aburguesou e que a esquerda chegou mais tarde mas é mais resistente. O que mais admiro no espaço público dos blogs, no entanto, é que a defesa de um discurso ideológico marcado e transparente coincide com a manifestação de uma notável liberdade face aos campos tradicionalmente definidos pelo discurso partidário e da opinião escrita dominante
A 12 de Fevereiro, conforme já antes anunciado, era então lançado o livro de António Granado e Elisabete Barbosa: “Weblogs – Diário de Bordo“.
Para, no imediato, a 13 de Fevereiro, alguns membros do CDS-PP lançarem “O Blog do Caldas“, o primeiro “blogue oficial” de um partido em Portugal, o qual viria a ter início efectivo apenas a 2 de Março.
A 16 de Fevereiro, Pedro Lomba anunciava o fim do “Flor de Obsessão”:
“Caros amigos: Hesitei antes de escrever o que se segue mas tem de ser. Este é o meu post de despedida da blogosfera. Por muitas razões, deixei de ter tempo e disponibilidade mental para manter este blog. Não é nada fácil, como sabem, manter um blog individual. No último ano e meio, fui um blogger irregular mas compulsivo. Li, escrevi, citei. Esse tempo, em certa medida, terminou. Gosto muito da blogosfera que conheço. Continuo a gostar. Não deixei de querer escrever ou ler com a mesma vontade. Mas falta-me tempo para prosseguir com o «Flor de Obsessão». Acho que não é muito interessante escrever cinco posts por mês. É melhor acabar. A vida é assim mesmo. Temos de fazer escolhas, escolhas trágicas, irreparáveis, perdedoras. O blog foi uma das grandes experiências do meu último ano. Vou ter saudades. Estou a ser, bem sei, tão português por acabar com ele. Nós somos os únicos habitantes deste mundo que deixamos as coisas a meio, que não terminamos nada, que saímos quando ninguém espera. Adiar, interromper, parar, são verbos muito portugueses. Eu sei disso. Eu tenho todos os defeitos dos meus compatriotas. Agradeço do fundo do coração a todos aqueles que me escreveram, que me citaram, que me sugeriram. Agradeço os incentivos, os vossos mails , os comentários e respostas, até mesmo a vossa ocasional impaciência com uns quantos disparates que escrevi aqui. Acreditem que nada me passou ao lado. Acreditem que pensei
A 19 de Fevereiro, Luís Ene (entretanto regressado ao Ene Coisas, após uma breve pausa) lançava o “1º Concurso de Literatura para Blogs“.
A 23 de Fevereiro, no 17º aniversário do desaparecimento de Zeca Afonso, um “blogue“ reune as homenagens a esta grande figura da cultura portuguesa (mais de 40 “blogues” publicaram textos alusivos à data, centralizados na referida página agregadora).
No mesmo dia, tem início o “Roma Antiga“, um blogue de características bastante específicas: “Blog sobre a Roma Antiga: história, cultura, usos e costumes”.
E, também a 23, o “Público” lança um “blogue“ sobre a campanha para as eleições presidenciais norte-americanas.
A 25 de Fevereiro, Carlos Vaz Marques anuncia o “óbito” do “Outro, eu”, uma perda significativa para a blogosfera portuguesa, uma visão com uma sensibilidade particular de um excelente jornalista, “consagrado” em particular na entrevista na rádio (“Pessoal… e transmissível”, na TSF), mas também na “entrevista escrita”. Entretanto, Carlos Vaz Marques parece querer proporcionar-nos o prazer do seu regresso; oxalá!
Ainda no mês de Fevereiro, dá-se o regresso da “Formiga de Langton”, após a “desintegração” porque passara antes. A “segunda vida da Formiga” seria, contudo, bastante limitada.
A 29 de Fevereiro, concretiza-se a primeira “mega-fusão” da blogosfera portuguesa, com o Mata-Mouros, Cataláxia e Cidadão Livre a concentrarem-se no novo “Blasfémias“, um “blogue” de cariz “liberal”.
E, no mesmo dia, uma “cisão”: Tiago Rodrigues, ex-Desejo Casar, inaugura o Mundo Perfeito (anteriormente, também já Luís Filipe Borges saíra, para o Causa Nossa…).
Num “agitado” final de Fevereiro, também a 29, Paulo Gorjão destaca no Bloguitica (”post” 496) (e também aqui - “post” 499), a “reacção” de um editorial de um jornal de referência (o “Público”) a um texto escrito num “blogue”:
“Hoje deu-se mais um pequeno passo na História da blogosfera nacional.Ainda que em post-scriptum, um editorial de um jornal de referência reage a um texto de um blogue: José Manuel Fernandes responde a João Madureira.”
“Post” de Paulo Gorjão no Bloguítica:
“Um leitor questiona por que motivo uma referência a um blogue num editorial de um jornal de referência é um momento relevante na História da blogosfera nacional. Por uma razão muito simples: muitos dos nossos opinion-makers – muitos deles, refira-se, consumidores diários dos textos dos blogues – entendem que não devem mencionar nos seus textos os blogues. Em conversas que tive com vários amigos meus que escrevem regularmente para os jornais, já me foi dito mais de uma vez que: “é pá, não podia reagir ao que o gajo escreveu no blogue sobre o meu texto”.Há nesta frase implícito um estatuto de menoridade naquilo que se escreve nos blogues. Por outras palavras, citar um blogue nos jornais é o mesmo que lhe estar a conferir um estatuto de seriedade que ele não tem.Quer se queira quer não, o reconhecimento da sua qualidade e a legitimação dos blogues passa também pelas referências à sua existência na imprensa. É por isso que a referência a um blogue num editorial de um jornal é importante.O que os mais resistentes considerarão, por sua vez, um erro…”
Nota no Editorial de José Manuel Fernandes, no “Público”
“Numa reacção ao primeiro dos dois textos de opinião que escrevi sexta e sábado sobre a guerra do Iraque, João Madureira, no “blog” Causa Nossa, dá a sua resposta ao que teria sucedido se não tivesse havido guerra para também concluir que Saddam se manteria no poder e se restabeleceriam com o Iraque relações comerciais e diplomáticas normais. A sua conclusão é que é diferente: para ele estaríamos muito melhor, até porque seriam empresas francesas, alemãs e russas a fazerem os negócios. Negócios com o ditador, naturalmente. Continua de facto a ser arrepiante como pessoas que se dizem de esquerda continuam a conviver bem com tais ditadores, e como lhes parece ser indiferente o sofrimento dos povos, como era o caso do iraquiano às mãos de Saddam.”
A 11 de Março, é comunicado o final do “Desejo Casar“; algum tempo depois (a 8 de Julho), nasceria o “Esplanar“, agrupando, entre outros, dois membros do antigo “Desejo Casar”.
A 13 de Março, era anunciado o lançamento do livro de Rebecca Blood, “O Livro de Bolso do Weblogue“
“Rebecca Blood: já saiu o livro
Já foi publicado o livro de Rebecca Blood intitulado “Livro de Bolso do Weblogue”, segundo a Campo das Letras que se encarregou de o traduzir (a informação da Editora refere sempre “Livro de Bolso DA Weblog”, mas suponho que será lapso. Refere ainda uma definição de weblogs que é, no mínimo, original: “Os Weblogues, actualizados regularmente, produzidos de forma independente e curiosamente viciantes, são hoje os sítios mais populares da Web”).”
A 13 de Março, Paulo Querido destaca, em artigo publicado na revista “Única”, do “Expresso”, “Os Blogues do Interior“ (ver também em entrada estendida).
A 18 de Março, inicia-se o Olissipo, um “blogue” que tem por temática Lisboa.
A 24 de Março, Pedro Lomba regressa à blogosfera, com a criação, juntamente com Francisco
Texto de Paulo Querido, no Expresso, de 13.03.04:
“Os blogues do Interior
Estão a ganhar terreno na blogosfera: promovem e debatem vilas e cidades do Interior, colmatando as deficiências informativas regionais.
(Texto publicado no Expresso de sábado, 13 de Março, e aqui reproduzido a pedido de várias famílias…)
É o caso de Ourém, que viu nascer
A 1 de Abril, na “Origem do Amor“, uma noite de atribuição de “Blóscares”, premiando alguns dos melhores “blogues”: “Prémio do Público” - Papoila Consulta; “Anel de bronze” - Bomba Inteligente; “Anel de prata” e “A melhor blogger” - Crónicas Matinais / Ana Albergaria; “Anel de ouro” e “O melhor blogger” - Dicionário do Diabo / Pedro Mexia.
No mesmo dia, o jornal tomarense “O Templário” publicava o artigo “Alguns blogs de Tomar“, destacando alguns “blogues” da região.
No dia seguinte, é a vez de Luís Ene anunciar os vencedores (eleitos pelos autores dos textos a concurso) do “1º Concurso Literário para Blogs“: vale a pena ler as histórias de João Ventura, Susana Paixão e Lutz Brückelmann.
A 3 de Abril, regista-se uma polémica entre Pacheco Pereira e jornalistas do Público (do “blogue Glória Fácil“), a propósito de “post” editado no “Abrupto“.
A 5 de Abril, e a propósito da comemoração do 30º aniversário do 25 de Abril, um “blogue” (“Aqui Posto de Comando“) reúne os textos alusivos (mais de 100 “blogues” publicaram cerca de 650 textos alusivos à data, agregados na referida página).
Também o autor de “O Jumento” criou um “blogue paralelo”, comemorativo do 25 de Abril.
A 9 de Abril, Paulo Querido escreve no “Expresso”, na Revista Única, “Blogues recordam 25 de Abril”, referindo nomeadamente as iniciativas do Barnabé (publicação diária de cartazes da época do PREC – “Processo Revolucionário em Curso“) e Grão de Areia.
Por esses dias de Abril, surgia a debate um polémico slogan (oficial) referindo que Abril era “Evolução” (deixando cair o R, de “Revolução”), com a blogosfera a dar uma clara resposta, mostrando a sua grande dinâmica, com textos muito bons, nomeadamente os de:
- Rui Tavares (Barnabé)
- Paulo Querido (O Vento Lá Fora - ver também aqui)
- Luís Ene (Ene Coisas)
- Luís Rainha no (Blogue de Esquerda - ver também aqui)
- e ainda este de José Mário Silva
- leia-se também a Internet para as Domésticas
- e, a terminar, esta “entrada” do genial Ricardo Araújo Pereira (Gato Fedorento), a 13 de Abril:
“ABRIL PARA TODOS: Não me surpreenderei se a revolução for perdendo letras todos os anos. Este ano, caiu o “r” (ou, para o ministro Morais Sarmento, mentor da ideia, o “g”). Ficou “evolução”, porque a palavra “revolução” maça a direita. Mas “evolução” também não me parece consensual. Os católicos criacionistas, por exemplo, nunca foram à bola com a evolução. Para eles, o 25 de Abril foi certamente criado por Deus. Mais: eles levam a mal que se lhes diga que as coisas são produto de um processo evolutivo. Já com aquela história dos macacos ficaram muito indispostos. Mais vale tirar o “e”. Para o ano, será: “Abril é volução”. É um bocado estranho, mas faz tanto sentido como o slogan deste ano.”
Depois do “entusiasmo mediático” do Verão de 2003, os “blogues” quase tinham “desaparecido” dos meios de comunicação tradicionais.
Paulo Pena, em artigo na revista “Visão” (edição de
“Em tempos que já lá vão, convocar uma manifestação dava muito trabalho. Era preciso escrever um panfleto e imprimi-lo aos milhares (a esquerda sempre teve um problema insolúvel com a ecologia…). Havia então que organizar a sua distribuição, o que implicava muitas mãos dispostas a repetir o mesmo gesto, nas ruas, à porta do metro, à saída das faculdades, nos portões das fábricas. Ou então, se havia dinheiro, a mensagem podia figurar em cartazes, colados por brigadas nocturnas, com uma mistela pouco saudável de soda cáustica, água e farinha. Hoje, só os curandeiros menos abastados usam destas técnicas. Uma manifestação pode nascer a partir de um telemóvel: «Não à guerra! manif. dia 20, 15H30, Lrg. Camões, Lx, Pr. Batalha, Porto. Manda para os telemóveis dos teus amigos.»
(ver mais em entrada estendida).
(artigo de Paulo Pena, na Revista “Visão”)
“Os blogs
Não é só na ATTAC que «há troca de informações sem hierarquia» nem «centros de decisão». Acompanhando o alastrar da Internet e dos telemóveis, o mundo dos fazedores de política cresceu. Seja na forma como se mobilizam manifestantes seja na discussão. Os blogs portugueses viveram o seu apogeu quando a guerra do Iraque monopolizava, e encarniçava, os debates. E conseguiram liderá-los.
A Coluna Infame nasceu para combater a «hegemonia cultural da esquerda». Era um ponto de encontro para «conservadores, liberais e independentes». Os seus responsáveis já escreviam em jornais (Pedro Mexia e Pedro Lomba vinham das páginas do DN Jovem, e o primeiro escrevia críticas literárias no DNA, enquanto
Por isso, até agora, os bons exemplos desta nova agitprop, são momentos que exigiam respostas rápidas. Em Espanha, a Telefónica calcula que na véspera das eleições espanholas o número de SMS subiu 20 % (cerca de 500 mil). No dia do escrutínio, o aumento foi de 40 % (um milhão de mensagens escritas).”
Ainda em Abril, a blogosfera volta a agitar-se com a história do despedimento de alegados jornalistas do “Primeiro de Janeiro”, pretensamente devido a expressarem, no “blogue” que mantinham (Diário de um jornalista), críticas à gestão interna do jornal.
A propósito, ver este texto no Diário de Notícias, que mereceu a seguinte resposta no referido “blogue”.
A ler também esta “entrada” no “blogue” A [Minha] Jornada (”Blogodespedimento” - 28.04.04).
Por fim, a 19 de Abril, António Granado escrevia no Ponto Media:
“Vai animada a discussão sobre o Diário de um Jornalista, um weblog assinado por algumas pessoas que se dizem jornalistas, mas que estão a executar tarefas que nada têm a ver com jornalismo, como já tive oportunidade de dizer. Pela minha parte, subscrevo o que o
A 28 de Abril, o “DiáriOnline do Algarve” (edição electrónica do jornal “Região Sul”) publica um artigo sobre a “blogosfera algarvia”:
“www.blogosfera-algarvia.com
Fenómeno de sucesso em 2003 também chegou ao Algarve
“Um dos maiores fenómenos do último ano chama-se blogue. Nasceu há alguns anos, mas só em 2003 conheceu o sucesso a nível nacional, fomentado pela presença de algumas figuras ilustres. No Algarve, existe igualmente uma comunidade de “bloggers” extensa e de qualidade. O Região Sul/DiáriOnline do Algarve foi conhecer este “novo mundo”.
E o que é um “blog”? A pergunta pode parecer descabida, mas a realidade é que aquele ainda é um universo desconhecido para muitos que não simpatizam com as novas tecnologias. O nome é uma abreviatura do termo “weblog” (”web”, de rede, e “log”, de diário de bordo).
Trata-se, segundo Paulo Querido e Luís Ene, autores do livro “Blogs”, editado pela Centro Atlântico, de um diário em “formato electrónico” que qualquer pessoa pode criar na “net”. “Não tem de ser actualizado todos os dias, nem a cada dia corresponde uma única entrada, ‘post’ ou texto”. Uma das características que o diferencia das antigas páginas pessoas é a “interactividade”. Cada um pode fazer daquele espaço o que entender.
A blogosfera lusa começou a mostrar-se no início de 2003. As primeiras referências devem-se às crónicas de António Granado e Isabel Coutinho, no Público, e Paulo Querido, no Expresso. No final de Janeiro, os precursores da expansão “bloguística” portuguesa, a “Coluna Infame” e o “Blog de Esquerda”, representando as “modernas” Direita e Esquerda, respectivamente, pólos de discussão política, social e cultural, são destacados nos principais jornais portugueses. O País começa a tomar o pulso a esta nova “moda”. E adere,
(ver continuação do texto em “entrada estendida”).
“Os blogues, enquanto formas individualizadas de expressão, originais e únicas, são uma voz imprescindível para se compreender o país em 2003. Eles expressam um mundo etário, social, comunicacional, cultural, político que, sendo uma continuação do mundo exterior, tem elementos ’sui generis’”, diz, numa das suas crónicas, Pacheco Pereira. A sua presença acaba por atrair muitos outros interessados. A “revolução” segue o seu curso.
Para Paulo Querido, algarvio, colaborador do Expresso na secção Internet e autor de “O Vento Lá Fora” (”uma extensão digital de mim, o meu arquivo, a minha memória”), o êxito dos blogues explica-se com o desejo de comunicação das pessoas, facilitado pela net. “Mas mesmo assim havia uma barreira: era necessário ter alguma preparação técnica mínima para fazer uma página. Os motores editoriais dos blogues resolveram isso: qualquer pessoa que saiba escrever e utilizar um ‘browser’ pode hoje ser um autor afamado. Julgo que a grande mudança foi essa: a facilidade de editar. Porque o desejo de o fazer já existia”, sustenta.
É também por essa altura (Abril/Maio de 2003) que começam a aparecer os primeiros blogues algarvios (ou feitos por algarvios). Desde logo, aquele que atinge maior sucesso a nível nacional - o “Jaquinzinhos”, de João Caetano Dias, um “algarvio, sportinguista e liberal”, amante de fotografia (com que também vai alimentando o seu “sítio”). “Foi apenas um impulso de momento. Lia regularmente a ‘Coluna Infame’, o ‘Fumaças’ e o ‘Blog de Esquerda’ e uma noite lembrei-me de criar um blogue. Tentei chamar-lhe ‘Postas de Pescada’ mas o nome já existia. Acabei por chamar-lhe ‘Jaquinzinhos’, sem pensar muito. Também nunca acreditei que ele durasse muito tempo. Não engano ninguém. A minha visão é algarvia, sportinguista e principalmente liberal. São três adjectivos que aceito e admito serem definitivos”, diz.
A “Lâmpada Mágica”, um espaço cultural de Jorge Candeias, é outro dos primeiros “weblogs” de origem algarvia. Prestes a fazer um ano, o autor, biólogo marinho de formação, oferece um sítio de “candeias às avessas”, com especial destaque para a literatura de ficção científica. Começa a formar-se um núcleo duro, conhecendo a luz do dia blogues como o “Ene Coisas” (de Luís Ene), o “Ambliguidades” e o “Hemoglobina Pura”. Um pouco mais tarde, surge o “MacJête”, “um blog algarvi, falad em algarvi e sem almariações nem marafações”, o mais curioso de todos, o defensor de um algarvio puro (só para especialistas na língua). Contudo, desde Outubro que o “móce marafad” está inactivo.
Os blogues “políticos”…
Uma área completamente diferente, de cariz mais político, começa a formar-se com o nascimento do “Vialgarve”, alimentado por muitos jovens com opinião marcada e cunhada, a partir do espaço Alternativa, que tem ocupado páginas de Opinião de diversos jornais algarvios nos últimos anos. Alguns deles criam os seus próprios espaços. É o caso de João Nuno Neves (”Alcagoita”) e Jorge Lamy Leal (”NotaSoltas”). Dirigentes políticos da região repetem os mesmos passos:
O chefe de gabinete de Macário Correia, presidente da Câmara Municipal de Tavira, recorda o seu primeiro contacto com a blogosfera através da imprensa e a posterior descoberta do “Abrupto”. “De seguida, aventurei-me a fazer um, através da ferramenta mais utilizada nesta área, o Blogger. E assim surgiu o “Al(maria)do”, cujo nome está escrito de forma incorrecta, intencionalmente. Trata-se de uma demonstração de afecto pelas Marias da minha família e não um sintoma de tontura ou embriaguês”, explica Fernando Viegas.
“Nunca tive um diário pessoal mas o “Al(maria)do” tem contornos que se assemelham a isso. É impossível, pelo menos para mim, ter um blogue perfeitamente identificado sem fazer referência a coisas que acontecem na minha vida. Por vezes até coisas tristes e que nos abalam profundamente, como a morte ou a doença de um familiar ou um simples momento de angústia”, diz o social-democrata, que tenta também “debater temas transversais da política ou da sociedade em que vivemos, sendo certo que é uma forma muito interessante de revelarmos a nossa opinião e de a debatermos com outras pessoas”.
Tavira é um caso especial na blogosfera, pois até a ancestral rivalidade política entre PSD e PS se espelha naqueles espaços. José Graça, socialista, criou o “Terra do Sol” para, em primeiro lugar, “partilhar a visão dos problemas e das potencialidades da Região do Algarve e do Concelho de Tavira, procurando sempre ideias novas que sejam viáveis e soluções de futuro que satisfaçam as necessidades dos algarvios e dos tavirenses com os meios e recursos disponíveis…”
“A ‘Terra do Sol’ fugiu sempre à lógica do diário pessoal, aliás, as questões mais pessoais ficam totalmente de fora. A blogosfera caracteriza-se por ser um meio muito ácido, pelo que prefiro apontar os sinais de esperança que surgem no meio do nevoeiro, alguns raios de sol que teimam em brilhar na escuridão que parece querer dominar os dias dos portugueses…”, sublinha o dirigente.
E nem o facto de ambos estarem ligados à política modifica alguma coisa. “As pessoas que me conhecem há alguns anos sabem que dentro e fora da política partidária tenho tentado manter a minha opinião sobre as coisas”, diz
A comunidade “bloguística” algarvia tem outros pontos de interesse: desde o “Formiga de Langton”, um “weblog” sobre “Ciência, Complexidade, Vida Artificial, Auto-Organização, Novos Media e Sociedade”, feito por um algarvio radicado em Lisboa, até ao “Um Pouco Mais de Sul”, onde pontifica José Carlos Barros, figura ligada ao Ambiente (com passagens pelo Parque Natural da Ria Formosa e Reserva do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António), que, com as suas avalizadas opiniões, tenta mostrar ao grande público os problemas ambientais e patrimoniais de que a região padece.
Destaque-se também o “Asul”, um verdadeiro guia da cidade de Olhão para viajantes cibernautas. O autor, Asulado, escreve apaixonadamente sobre a cidade da Restauração, e ali ficamos a conhecer os principais pontos de interesse do município, a agenda e os “sabores gastronómicos”. “Local e Blogal”, de António Baeta Oliveira, nasceu em Julho e permanece actualizado, oferecendo aos leitores vasta informação sobre o concelho de Silves. Menção para um dos poucos blogues colectivos de origem algarvia, com “base” em Olhão, o “Alcabrozes”.
Um alojador com “genes algarvios”…
O weblog.com.pt é um alojador de blogues totalmente português e de “genes algarvios”. Criado por Paulo Querido, saciou a necessidade do jornalista, na altura na fase de criação do livro que publicou em conjunto com Luís Ene, autor do “Ene Coisas”, em saber mais sobre o funcionamento de motores editoriais. “Montei um no meu servidor com esse propósito. De caminho, abri-o ao público; a expectativa era cativar alguns amigos e conhecidos, nunca imaginei que se fosse tornar numa referência da blogosfera nacional”, refere. O “weblogger” algarvio perdeu muito tempo mas aprendeu bastante sobre programação. E ainda mantém a “esperança de um dia recuperar o dinheiro investido…”
No espaço semanal que mantém no Expresso, Querido escreveu há algum tempo sobre os “blogues de província, que promovem e debatem vilas e cidades do Interior, colmatando as deficiências informativas regionais”, embora não tivesse citado qualquer exemplo algarvio. “O Algarve tem alguns blogues do género, e bons. Não foram citados no Expresso porque o artigo partiu de uma experiência directa em Beja e nos jornais o espaço é finito…”, explica.
Aliás, acrescenta, “foram os blogues algarvios os primeiros a dar um cunho regional aos conteúdos. Se precisa ou não… Não estou suficientemente por dentro dos blogues algarvios para poder dizer se há carência. Sei que alguns jornais têm usado os blogues como um meio complementar - o que é bom. É mesmo o futuro”, pensa.
Aquele dirigente do PSD defende que a região “precisa de pessoas com ideias claras e disponibilidade para as debater e encontrar novas soluções de futuro para a região. A blogosfera trouxe sobretudo a possibilidade de opinar publicamente, nomeadamente às pessoas que não têm hipóteses de o fazer na imprensa tradicional e isso foi muito positivo”. E aconselha os directores de jornais e rádios do Algarve a procurarem na blogosfera algarvia “alguns talentos escondidos de gente anónima com ideias arrumadas, a escrever com qualidade”. “Quanto ao facto de existirem ou não blogues de intervenção local no Algarve, julgo que cada um à sua maneira acaba por fazer essa função, não se restringindo apenas a isso”, realça.
“Sou um tavirense a residir
José Graça não pretende “ocupar o lugar da imprensa regional e das rádios locais”, mas antes complementar a sua intervenção e chegar a outros leitores. O autor de “Terra do Sol” reclama, à esquerda, o surgimento de “um blogue colectivo que debata os problemas da região numa perspectiva progressista e mais dialogante”. Quanto aos “blogues de província”, o socialista é directo: “Não deve ser connosco, pois vivemos numa área metropolitana e, com excepção de Silves, as cidades são todas no litoral…”.
“A maior parte dos blogues que conheço não passam de tentativas de afirmação pessoal, manifestando uma visão muito circunscrita da realidade algarvia”, considera, aconselhando “uma visita demorada” ao blogue do jornalista do Diário de Notícias, Carlos Albino (o “SMS Jornal do Algarve”, um repositório dos pequenos postais que assina naquele semanário, onde começou a sua carreira, há algumas décadas), “para perceber melhor a sua visão algarvia do mundo e da nossa própria região”.
E o futuro da blogosfera, o que nos vai oferecer? “A avaliar pelo que se está a passar nos países que começaram antes, e onde se ‘bloga’ cada vez mais e melhor, o mesmo se vai passar
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(artigo de Edgar Pires no Diárionline de 28.04.04)
A 4 de Maio, o “Jornal de Notícias” fazia eco de um almoço da blogosfera, reunindo um conjunto de algumas dezenas de bloguistas, em 1 de Maio (
Na sequência de deliberação aprovada na Assembleia da República, já em Julho de 2003, criando uma “zona reservada à página pessoal ou “weblog” de cada deputado para difusão electrónica de informação relativa ao exercício do seu mandato na Assembleia da República e respectivo círculo e mais fácil interacção com os eleitores, cuja gestão será da sua exclusiva responsabilidade em articulação com os serviços”, o deputado José Magalhães criava, em 6 de Maio, o “primeiro blogue parlamentar”: o República Digital. Seguir-se-ia, poucos dias depois (a 17 de Maio), Guilherme d’Oliveira Martins, com o Casa dos Comuns.
Entretanto, a 7 de Maio, era criado o “blogue” de Manuel Monteiro, integrado na página do Partido da Nova Democracia (”O Blogue do DigaoManel“), o qual se esgotaria aquando da realização das eleições para o Parlamento Europeu, a 13 de Junho: “Nasce hoje um novo blogue na página digaomanel.com. O seu objectivo é a discussão aberta dos temas de campanha das Eleições para o Parlamento Europeu do próximo dia 13 de Junho. Falaremos da Europa e de Portugal. Mas sempre a partir de Portugal para a Europa. Contamos com as vossas colaborações.”
No mesmo dia, o Diário do Alentejo publica um artigo sobre os “blogues de Beja” (com referência particular ao Praça da República, Ao Sul, Caves do Comandante e Tem Avondo), também com referência a outros “blogues alentejanos” - ver artigo completo em “entrada estendida”.
“O fenómeno dos blogs em Beja
Os primeiros “blogs” editados no distrito de Beja começaram a surgir no início do Verão passado, à semelhança do que se passava em outros pontos do País. Actualmente rondam a dezena, entre generalistas e mais especializados (desporto, música).
Há quem advogue que não passam de uma moda, como o foram as páginas pessoais, há quem defenda o contrário, que vieram para ficar, principalmente devido à facilidade (não requer grandes conhecimentos de informática) e à gratuidade. Os weblogs ou blogs – uma página na Internet com características próprias, actualizada frequentemente, onde o seu autor ou autores registam as suas impressões sobre os mais variados assuntos e que na maior parte das vezes inclui caixa de comentários e permite a ligação a outras páginas –, já existem há alguns anos, mas só no início do ano passado, com o eclodir do conflito do Iraque, é que começaram a assumir uma maior expressão em território nacional, à semelhança do que se passava noutros pontos do globo. Perante a necessidade de se beber o maior número de informação possível sobre o assunto, os blogs, como espaços de liberdade total (e alternativos), de fácil acesso, permitiam exactamente obter essa informação e discuti-la sem quaisquer restrições. A criação, pouco tempo depois, de um blog por parte do eurodeputado social-democrata Pacheco Pereira, o “Abrupto”, e amplamente divulgado, até por órgãos de comunicação social nacionais, acabou por aguçar ainda mais a curiosidade dos portugueses e dar uma certa “credibilidade” ao fenómeno.
No início do Verão desse mesmo ano começaram a surgir os primeiros blogs no distrito de Beja. Actualmente rondam a dezena – entre generalistas e mais especializados (desporto, música), não contabilizando os que são editados por bejenses que se encontram a estudar e a trabalhar fora, nomeadamente na capital. Apesar de todo o mediatismo em torno desta nova forma de comunicação que irrompeu na Internet, a verdade é que ela ainda é desconhecida por muitos. O “Diário do Alentejo” dá a conhecer nesta edição quatro blogs editados em Beja.
http://pracadarepublica.weblog.com.pt
Face à inexistência de uma “visão crítica” por parte dos cidadãos bejenses em relação às profundas mudanças que se estavam a operar na cidade de Beja, fruto das obras no âmbito do Programa Polis, e à necessidade por si sentida de ter “uma intervenção cívica”, João Espinho, 46 anos, resolveu criar um blog, que recebeu o nome “Praça da República” (http://pracadarepublica.weblog.com.pt) – “por ser um dos locais da cidade de Beja que mais a identifica, por ser um ponto central e por ser um dos espaços que estava a sofrer alterações”, explica. Estava-se em Junho de 2003. Os primeiros posts (termo inglês para entrada) de nikonman – nickname (pseudónimo) que adoptou –, publicados esporadicamente, visavam exclusivamente as obras em curso na cidade. Nos finais do Verão, este tradutor do quadro civil da Força Aérea Portuguesa, colocado na Base Aérea nº 11, e um amante da escrita, chegou à conclusão que o seu blog poderia ir mais além e ser também um espaço para dar a conhecer a sua opinião sobre os mais variados assuntos e servir como uma espécie de diário, com lugar para as suas vivências, para alguns textos mais intimistas, para as suas fotografias – outro dos seus hobbys.
Em meados de Novembro um acontecimento no meio político regional veio a dar uma maior visibilidade ao “Praça da República”. Notícias vindas a público que avançavam a possibilidade da distrital de Beja do PSD instaurar processos disciplinares a militantes seus com vista à sua expulsão, devido a declarações proferidas sobre o processo de nomeação para o conselho de administração da Empresa de Desenvolvimento do Aeroporto de Beja, levaram João Espinho, também ele militante do mesmo partido, a comentar o assunto. “Achei que aquele espaço era o ideal para dar a minha opinião, houve ali várias reacções e sei que o ‘Praça da República’ era fotocopiado e distribuído”. E foi só nessa altura que nikonman se apercebeu da real dimensão que pode ter esta nova forma de comunicação. “Até determinada altura ninguém ligava a um blog, mas quando começaram a perceber que é um veículo de transmissão de opiniões, em que as pessoas podem também reagir e manifestar o que pensam, o que não podem fazer tão facilmente numa rádio ou num jornal, o blog explodiu, digamos assim”. João Espinho começou a ser confrontado com um grande número de e-mails, “reacções muito negativas” àquilo que escrevia, na sua maioria anónimas. “Aqueles que não eram anónimos até os publicava, mas os outros não. Só publiquei um que não estava identificado porque achei que não tinha cabimento nenhum, porque as pessoas conhecem-me. Era um mail, julgo eu, de um elemento qualquer do Partido Comunista que dizia que eu andava a fazer perseguição aos militantes comunistas, porque só falava no PCP. Achei aquilo um perfeito disparate”.
Uma nova explosão de visitas e comentários deu-se mais recentemente, em Março deste ano, no seguimento da publicação na revista “Única” do semanário “Expresso” de um artigo da autoria do jornalista Paulo Querido sobre blogs do interior, em que fez referência ao “Praça da República” – Paulo Querido e Luís Ene, os autores do único livro até agora publicado sobre blogs, participaram no primeiro almoço de bloggers (autor do blog) organizado em Beja por João Espinho e Sónia Ferreira, em finais de Fevereiro. “Se já vens no ‘Expresso’ deves ter mais credibilidade, terá sido isso provavelmente o que as pessoas pensaram, porque continuo a escrever da mesma maneira”, garante o tradutor, que continua a receber vários mails, para além de telefonemas, com comentários às suas opiniões e sugestões de temas a abordar. Sugestões que, no entanto, declina. Afinal, um dos maiores atractivos de possuir um blog é precisamente poder escrever sobre o que se quer, quando se quer, sem imposições de temas ou timings – ao contrário do que acontece com as crónicas que escreve semanalmente para a Rádio Pax e que também publica no seu blog. “Tenho lá vários assuntos em que podia pegar, mas eu acho que nem tenho que fazer de jornalista, os jornalistas é que investigam, eu não tenho que investigar nada. Mas os jornalistas até gostariam de ler vários assuntos que tenho lá”.
Presentemente o “Praça da República” recebe entre 80 e 100 visitas diárias e é dos blogs editados em Beja um dos que se mantém mais actualizado, apesar de não haver essa obrigatoriedade, como frisa João Espinho, que antevê novos “impulsos” no seio da “blogosfera” (conjunto de blogs) com a proximidade das eleições autárquicas, legislativas e presidenciais. “Verificamos já que chefes de gabinete de ministros têm blogs, onde se defende aquilo que não se consegue defender nos meios de comunicação social nem nos comunicados do Governo. Acredito que no próximo ano [eleições autárquicas] vai haver uma explosão de muitos blogs, mas não quer dizer que depois continuem. Às vezes surgem naquela altura para defender ali o seu candidato ou candidatos, e depois retiram-se, ficam à espera de uma nova vaga”, esclarece o autor do “Praça da República”, blog onde nunca haverá lugar para “textos e imagens pornográficos” e “comunicados de partidos políticos, câmaras municipais ou outras instituições”.
http://aosul.blogspot.com
Ao mesmo tempo que o “Praça da República” dava os primeiros passos, nascia pelas mãos de uma mulher (coisa ainda rara na “blogosfera” bejense) um outro blog, o “Ao Sul” (http://aosul.blogspot.com). Sónia Ferreira, 29 anos, depois de ler algumas coisas sobre o assunto no “Pastilhas”, a página online de Miguel Esteves Cardoso, decidiu que também queria ter um, “ponto final”. Inicialmente não assinou os seus posts (postas como prefere dizer), embora não fosse sua intenção manter o anonimato. Simplesmente não sabia onde é que esta aventura a iria levar. Mesmo o nome que deu ao blog, “Ao Sul”, era geograficamente vasto, “tanto podia ser no Algarve como no Alentejo”. Também nunca imaginou que o seu blog pudesse vir a ser visitado por quem quer que fosse. A surpresa surgiu sensivelmente uma semana depois de o ter criado. Um jovem português, estudante em Paris, ao fazer uma pesquisa no motor de busca Google sobre os Radar Kadafi deu de caras com “Ao Sul” e resolveu enviar um mail à sua progenitora. “Eu nunca pensei que alguém fosse ler aquilo, na Internet estão milhões de coisas, como é que alguém vai dar com uma página super simples, básica mesmo?”, questiona-se ainda.
Entretanto começou a receber mensagens de outros bloggers, nomeadamente do “Praça da República”, do “Anarca Constipado” e do “Epicurtas”, estes dois últimos a pedirem informações sobre as iniciativas a decorrer na cidade de Beja, e Sónia Ferreira, que começou por escrever pequenas reflexões pessoais, “coisas simples”, acabou por ver no seu blog também um suporte complementar da sua actividade profissional – é técnica de comunicação na Divisão de Cultura da Câmara Municipal de Beja e responsável por um magazine cultural na Rádio Voz da Planície –, como um espaço, por excelência, para a divulgação de iniciativas de âmbito cultural e não só, apesar de na ocasião ter receado que essas visitas a pudessem condicionar de “alguma forma”. “Tive receio que já não pudesse por lá tudo o que queria, porque ao longo destes meses todos, de Junho até agora, há desabafos pessoais. Eu comecei por nem sequer assinar as postas, mas assinava os mails que trocava com quem me contactava. Entretanto houve uma polémica, em que o meu nome foi implicado, e aí eu escrevi uma posta sobre o assunto e assinei, porque achei que o devia fazer, e não foi há muito tempo”.
Actualmente a divulgação é a componente principal do “Ao Sul”, embora tal não seja necessariamente definitivo – “Não começou assim, já deu tantas voltas. Um blog é o que nós quisermos”–, diz a jovem que se recusa a escrever coisas “para causar polémica” e que destaca como um dos aspectos mais satisfatórios de se fazer parte da “blogosfera” os laços de amizade que acabam por se criar entre os vários bloggers, principalmente entre os participantes do primeiro almoço realizado
http://cavesdocomandante.blogspot.com
Terapêutico. É esse o efeito que “Caves do Comandante” (http://cavesdocomandante.blogspot.com), blog criado em Outubro do ano passado, tem sobre o seu autor, João Bernardino, um jovem arquitecto de 28 anos. Um escape à seriedade do dia-a-dia, “onde se pode escrever o que vem à cabeça”, mesmo que sejam “as maiores barbaridades em português vernáculo”, sem que haja uma obrigatoriedade quer em termos de abordagem quer em termos de timing. E só assim, no seu caso, a existência e manutenção de um blog faz sentido. “Descansa-se quando é para descansar – há pouco estive um mês parado –, se apetece escrever, escreve-se. Não posso olhar para o meu blog com aquele sentido de obrigação, de pôr lá qualquer coisa, inevitavelmente”. A obrigação pode levar à aversão e esta a um processo de “morte lenta” do blog, diz.
A ideia de criar um blog surgiu no seio do seu círculo de amigos, quando o fenómeno começou a ser abordado em alguns órgãos de comunicação social, e principalmente a pensar nesses mesmos amigos e pessoas conhecidas. Aliás, João Bernardino está convicto que a grande maioria dos blogs existe para “deleite pessoal e para um universo sobretudo de amigos”, como “uma vez disse, e bem, a dirigente socialista Ana Gomes”, apesar de considerar que há alguns que “por mérito próprio acabam por extrapolar esse universo e por se tornarem conhecidos e de algum modo mais notados”. E porque de amigos de trata, a maior parte dos comentários às coisas que escreve e sugestões para abordagens normalmente faz-se mais fora do ambiente da Internet, diz o arquitecto, que se prepara para introduzir algumas mudanças no seu blog, nomeadamente transferi-lo para um servidor português (local onde se alojam os blogs) e “dar-lhe uma nova cara”, para além de começar a publicar, “esporadicamente”, algumas fotografias de sua autoria. “Um blog não pode ficar muito estático, mesmo para a pessoa que o edita acaba por se tornar monótono”.
Para além do “Caves do Comandante” – o nome está associado à cave da sua residência cuja rua tem o nome de um comandante, e onde, à semelhança do que se apregoa no cabeçalho do blog, “diz-se tudo, não se aprende nada” – João Bernardino partilha um outro com seis amigos, o “Bicho de Sete Cabeças”. Um projecto diferente do “Caves do Comandante” – embora o arquitecto tente “manter o mesmo tipo de abordagem” – onde aí sim é proposto e votado um tema por semana, sobre o qual os sete amigos, um em cada dia, deverão escrever. “Lá está, esse já exige algum compromisso da nossa parte, desde o início, o que acaba por reflectir-se ao fim de algum tempo na vontade com que às vezes se escreve, o que pode eventualmente levar a grandes oscilações ao nível da qualidade do produto final, mas o que é facto é que nós ainda acabamos por acreditar nas coisas e acaba por nos dar algum gozo. Esse é um espaço de convívio, e a grande interacção é entre nós os sete, ‘já leste?, já comentaste?’”.
http://temavondo.blogs.sapo.pt
“Tem Avondo” (http://temavondo.blogs.sapo.pt) é dos quatro blogs referidos o mais recente na “blogosfera” bejense. André Cláudio, 26 anos, viu na sua criação, no início de Janeiro deste ano, uma forma de colmatar a carência de espaços de discussão “com um espírito saudável”. “Há muita gente aqui em Beja que gostava de discutir as coisas e que não tem um espaço para o fazer e as coisas acabam por ficar sempre pela mesa do café”, diz o jovem veterinário, que aponta como bastante apelativo o carácter democrático dos blogs – é acessível a qualquer um –, o facto de serem espaços de liberdade e de permitirem o contacto com diversos pontos de vista, o que acaba “por ser bastante construtivo”. André Cláudio recusa, no entanto, a crítica fácil, tendo sempre a preocupação de arranjar uma justificação para o que escreve e “até uma ideia alternativa”. “Muitas vezes as pessoas estão aborrecidas com uma determinada coisa e descarregam tudo nos blogs, eu tento não fazer isso”.
Duas semanas depois de ter criado o “Tem Avondo”, que se assume essencialmente como um blog de alentejanos para alentejanos – daí a expressão que lhe dá nome – embora não esteja fechado a abordagens nacionais ou internacionais, André Cláudio passou a contar com o apoio de um amigo, Luís Dinis, uma parceria que tem revelado bastante positiva, diz, e que permite uma maior actualização da página, dada a disponibilidade limitada dos dois. “O Luís tem ideias interessantes em relação a muitos assuntos e ter outra pessoa também ajuda a puxar e a animar mais as coisas”.
Com uma média de 10, 20 visitas por dia – número que apesar de não ser muito elevado é já suficiente, no entender do jovem veterinário, “para aumentar o cuidado” nas coisas que escreve –, “Tem Avondo” recebe, na sua grande maioria, comentários de outros bloggers, “usualmente bastante construtivos”, o que espelha bem “o grande espírito de camaradagem e de respeito” que existe na “blogosfera”. “As pessoas são muito cordiais, são muito correctas umas com as outras, há uma espécie de ética dos blogs, que me parece bastante saudável”, salienta André Cláudio, para quem não restam dúvidas que a manutenção de um blog pode enriquecer o seu editor. “Escrever as coisas ajuda-nos a sistematizar as ideias e a pensar, se calhar, de uma forma mais profunda. Para além disso a discussão de alguns assuntos que escrevi lá serviu para eu alargar a minha visão em relação a determinados aspectos”.
E porque “ainda há muita gente que não tem onde exprimir as suas opiniões”, o autor do “Tem Avondo” está convicto que o número de blogs continuará a aumentar. “Há muitos que aparecem e desaparecem, mas acho que por um que desaparece vão surgir dois ou três”.
Outros blogs alentejanos
http://40nasombra.weblog.com.pt http://alandroal.blogs.sapo.pt http://alentejanando.weblog.com.pt http://alentejao.blogger.com.pt http://barracromologica.blogspot.com http://bicho7.weblog.com.pt http://emminisaia.blogspot.com http://ideias-soltas.weblog.com.pt http://improvisosaosul.blogspot.com http://noitesalentejanas.weblog.com.pt http://planicie-heroica.weblog.com.pt http://planiciedesportiva.blogspot.com http://roubamtudo.blogs.sapo.pt (“Portas de Mértola”) http://viriatos.blogspot.com (“O Sexo dos Anjos”)
(artigo de Nélia Pedrosa no Diário do Alentejo de 07.05.04)
A 11 de Maio, a blogosfera volta a passar por uma fase de grande turbulência, na sequência de artigo na edição electrónica do “Expresso”:
“Alegando tendência para difamação
Autoridade quer acabar “blogs”
A Autoridade Nacional de Comunicações (ANACOM) pretende acabar com a existência dos chamados «blogs», páginas de opinião muito em voga na Internet, alegando que estes sítios são frequentemente utlizados para difamação, afirmou ao EXPRESSO Online Pedro Amorim, especialista em direito para as novas tecnologias da informação.
O jurista falava à saída do seminário «Ciberlaw’2004», organizado pelo Centro Atlântico, que decorreu na terça-feira no Centro Cultural de Belém.
«Devia haver apenas uma entidade para a defesa dos consumidores, contrariamente às “n” que existem», salientou. Pedro Amorim esteve presente no Seminário «Ciberlaw’2004», organizado pelo Centro Atlântico, que decorreu no Centro Cultural de Belém.”
Afinal, tudo não terá passado de uma “gaffe” de uma estagiária do Expresso… (ver aqui, aqui e aqui).
A 2 de Abril, Pedro Mexia começara por anunciar que o “Dicionário do Diabo” iria fazer uma pausa. Depois de algumas fases de retoma e entrecortadas interrupções, o “blogue” acabaria mesmo por ser encerrado, a 29 de Maio, logo após ter anunciado (a 27 de Maio) a publicação de um livro compilando textos do “blogue” e outros editados já em “A Coluna Infame”, sob o título “Fora do Mundo“.
“Depois de amanhã, sábado, no Auditório 2 da Feira do Livro de Lisboa, será lançado «Fora do Mundo - textos da blogosfera», editado pela Cotovia. É uma selecção dos posts que escrevi para A Coluna Infame e o Dicionário do Diabo. A apresentação será feita por Abel Barros Baptista e Pedro Lomba. Todos os leitores habituais e ocasionais desta página estão obviamente convidados.”
“Estava programado que o Dicionário do Diabo acabasse a 18 de Junho, quando cumprisse um ano de existência. Um ano, na blogosfera, é muito, e nem sempre me tem sido possível actualizar o blogue regularmente, por causa de outros afazeres ou simplesmente por falta de disponibilidade mental. Julgo que um blogue não funciona bem com hiatos ou com actualizações prolixas mas esporádicas. Além disso, creio que esta minha experimentação com temas e modos de escrita está no essencial terminada. É o momento para mudar para outros registos e outras desafios.
Entretanto, como aqui deixei notícia, surgiu a proposta para a edição em livro, a qual implica que apague os posts seleccionados para o volume. Porque me pareceu estranho truncar o blogue, antecipo umas semanas o fim do Dicionário. E porque me desagrada manter sites mortos à tona no ciberespaço, apago primeiro os arquivos e depois farei simplesmente «delete blog».
Em breve penso escrever sobre algumas lições deste ano de Dicionário do Diabo e deste ano e meio de blogosfera. Por agora, apenas um agradecimento a todos os que leram o Dicionário do Diabo e A Coluna Infame, a todos os que comentaram, criticaram, elogiaram, sugeriram, corrigiram, polemizaram, linkaram, a todos os que mandaram mails, enfim, a esta rede que é a blogosfera. E em especial aos outros bloguistas, que deram sentido a isto. E às pessoas importantes fora da blogosfera.
Esta não é uma despedida definitiva. A partir de agora, escrevo no blogue Fora do Mundo, com o Francisco
Também a 29 de Maio, o Expresso fazia referência a texto de Vital Moreira no Causa Nossa, sobre a nomeação de novo Director-Geral dos Impostos, “requisitado” ao BCP.
A 31 de Maio, assiste-se a um “takeover na blogosfera”: “o Blasfémias lançava OPA amigável sobre o Liberdade de Expressão“.
A 10 de Junho - fundada por dois weblogs, o Hollywood e o CineBlog - nasce a primeira “Academia de Blogs de lingua portuguesa”: a “Academia de Blogs de Cinema” que reuniu na sua primeira fase 20 “blogues” membros, 18 dos quais de Portugal e dois do Brasil.
A propósito das eleições para o Parlamento Europeu (realizadas, em Portugal, a 13 de Junho), e tendo por objectivo “Navegar contra a abstenção”, apelando aos “Blogs, de todas as cores e feitios, pela discussão e participação nas eleições europeias de 13 de Junho de 2004″, surgia o Ter Voz nas Europeias 2004, página agregadora de “entradas” de diversos “blogues” sobre o tema.
A 22 de Junho, na “Festa do Solstício“, promovida pelo Causa Nossa, seriam atribuídos alguns prémios “blogosféricos”:
- Prémio “Carreira” - Paulo Querido, António Granado e Pacheco Pereira (cada um, à sua maneira, dando um contributo decisivo para a afirmação da blogosfera em Portugal);
- Melhor “blogger” - Pedro Mexia (um dos “fundadores” e dinamizadores d’A Coluna Infame, tendo continuado a oferecer-nos “grandes textos” no Dicionário do Diabo; infelizmente, apenas o podemos encontrar agora “Fora do Mundo” - em livro e, no “blogue”, bastante “espaçadamente”…);
- Melhor “blogue de esquerda” - Barnabé (uma “vasta” equipa, liderada por Daniel Oliveira, sempre incansável);
- Melhor “blogue de direita” - Mar Salgado (que se distingue pela pluralidade de opiniões dos membros da “tripulação”).
A 23 de Junho, a propósito dos prémios atribuídos pelo Causa Nossa, “A Capital” dedica também 4 páginas aos “blogues”, com chamada de primeira página:
“A blogosfera chegou atrasada a Portugal, mas a sua pujança e expansão rapidamente a transformou num grande acontecimento.”
Incluindo entrevistas a Paulo Querido e Daniel Oliveira; referências aos “consagrados” Vital Moreira, José Pacheco Pereira e Francisco
Uma nota final para o texto introdutório deste destaque d’A Capital: “Breve história da blogosfera em Portugal”, o qual efectivamente pouco acrescenta sobre a referida “história”, apresentando-se algo desactualizado, terminando com referências aos “blogues” de Pedro Mexia e Pedro Lomba, entretanto já inactivos.
“A Capital”, dando especial destaque ao fenómeno dos “blogues”, publicaria diariamente uma secção chamada “Blogmania”, com a reprodução de um ou dois “posts”.
Até que, a 29 de Junho, Durão Barroso anunciava ao país a sua intenção de se demitir do cargo de Primeiro-Ministro, de forma a aceitar o convite a cabdidato à Presidência da Comissão Europeia. Estava instalada uma crise política que seria alvo de amplo e alargado debate na “blogosfera”.
A título meramente exemplificativo, vejam-se as “entradas” no:
- Causa Nossa - aqui, aqui, aqui e aqui
- Abrupto - a 26 e Junho (”Pobre país” e “Congresso”) e a 27 de Junho (”Só há uma maneira” e “Pobre país”)
- Blogue de Esquerda - aqui e aqui
- Bloguitica - aqui, aqui e aqui
- Tugir
- Blasfémias - aqui, aqui e aqui
- Blogue da Crise Política em Curso (agregador de “entradas”).
A 18 de Julho, Paulo Querido daria o merecido destaque à intervenção da blogosfera a propósito da crise política, em artigo na Revista “Única”, do “Expresso”.
De 12 de Junho a 4 de Julho, decorreu em Portugal a maior organização alguma vez levada a cabo no nosso país, o Campeonato da Europa de Futebol; 3 semanas em que o país se mobilizou, voltou a sentir orgulho de si próprio, reganhando a sua auto-estima, com milhares de bandeiras de Portugal desfraldadas ao vento.
Perdoe-se-me a imodéstia de incluir o Memória Virtual nesta resenha da “blogosfera” em 2004, mas não tenho conhecimento de uma cobertura tão ampla e exaustiva como a que aqui foi apresentada e que agora tenho o prazer de recordar.
A 22 de Julho, é a vez de Manuel Alegre lançar o seu “blogue” associado à candidatura ao cargo de Secretário-Geral do Partido Socialista.
A 1 de Agosto, os “blogues políticos” (Abrupto / Barnabé / Causa Nossa) são objecto de destaque no Telejornal da RTP1.
A 17 de Agosto, tem o início o Gávea, um “blogue” de dois portugueses (Francisco
“O Gávea Blog será um site dedicado à literatura brasileira, mantido por dois portugueses que gostam, intermitentemente, do Brasil ou da literatura do Brasil.”
A 1 de Setembro, Jorge van Krieken ameaça a Grande Loja do Queijo Limiano com uma queixa-crime por alegada “difamação e calúnia grave” - a propósito desta “entrada”, relacionada com o caso de pedofilia na Casa Pia.
No dia seguinte, Luis Ene propõe, no Ene Coisas, uma “antologia de blogues”, projecto ainda em standby.
A 16 de Setembro, no “Público”, Pacheco Pereira apresentava um novo balanço da “blogosfera”:
Media-esfera, Blogosfera e Atmosfera Por JOSÉ PACHECO PEREIRA Quinta-feira, 16 de Setembro de 2004
“Há cerca de um ano, escrevi sobre os blogues no PÚBLICO, coincidindo com a sua descoberta por um público mais vasto. Houve, em seguida, o habitual surto de breve fama, centenas de blogues foram criados e dezenas de artigos mais ou menos apressados, mais ou menos informados, foram publicados. Tudo quanto era órgão de comunicação social publicou pelo menos um artigo sobre os blogues. Depois os blogues passaram de moda, muitos dos blogues criados desapareceram, embora a “audiência” global dos blogues tenha aumentado significativamente, mantendo-se esse efeito até hoje. É altura de fazer um balanço deste novo tipo de publicação electrónica.
A blogosfera portuguesa mudou muito durante este ano, deixou de ser constituída por um pequeno grupo pioneiro, que a usava quase como um “espaço íntimo”, para se tornar, de um dia para o outro (a rapidez é uma característica do meio), mais agressiva, politizada no mau sentido, ressentida e implicativa. Mas essa fase também já passou e o melhor dos primeiros tempos “íntimos” e o melhor da fase de democratização da blogosfera permaneceram. Cerca de
(ver continuação em “entrada” estendida)
“Não tenho nenhumas dúvidas de que os blogues vieram para ficar, enquanto a evolução tecnológica não permitir a migração do que hoje se pode fazer num blogue para outra plataforma mais eficaz e superior. Enquanto tal, uma revolução está em curso, principalmente no âmbito do sistema comunicacional, e, a partir daí, afectando os sistemas que lhe são próximos: a política nacional e local, a crítica literária e artística, a divulgação científica, entre outros.
Nenhuma análise hoje do estado da comunicação social em qualquer país onde existe um sistema mediático - jornais, rádios, televisões - pode ser feita sem incluir os blogues. Veja-se o recente caso americano: dois blogues (Power Line e Little Green Footballs) contestaram a autenticidade dos documentos sobre o serviço militar de George Bush, que o prestigiado Dan Rather tinha divulgado no influente programa 60 Minutos da poderosa CBS. Prestigiado, influente, poderoso. Os documentos faziam imensos estragos na imagem de Bush, mostrando a existência de cunhas e tentativas de alterar os relatórios sobre a sua capacidade como piloto. Foram tratados pelos grandes media americanos como uma notícia de primeiríssima página, capaz de alterar a vantagem que Bush obtivera nas sondagens sobre Kerry, em suma, capazes de definir a contenda eleitoral. Os dois blogues, logo seguidos por muitos outros, analisaram os documentos e começaram a levantar questões: nenhuma máquina de escrever, à data putativa dos memorandos, era capaz de manter aquela ordem de espaços entre as letras, sobrepondo-se as mesmas frases escritas com o