7.1. Blogosfera em 2003

Escreveu Pacheco Pereira no Público (em 17 de Julho, a propósito do "Arquivo da Internet", referindo que «A blogosfera devia ter um “depósito obrigatório” imediato»):

«Os blogues, enquanto formas individualizadas de expressão, originais e únicas, são uma voz imprescindível para se compreender o país em 2003. Eles expressam um mundo etário, social, comunicacional, cultural, político que, sendo uma continuação do mundo exterior, tem elementos “sui generis”».

2003 é portanto o ano da definitiva afirmação deste fenómeno, cujos "primeiros passos" haviam sido dados já, essencialmente, em 2002.


Os weblogs (contracção de web - "rede" - e log - "diário de bordo") são páginas na Internet, regularmente actualizadas, com ligações a artigos noutras páginas da web, frequentemente com comentários. Os textos são, em regra, datados, sendo geralmente apresentados por ordem cronológica inversa, dos mais recentes para os mais antigos.

O primeiro weblog foi o primeiro website: http://info.cern.ch, o sítio construído em 1992 por Tim Berners-Lee (criador da HTML - linguagem que permite a navegação por hipertexto e que abriu a World Wide Web) no CERN, cujo conteúdo se encontra arquivado no World Wide Web Consortium.

Seguiu-se a página What’s New de NCSA, até que surgiu a página What’s New na Netscape, o .grande blogue. do período de 1993 a 1996. Deu-se então a .explosão. da Internet e, com ela, dos .blogues..

Dave Winer, hoje considerado o pai dos .blogues., criou o seu primeiro weblog em Fevereiro de 1996, como parte do website do .24 Hours of Democracy.; em Abril de 1996, iniciou uma news page, que se tornaria, em 1 de Abril de 1997, no Scripting News, um dos primeiros .blogues. de sempre e actualmente o mais antigo na Internet.

Outros weblogs percursores foram os de Robot Wisdom, Tomalak’s Realm e CamWorld.

Como assinalou António Granado (no “Público” de 23 de Junho deste ano), foi contudo preciso esperar ainda dois anos para que as coisas tomassem um rumo nunca antes esperado. A 23 de Agosto de 1999, foi criado o Blogger.com, uma ferramenta gratuita para criação de weblogs, que revolucionou a edição de textos na Web. Em 3 de Setembro de 2000, a Pyra criou o Blogspot.com, um “site” que aloja gratuitamente milhares de weblogs, em troca de anúncios colocados no topo das páginas. O sucesso foi tal que, em pouco mais de dois meses (a 7 de Novembro de 2000), o Blogspot viu nascer o seu 10.000º blog. No final de Junho, o Blogger anunciava ter mais de 1,5 milhões de utilizadores registados, ainda que muitos weblogs não tivessem mais do que alguns “posts”, ou tenham sido abandonados há muito.


Segundo uma pesquisa do jornalista António Granado (Ponto Media), alguns dos primeiros weblogs portugueses terão sido o .Altas Doses de Cafeína., criado a 19 de Agosto de 2000; o .HiperBock., criado a 29 de Setembro de 2000, e o .Sonhos Virtuais., criado a 15 de Novembro de 2000; acrescenta ainda (em artigo no “Público”, de 23 de Junho) que, entre os primeiros, estariam também o .Macacos Sem Galho. (início a 30 de Março de 1999), o .Gildot.org. (início a 31 de Março de 1999), o .Dee.s Life. (início a 3 de Outubro de 1999), o .Nónio.com. (início a 15 de Agosto de 2000 e o .Velouria.org..
Celebrando a passagem do milénio, António Granado inaugurava, em 2 de Janeiro de 2001, o Ponto Media, escrevendo:

.Se tem dúvidas sobre o que é um weblog, então vale a pena ler este artigo fresquinho (ainda que escrito no século passado) do jornal “The New York Times”: “The concept is simple enough. Create a Web page. Update it regularly with brief personal reflections or witty commentary, sprinkled with links to other pages. Put new entries at the top of the page, pushing older ones down. Voilà, you’ve got yourself a Web log.
.
Alguém está a ler isto?.


Em 27 de Fevereiro de 2002, teve início o .blogue. de Elisabete Barbosa, Jornalismo Digital.

A 8 de Abril de 2002, nascia o Jornalismo e Comunicação, criado no âmbito do Mestrado em Informação e Jornalismo da Universidade do Minho.

A 15 de Outubro de 2002, seria lançada, por João Pereira Coutinho (colunista de .O Independente., Pedro Lomba e Pedro Mexia (críticos literários do Diário de Notícias), .A Coluna Infame., .blogue português de artes, literatura, política e ideias, para conservadores, liberais e independentes...

Também em Outubro de 2002, Manuel Pinto, da Universidade do Minho, adoptou os .blogues. como ferramenta de trabalho, com o Aula de Jornalismo, weblog da turma de terceiro ano de Jornalismo, coordenado pelos respectivos docentes, Manuel Pinto e Sandra Marinho.


Na passagem do ano de 2002 para 2003, surgem dois novos .blogues.:

- a Íntima Fracção (em 30 de Dezembro de 2002), de Francisco Amaral, para .contar tudo o quiserem e tudo o que eu quiser - fraccionadamente e na intimidade do ciberespaço., sobre o histórico programa de rádio com o mesmo nome; e

- a 1 de Janeiro de 2003, o Blog de Esquerda, de José Mário Silva (editor-adjunto do DNA) e do irmão Manuel Deniz Silva, nascendo .um novo espaço de pensamento e opinião . sobre política e cultura., que viria a constituir um .contraponto. face à Coluna Infame, com quem travaram acesos debates, culminando com o episódio que originaria a suspensão desta. Conforme disse José Mário Silva: .Senti que eles tinham uma importância e uma qualidade de reflexão política muito boa e era preciso equilibrar..


Ainda em Janeiro de 2003, Pedro Fonseca, do ContraFactos & Argumentos, disponibilizara já uma lista de weblogs portugueses, então pouco mais que 150. O Blogs em Pt viria a listar os .blogues. criados por portugueses ou em Portugal, entre 25 de Janeiro e 2 de Julho de 2003.

A propósito, .A Coluna Infame. apresentava, a 30 de Janeiro, o seguinte texto:

.BLOGS EM PORTUGAL: Encontrámos uma listagem de blogs portugueses. Surfámos por todos eles.

.
Feita a ronda, constatamos que os únicos sites indispensáveis são mesmo o Ponto Média de António Granado e o Blog de Esquerda. Além destes vossos criados. Mas temos a certeza que os próximos tempos representarão um salto também qualitativo na blogosfera portuguesa. Daremos notícias..

Surgiriam depois outros apontadores, entre os quais o Bloco-Notas (que anunciou entretanto a desactivação do serviço em 16 de Novembro, numa altura em que referenciava 2 724 .blogues.), o Blogues no Sapo, o Frescos, Blogo no Sapo, o Weblog.com.pt e, por fim (a 4 de Novembro), o Blogs.sapo.pt.

Entre 26 de Abril e 27 de Agosto, o Posto de Escuta apresentara também uma página a que chamou .Ecos da blogosfera., a qual consistia em citações de .entradas. de diversos .blogues..

A título de curiosidade, o grande .boom. ocorreu na semana de 30 de Junho a 7 de Julho (com 216 novos .blogues., de acordo com a listagem do Bloco-Notas); o dia mais .produtivo. foi o de 2 de Julho (mais 96 .blogues.); o mês mais .activo. o de Julho (mais 800 .blogues.!).

Também segundo a mesma lista, dos 615 .blogues. referenciados a 18 de Junho, passou-se a 791 em 30 de Junho e a 998 a 5 de Julho; a quantidade referida a 18 de Junho foi .duplicada. em 16 de Julho (1249 .blogues.). No final de Julho, atingiam já 1591, subindo para 1878 no fim de Agosto. O número de 2000 .blogues. foi atingido a 8 de Setembro, ultrapassando-se os 2500 a 18 de Outubro.


No .Público. de 25 de Janeiro, António Granado escrevia, pela primeira vez, sobre os .blogues. de maior projecção: .A Coluna Infame. e .Blog de Esquerda.. A 28, Pedro Mexia refere a .Coluna Infame. no .Diário de Notícias.; a 30 de Janeiro, novamente no .Público., era a vez de Eduardo Prado Coelho se referir aos .blogues..

A 1 de Fevereiro, ainda no .Público. (suplemento .Mil Folhas.), foi Isabel Coutinho a fazer-lhes referência. Também em Fevereiro, a 21, seria Paulo Pinto Mascarenhas, a referir-se aos .blogues., no .Independente..

A 23 de Fevereiro de 2003, inicia-se o Blogue dos Marretas, um dos .blogues. mais humorísticos da blogosfera, que reuniu ao .Statler. (Nuno Jerónimo) e .Waldorf. (João Canavilhas), o .Animal. (Jorge Bacelar), docentes na Universidade da Beira Interior, na Covilhã, respectivamente de Sociologia, Comunicação e Design.

Já em Março, no dia 1, José Mário Silva escrevia no suplemento DNA do .Diário de Notícias., uma crónica sobre .blogues., também disponível no .Escrita Automática. (ver aqui, de seguida, o texto completo em .entrada estendida.).

Em 8 de Março de 2003, nascia mais um .site. sobre webjornalismo em português, chamado webjornalismo.com, da autoria de João Canavilhas (o .Waldorf. do Blogue dos Marretas), com textos, links e notícias, .procurando juntar num único sítio alguns trabalhos que estão dispersos em sites generalistas sobre comunicação ou jornalismo..


.PENSO, BLOGO, EXISTO

Há uma revolução em curso na internet e tem um nome: blog. É provável que os menos atentos ao que se passa na Web só tenham ouvido a palavra esta semana, quando a imprensa clássica anunciou, com algum destaque, a compra pelo gigante Google . «rei» dos motores de busca . da pequena Pyra Labs, a empresa responsável pelo mais popular «interface» desta nova forma de comunicação: o Blogger. Mas em que se traduz afinal este conceito revolucionário, comparado por muitos analistas ao advento da TV?

O melhor é começar pelo princípio. De que falamos ao certo quando falamos de um blog? Dito da maneira mais simples, um blog . abreviatura de web-log . é uma página na internet onde se podem colocar facilmente mensagens escritas ou imagens, por ordem cronológica e com actualização regular (nos casos mais sérios, várias vezes por dia). Cada blogger que mantém um espaço destes pode fazer dele o que muito bem entender: um diário íntimo, um jornal de parede, um museu de glórias pessoais, uma tribuna para discussão de ideias, um púlpito para polémicas, um ponto de encontro ou um muro das lamentações. O blog molda-se à personalidade de quem o criou. E é aí que começa a revolução. Pela primeira vez, qualquer pessoa tem acesso a uma ferramenta informática simples que lhe permite comunicar ao resto do mundo o que quiser, como quiser e quando quiser. Até agora, a publicação de um texto escrito dependia sempre da existência de um jornal e da ultrapassagem de uma série de barreiras e filtros editoriais . que o digam os leitores opinativos habituados a enviar cartas para os jornais de referência. É essa distância, é esse Rubicão que desaparece com os blogs. Em teoria, cada pessoa pode fazer, para si ou para um público virtualmente infinito, o seu próprio jornal. Ou o seu próprio livro (disponível 24 horas por dia, on-line).
Claro que tudo isto já se fazia antes, mas a manutenção de sites pessoais era muitas vezes paga e nem sempre expedita. A grande vantagem deste novo sistema é a sua rapidez. Quem se dirigir à «home-page» do Blogger (www.blogger.com), sai de lá com uma página impecável em três minutos. Depois, a actualização é tão simples que até o mais inexperiente dos internautas consegue fazer um brilharete. Ninguém precisa de conhecer as subtilezas da linguagem HTML e mesmo o «design» da página pode ser escolhido, com um toque do rato, de um vasto catálogo de «roupagens» disponíveis. A bem dizer, só não cria o seu blog quem não quer.
Aliás, os números falam por si. Desde 1999, quando o software ficou disponível, já aderiram ao conceito 500.000 pessoas no mundo todo. A blogosfera, como alguns chamam à comunidade dos bloggers, está em plena expansão, tanto à escala planetária como no nosso país. Vale a pena consultar o index actualizado do «Blogs em Portugal» (http://blogsempt.blogspot.com) e verificar que surgem páginas todos os dias e para todos os gostos (da política à literatura, passando pelo cinema ou pelo desporto). Como seria de esperar, mais de 95% destes blogs têm um interesse muito reduzido. Abundam os devaneios poéticos (quase sempre assustadores), as «private jokes» e os corações destroçados carpindo as suas mágoas «no frio desta noite infinita». É tudo uma questão de procurar bem e não desistir dos 5% de blogs que merecem uma visita diária. O panorama nacional ainda é muito pobre mas já há várias páginas de referência (quase todas mantidas por jornalistas). E como remetem continuamente umas para as outras, seja pela via da polémica ou do elogio, não é difícil separá-las do joio da irrelevância umbiguista.
Interessa-me agora enumerar aqueles que são, no meu entender, os melhores atributos e os principais riscos deste novo «media». Do lado das vantagens, além das já referidas (o acesso rápido e a actualização simples), gostava de destacar a possibilidade que os blogs oferecem, aos cidadãos comuns, de exercerem o seu sentido crítico. Abolidos os intermediários, as opiniões passam a circular directamente do produtor para o consumidor e caberá a cada um escolher as «vozes» que deseja ouvir, ampliando-se assim consideravelmente uma oferta que estava limitada aos «opinion-makers» oficiais, com dia certo para publicarem a crónica no jornal. O trunfo dos bloggers é não terem «dead-lines». Podem escrever a qualquer hora e comentar, em directo (ou quase), o que se vai passando no mundo: um desastre, declarações de guerra, a morte de um escritor.
O problema é que esta capacidade de responder instantaneamente a um estímulo é uma faca de dois gumes. Por um lado, permite uma intervenção directa sobre a realidade em estado bruto, sem influências nem manipulações. Ao tomarmos uma posição, ao formularmos uma ideia, ainda não lemos nem ouvimos o que disse X ou Z. Estamos por isso mais perto de uma verdade pessoal, não formatada pelo pensamento alheio. Mas também mais perto do erro. Sem criar distâncias, olhando para a espuma dos dias quando as coisas «ainda fervem», é mais fácil sucumbir às precipitações e aos equívocos. Ainda assim, para os disparates imperdoáveis há sempre remédio, porque todos os textos podem ser editados em qualquer altura. Quanto ao resto, o tempo encarregar-se-á de fazer o seu papel de juiz.
Se é óbvio que uma certa impunidade pode conduzir a pontuais abusos de linguagem ou provocações gratuitas, não é menos certo que esses «danos colaterais» são um preço baixo que se paga pela liberdade de discutir e polemizar. Aliás, esses entusiasmos e eventuais excessos são perfeitamente compreensíveis e acabam por ser corrigidos pela própria lógica interna da blogosfera. O diálogo entre os blogs e os comentários que os leitores fazem aos textos são as formas ideais, porque não censórias, de auto-regulação.
Por fim, convém não esquecer que a característica fundamental dos blogs se prende com a possibilidade de fazer links para outras páginas (há mesmo blogs só com links). Na maioria dos casos, o link é uma sugestão comentada, uma pista para navegar na Web, muitas vezes de um blog para outro blog e deste segundo blog para um terceiro, etc. Cria-se assim um imenso ecossistema de páginas interligadas, onde a informação flui de uma forma imediata e extraordinariamente flexível.

Quer isto dizer que os blogs podem substituir os jornais? Não, pelo menos por enquanto. Mas podem perfilar-se, nalguns casos, como uma alternativa. Já há de resto quem leia certos blogs portugueses todas as manhãs, antes mesmo, por exemplo, das crónicas de Eduardo Prado Coelho (Público) e de Vasco Pulido Valente (DN)..

José Mário Silva

(esta crónica foi publicada no DNA de 01/03/2003)


Em 20 de Março de 2003, Pacheco Pereira apresenta como tema na sua coluna no .Público. as discussões a propósito da guerra do Iraque, então .bem acesas. na .blogosfera. portuguesa.

A 25 de Abril, nasce o Gato Fedorento, .blogue. de humor, mantido por Ricardo Araújo Pereira, Zé Diogo Quintela, Miguel Góis e Tiago Dores (que integram a equipa das .Produções Fictícias.) - .um blog com opiniões, nenhuma das quais devidamente fundamentada.. na verdade, o grande .blogue. humorístico em Portugal (a par do .Blogue dos Marretas.).


A Revista .Meios., no seu número referente ao mês de Maio, edita um texto sob o tema: “Blogs”: o outro lado da Internet (ver o texto completo também aqui, em “entrada estendida”).

A 4 de Maio de 2003, são editados no .Público. novos artigos sobre o fenómeno dos .weblogs., de Pedro Miguel Madeira.

No dia 6 de Maio, inicia-se o .blogue. mais mediático da .blogosfera., o Abrupto, de Pacheco Pereira . que, para que não restassem dúvidas sobre a autoria, anunciou no dia seguinte o tema do texto que iria apresentar no .Público. a 8 de Maio.

A 7 de Maio, Carlos Pinto Coelho fala sobre os .blogues. no .Acontece. (na RTP2).

Também a 8 de Maio, nasce .O Meu Pipi., talvez o mais famoso .blogue. português - .Blog a pisar o risco do mau gosto, mas sem o ultrapassar. Palavrões não, caralho.. Começava assim: .Tenho dois sonhos: um é instituir a paz no mundo, fazendo com que por meu intermédio os dirigentes de todos os países dêem as mãos e comecem a construir juntos um mundo melhor. O outro é dar uma foda relatada por Gabriel Alves. No primeiro não faço muita questão, mas este gostava mesmo de levar a cabo.. Estava dado o mote.

.O Meu Pipi. viria a afirmar-se com inúmeros textos (.não reproduzíveis.), tendo sempre presentes os ingredientes do sexo, humor, a par de uma vasta gama de palavrões (desde os mais .vulgares. até recuperações de .calão. há muito caído no esquecimento), sendo escrito num português de qualidade, inclusivamente com diversas referências literárias.

“Blogs”: o outro lado da Internet

A recente aquisição da Pyra Labs, a criadora do site www.blogger.com, por parte da empresa Google, sugere fortemente que o blog não é apenas um fenómeno passageiro. Alguns blogs pessoais têm mais visitantes por dia do que páginas de multinacionais. Começa-se a discutir as potencialidade do blog como concorrente da imprensa escrita, sendo que também possui uma das armas mais fortes da rádio, a imediatez.

Mas, afinal, o que é um blog? O blog . ou web log - é um diário publicado na Internet. É uma lista de entradas organizada por ordem cronológica, com a entrada mais recente geralmente no topo. Dizer que é um diário não implica necessariamente que contenha um relato da vida privada de quem o escreve. É um pouco mais como o diário de bordo do capitão de um navio, que descreve todos os dias as aventuras e desventuras da navegação.

O blog é o diário de bordo de quem navega na Internet. Foi assim que começou, pelo menos, há apenas meia dúzia de anos. Alguém encontrava um site obscuro sobre filosofia asiática, e anotava no blog as suas impressões. Talvez pudessem vir a ser úteis a alguém que por aí andasse à deriva. Outras pessoas contavam o que acontecia no seu bairro. Alguns destes textos continham informação que não tinha sido publicada em nenhum órgão de informação tradicional . talvez não tivessem passado o filtro do editor, ou talvez nenhum jornalista tivesse sequer sabido que aquilo aconteceu. Alguma dessa informação poderia ser suficientemente interessante para ser chamada de notícia. Qualquer pessoa pode ter um blog na Internet. Existem várias empresas a oferecer espaço para a página, de graça. E qualquer um pode escrever notícias no seu blog. Viremos a ter uma população inteira de jornalistas? Estaremos perante uma nova forma de jornalismo?

Notícias alternativas
Os blogs publicam notícias, e blogs de especialistas na área da informática, economia ou física nuclear começam a ser consultados com regularidade como fontes de informação alternativas aos media tradicionais. Através do blog, começou a ser possível saber o que não tinha sido noticiado nos jornais, ou sabê-lo antes do jornal sair, com um nível de profundidade impossível na rádio. Nos Estados Unidos, um sindicato decide organizar uma greve. Dez minutos depois de o comentário ser publicado no blog, às três da manhã em Londres, um grupo de discussão on-line que incluía intervenientes portugueses, americanos e franceses elaborava cenários de evolução da situação e planeava soluções. Duas horas depois, a greve é cancelada. Mais algumas horas passam antes de os jornais publicarem a notícia . algumas horas tarde de mais para quem quisesse mudar o curso dos acontecimentos. A televisão, só à noite, se nessa altura ainda houver algo que valha a pena ser contado.

Através do blog, vislumbramos uma revolução dos media. Um jornalismo descentralizado, flexível, imediato, isento de pressões políticas e económicas, uma voz para cada cidadão num espaço público global, em toda a plenitude democrática que só as novas tecnologias podem oferecer. Bom demais para ser verdade?

Richard Smith, investigador e especialista em Comunicação da universidade Simon Fraser, no Canadá, mostra-se optimista, mas com reservas: .Claro que nem tudo o que aparece nos blogs pode ser considerado jornalismo, a menos que adoptemos um conceito muito diluído do que é o jornalismo. Dito isto, creio que é válido afirmar que o conteúdo de alguns pode ser sem dúvida descrito como jornalismo. Alguns blogs são até escritos por jornalistas profissionais, embora uma certa percentagem use pseudónimos, por uma variedade de razões..

A questão é que nem tudo o que é notícia pode ser considerado jornalismo, e nem tudo o que um jornalista profissional escreve é jornalismo. Claro que o jornalismo tradicional tem limitações e problemas. Claro que o gate-keeping pode aproximar-se da censura, e que uma opinião de esquerda dificilmente será publicada num jornal de direita. No entanto, o facto de um jornalista profissional estar condicionado por regras deontológicas não deve ser considerado uma prisão, mas uma garantia de qualidade.

Poderemos desistir de todas as regras e ter ainda jornalismo? A liberdade de expressão é um dos pontos centrais da democracia, mas a liberdade completa de expressão individual levaria à anarquia, não à democracia. Escrever sob pseudónimo é uma garantia de liberdade total, mas poderá haver jornalismo sem que o escritor tome responsabilidade pelo que é dito? A existência de tribunais não garante que haja justiça, e sem dúvida que muitos culpados são absolvidos, e inocentes castigados em nome da lei . mas, ainda assim, geralmente considera-se que estes erros são um mal menor, porque a alternativa não é aceitável. A alternativa é confiar nos homens, em vez de confiar nas leis. Só a responsabilização, associada à possibilidade de punição legal, torna possível a democracia, e a liberdade do indivíduo num contexto social (a liberdade individual tem que estar limitada pelo respeito dos direitos dos outros).

Autoridade, conhecimento e responsabilidade
Oscar Wilde disse que não faz sentido termos uma arte cingida à obediência das regras da moral. Se o jornalismo fosse uma arte, faria sentido exigir uma liberdade absoluta para o jornalista a todo o custo. Mas a arte, se pode ser um componente do jornalismo, não será seguramente a sua essência. O jornalismo do blog é fundamentalmente um jornalismo de opinião. As opiniões podem ser jornalismo, mas apenas quando analisam factos de forma útil, ou os predizem com bases razoáveis de probabilidade. Uma liberdade total, uma total ausência de responsabilização, implica uma liberdade de ignorar os factos, e uma opinião expressa sem respeito pelos factos, ou até com respeito pelos factos mas sem a possibilidade de dar uma garantia desse respeito ao leitor, não é mais do que um rumor.

Quantos de nós é que têm o tempo e a vocação para investigar um rumor? Se um desconhecido me abordar na rua e me sugerir que tome um certo medicamento, porque isso melhoraria a minha saúde, ele não me está a fornecer qualquer informação, mesmo que isso seja verdade, enquanto não se identificar como médico. O argumento de autoridade funciona porque a autoridade está baseada não só num conhecimento de especialista mas também na responsabilidade. Acredito no médico não só porque ele sabe que medicamentos devem ser tomados, mas também porque o médico poderia sofrer consequências legais no caso de receitar um medicamento errado. Quando o autor de um blog escreve sob pseudónimo, perde a credibilidade ao prescindir da identidade.

O futuro do blog não é tão negro assim. O autor de um blog pode obter autoridade através da referência a fontes, que se forem links poderão ser verificadas imediatamente. Alguns destes links poderão ser fontes absolutamente fidedignas. Quem assina o blog pode usar a sua verdadeira identidade (embora isto só seja relevante se houver uma forma fácil de a comprovar).

Os blogs podem ser a única via para algumas verdades, se puderem evitar ser compilações de rumores. Embora eu prefira confiar em leis do que nos homens, um homem ou grupo de homens poderão provar que merecem essa confiança, mesmo sem leis que os limitem e controlem. Seja como for, o blog já encontrou a sua função, mesmo que se limitasse a ser uma fonte de rumores a usar por jornalistas, porque uma notícia começa com frequência num rumor.

Na opinião de Richard Smith, .alguns jornalistas irão procurar ideias nos blogs, e o estilo de escrita poderá influenciar o actual estilo jornalístico. Não creio que irão substituir os media tradicionais, mas creio que para alguns tipos de informação (e opinião), os leitores irão optar por um blog que conhecem e em que confiam. Tal como os vários media, ao surgirem, não substituíram os media anteriores, também os blogs irão ocupar o seu próprio espaço dentro do ambiente existente. Podemos ver a situação como uma ecologia mediática em que os blogs preenchem um nicho..

É fácil cedermos à tentação de classificar, mas é ainda demasiado cedo para decidirmos o futuro do blog. Poderá, um dia, ser regulamentado. Talvez deva sê-lo, mas só até certo ponto. Um blog sem regras não é jornalismo, e um blog com as mesmas regras do jornalismo seria a tecnologia sem a filosofia, não já um blog em toda a sua arrogância intelectual, e até artística. Algo se teria perdido. Acredito que não seja preciso ter uma liberdade completa do indivíduo para se poder ter arte e jornalismo em simultâneo - creio que a democracia basta.”

Revista “Meios”, Maio 2003


A 9 de Maio, o .Público. (no suplemento Y) faz nova referência aos .blogues. nacionais.

A propósito da .chegada. de Pacheco Pereira, a 10 de Maio é a vez do .Diário de Notícias. abordar o tema .blogues. (ver texto de Armando Rafael em “entrada estendida”), lançando pistas para a descoberta deste “admirável mundo novo”, com sugestões de “blogues” posicionados à direita e à esquerda, humorísticos ou “literários”…

Nesta altura, o Blogs em .pt regista já mais de 400 .blogues. portugueses, subindo para 500 a 20 de Maio.

A 17 de Maio, no .Expresso., Paulo Querido lança o tema da abertura do . até então . .mundo fechado da blogosfera. e a viragem dos .blogues. para o exterior, não só para o público da net, mas, de forma mais alargada, para o público em geral.

A 26 de Maio, no suplemento .Computadores. do “Público”, Pedro Fonseca faz o relato do que se passou no encontro .Blogtalk . European Conference on Weblogs., em Viena, a 23 e 24 de Maio.

Ainda em Maio, o .Diário Económico. publica também um interessante e pertinente artigo sobre weblogs, da autoria de Carlota Mascarenhas, referindo que: .A política é o tema mais discutido nos .weblogs., devido à liberdade de expressão.. Mas há também espaços de humor, por exemplo com o .Blogue dos Marretas., .onde se analisa a actualidade e o universo dos .blogs. com um tom irónico e divertido. (ver texto completo em “entrada estendida”).


“José Pacheco Pereira em versão «blogger»

O eurodeputado social-democrata José Pacheco Pereira é a mais recente estrela do universo dos bloggers portugueses, tendo aberto esta semana o seu diário ao público [www.abrupto.blogspot.com]. A partir de agora, quem quiser saber o que ele pensa ou partilhar dos seus desabafos, bastar dirigir-se àquele endereço, e entrar. Ali ficará a saber que o autor da biografia de Álvaro Cunhal adora a BBC Learning, e terá oportunidade de lhe mandar uma mensagem. Se não gostar de Pacheco Pereira ou das suas divagações, tem muito por onde escolher. Basta dirigir-se a um dos muitos portais já existentes -marretas.blogspot.com (animado por três professores da Universidade da Beira Interior, na Covilhã), blogo.no.sapo.pt ou cruzescanhoto.blogspot.com, entre outros.

Se optar por um diário de alguém mais conotado com a esquerda pode escolher entre blog-de-esquerda.blogspot.com (do jornalista José Mário Silva) e o www.paisrelativo.blogspot.com (de jovens socialistas como Pedro Adão e Silva e Mark Kirkby). Se quiser opiniões ou desabafos de direita, também há. Em maior número até. Desde a www.colunainfame.blogspot.com (dos jornalistas Pedro Mexia e João Pereira Coutinho) à www.valetefrates.blogspot .com, passando pelo www.fumacas.blogspot.com.

Em alternativa, neste mundo que se aproxima muito daquilo que em tempos foram os jornais de parede, e que se situa a meio caminho entre um chat e a interactividade que é proporcionada por um site, ainda pode ter outras opções de escolha.

Se gosta do estilo e do humor das produções fictícias, tem o www.gatofedorento.blogspot.com, um diário animado por Ricardo Araújo Pereira, José Diogo Quintela, Tiago Dores e Miguel Góis. Se prefere algo mais literário, então o melhor é dirigir-se à janela-indiscreta.blogspot.com ou, então, ao prazer-inculto.blogspot.com (do escritor Possidónio Cachapa). Caso tenha saudades dos textos e do estilo de Miguel Esteves Cardoso, tem como opção aquilo a que se chama os filhos do MEC, entre os quais contra-a-corrente.blogspot.com.

Depois tudo depende da sua vontade. Ou lê e desliga ou participa e deixa a sua opinião, agora que a intervenção no Iraque já não motiva tantas clivagens entre bloggers, como ainda há pouco era visível, num mundo de páginas, desabafos e opiniões que parece ter explodido em Portugal nos últimos seis meses. Foi um blogger que me garantiu.”

Armando Rafael
Diário de Notícias - 10 de Maio de 2003


Internet - Portugal adere em força aos ‘weblogs’

A política é o tema mais discutido nos ‘weblogs’, devido à liberdade de
expressão.

Portugal está cada vez mais presente na blogosfera, contando já com mais 400 ‘weblogs’ nacionais sobre os mais variados assuntos, desde política, à cultura, passando pelo humor. O fenómeno nasceu no dia 1 de Abril de 1997 -data considerada como a primeira entrada num ‘weblog’ a nível internacional - pelas mãos de Dave Winer que criou o «Scriptting News Archive».

Chama-se ‘blog’, abreviatura de ‘weblog’, a qualquer registro frequente de informações na internet. Um dos factores atractivos nos ‘blogs’ é o facto de permitir aos utilizadores publicar conteúdos sem ter que dominar a construção de páginas na Internet, sem conhecimento técnico especializado.

Foram também surgindo alguns ‘blogs’, como o «Blogs em .pt» e o «blogo.no.sapo», que funcionam exclusivamente como apontadores, detectando o aparecimento de novos ‘weblogs’ portugueses.
No «blogo.no.sapo», existe mesmo um sistema de categorização e apreciação da blogosfera nacional. Segundo o apontador, na categoria de Actualidade, o ingrediente principal é a actualidade nacional ou internacional, debatida num registo opinativo, abarcando temas como a política, economia, desporto, justiça, religião ou os media. Aqui destacam-se ‘blogs’ como o «Ponto Média», do jornalista António Granado, o «Abrupto» de José Pacheco Pereira, o «Coluna Infame», que nasceu pelas mãos de Pedro Mexia ou o «De Esquerda», mantido por Pedro Crespo.

Boa disposição e provocação são as palavras de ordem nos ‘blogs’ que constam da categoria Humor, onde se discute política, cultura ou actualidade, sempre de forma mais «incisiva», como refere o «blogo.no.sapo». ‘Blogs’ como o «Blogue dos Marretas» ou o «Gato fedorento», tratam a informação com bom humor, uma pitada de ironia e um toque de sarcasmo. No caso das Artes e Letras, «Bisturi», «Freira Dadaísta», «Real Absoluto» ou «Prazer Inculto» são alguns dos ‘weblogs’ cujo o espaço é dedicado à reflexão sobre a cultura, desde a construção das letras à divulgação das artes.

Os «nossos» ‘blogs’
Foi graças a um texto publicado na Internet, enumerando instruções para criar um ‘blog’, que Pedro Mexia criou a «Coluna Infame», que surge em Outubro de 2002, altura em que existiam cerca de 200 ‘weblogs’ em Portugal, mas nenhum de cariz político. «Achava piada fazê-lo e depois do 11 de Setembro achei que o momento de repolitização era oportuno», frisa Pedro Mexia. Sublinhando que em Portugal os jornais evitam o jogo da independência, não tendo, portanto, posição editorial, o fundador da «Coluna Infame» acredita que, nos ‘blogs’ essa tendência é assumida. «É a simplicidade e a liberdade de expressão», frisa Pedro Mexia. Salientando que os ‘blogs’ nacionais foram alvo de uma subida de atenção com o surgimento do Abrupto, de Pacheco pereira, Pedro Mexia refere que há a tendência perigosa de presumir que as coisas feitas e ditas por figuras públicas são melhores. «Os melhores textos que leio nos ‘blogs são, sem dúvida, de ilustres desconhecidos».

O «De Esquerda», mantido por Pedro Crespo, inclui-se também nos ‘blogs’ políticos. Caracterizando os ‘weblogs’ como um espaço de intervenção digital, grátis e de fácil utilização, o autor do «De Esquerda» acredita que a língua portuguesa tem uma presença forte no mundo dos ‘blogs’, apesar da blosfera lusa ser ainda pequena. «Grande parte dos ‘blogs’ são para consumo interno, para distribuir pelos amigos (.), mas os outros são, a meu ver, os mais interessantes, com espaços de discussão e reflexão sobre temas genéricos e actuais», frisa.

Pedro Crespo refere que há hoje uma comunidade de ‘blogs’, donde se criam oposições de estimação, como Direita vs Esquerda. «Acabamos por repartir entre nós os leitores». Frisando que os ‘blogs’ não ameaçam a imprensa escrita nem a rádio ou televisão, Pedro Crespo resume os ‘blogs’ a uma camaradagem saudável em que todos se tratam por tu, mesmo quando não se concorda. «No De Esquerda posso discordar das medidas que o governo de direita implementa e sugerir propostas, recomendar último livro do Ohran Pamuk ou um restaurante na zona ribeirinha do Porto».

«O Quinto dos Impérios» é um dos ‘blogs’ recém-nascidos na blogosfera nacional pelas mãos de cinco amigos com vontade de discutir política e falar de coisas que o jornalismo tradicional não aborda normalmente. Diogo Belford Henriques, Fernando Albino, Francisco Mendes da Silva, João Vacas e Martim Borges de Freitas criaram um novo ‘blog’, também de cariz político. «O Quinto dos Impérios» surgiu para fazer política, discutir a actualidade e para nos mantermos mais ou menos juntos e atentos à realidade nacional, visto que agora vivemos em três países diferentes», acrescenta João Vacas. Sublinhando que os ‘blogs’ são «uma ameaça interessante ao conceito tradicional de jornalismo e um desafio para quem tem que idealizar e dirigir publicações e programações atractivas», os autores acreditam que a blogosfera permite um acesso «mais directo e menos filtrado por linhas editoriais, ao pensamento e opinião de muitas pessoas de valor».

Passando ao humor, o «Blogue dos Marretas», mantido inicialmente por Statler (Nuno Amaral Jerónimo) e Waldorf (João Canavilhas), conta agora com Animal (Jorge Bacelar), todos docentes na Universidade da Beira Interior (Covilhã). «Tudo começou porque já usávamos blogues como ferramenta de apoio às aulas e também como campo de investigação», frisa João Canavilhas. A ideia evoluiu e surgiu um ‘blog’ onde se analisa a actualidade e o universo dos ‘blogs’ com um tom irónico e divertido.

Os «Marretas» acreditam que a massificação da Internet foi um fulcral para a libertação da opinião, sublinhando que, nesse aspecto, os ‘blogs’ são a simplificação do processo técnico, democratizando ainda mais o sistema. «Pensamos que os blogues terão um impacto muito positivo em vários campos profissionais e permitirão o aparecimento de novos valores no campo da cultura», frisa «Walldorf».

Os media em ‘blog’
António Granado criou o «Ponto Média» a 2 de Janeiro de 2001. «Há já alguns meses que seguia o Media News, do Jim Romenesko, e achei que seria interessante fazer um ‘weblog’ sobre jornalismo em português», refere o jornalista, salientando que 2003 será certamente o ano dos ‘weblogs’ em Portugal. Actualizado uma vez por dia, o Ponto Média oferece um ‘clipping’ diário dos media nacionais e internacionais.

Apesar de ser difícil prever o futuro dos ‘blogs’ em Portugal, o jornalista acredita que estamos apenas a assistir ao início do fenómeno. »os media portugueses só agora acordaram para o fenómeno. Isto tem feito com que, cada vez que um artigo sobre ‘weblogs’ sai nos jornais, sejam criados mais umas dezenas», salienta António Granado. «Os ‘weblogs’ pessoais continuarão a ser criados com bastante frequência e veremos surgir ‘photoblogs’ (’weblogs’ baseados em fotografias) como cogumelos, actualizados a partir dos telemóveis com câmara fotográfica. Nessa altura perceberemos o quanto a nossa privacidade está ameaçada’, frisa.

A educação é outra das áreas que, segundo António Granado, começará a usufruir das vantagens dos ‘blogs’. ‘Com tantos artigos sobre ‘weblogs’, os educadores perceberão o quanto estes podem ser úteis na sua profissão. A experiência pioneira dos cursos de Comunicação da Universidade do Minho e da Universidade do Porto serão seguidas por muitos outros cursos e até por outros graus de ensino’.”

Carlota Mascarenhas
Diário Económico


Em 2 de Junho, Pedro Fonseca apresenta, também no suplemento .Computadores. do .Público., novo artigo sobre a conferência Blogtalk, realizada em Viena: .Maioria dos ‘bloggers’ ainda são info-ricos..
Surge no Abrupto, a 3 de Junho, o que terá sido o primeiro poema em Portugal a usar a palavra .blogue., um soneto de Vasco Graça Moura (.recusando. a solicitação para que abrisse também um .blogue.):

.Não há nada no mundo que me pague
para aqui estar. não há nada que jogue
e nada que responda ou faça blague
por eu, panteramente, estar no blog.

não há verso do rilke que me afague,
por mais que o vgm aqui dialogue
com o jpp, quer me embriague,
quer passe fome, ou me espreguice e drogue.

sou a pantera fora da internet.
passo lá por acaso. depois saio
e volto às grades onde alguém me mete.

e rujo e rosno e mordo e não me ensaio
nada nas piruetas da disquette
de apagá-la depois. só me distraio..

Haviam então começado (já desde 9 de Abril) os eventos do “É a cultura, estúpido!” (.happening. cultural organizado pelas .Produções Fictícias.); na terceira sessão, a 4 de Junho, sendo o tema .Livros de Verão., reuniram-se alguns .bloguistas. (nomeadamente os .polemistas. Pedro Mexia e José Mário Silva), debatendo também a situação da blogosfera, com moderação de Anabela Mota Ribeiro, fechando com o stand-up de Ricardo de Araújo Pereira. José Mário Silva fez uma analogia entre a blogosfera e os cafés de antigamente; foi também realçada a qualidade da escrita nos .blogues..


No início de Junho, o Blog de Esquerda (por intermédio do .convidado. Daniel Oliveira) e A Coluna Infame (na pessoa de João Pereira Coutinho) .desentendem-se., na sequência de uma .provocação”/referência de ligação à .extrema-direita. (.entrada. de dia 5 no Blog de Esquerda), a que J. P. Coutinho respondeu em A Coluna Infame a 6 de Junho, resposta não subscrita pelos outros membros do .blogue. (ainda com .contra-resposta. de Daniel Oliveira, no mesmo dia).

Após a cisão, com a saída, no dia 7, de João Pereira Coutinho, o episódio acabaria por culminar, a 10 de Junho, na suspensão da Coluna Infame:

.A Coluna Infame termina aqui a sua jornada. Começámos em Outubro de 2002, fascinados pelo fenómeno blogger, e convencidos de que era útil travar deste modo novo o combate cultural contra a hegemonia intelectual da esquerda. Desde essa data, o número de blogs mais que duplicou, e muitos deles defendem os mesmos valores que nós. Facto inédito, a «não-esquerda» domina mesmo a blogosfera portuguesa. Paralelamente, cresceu o interesse dos media por este fenómeno. Para além de uma pequena legião de talentos anónimos, cultos e inteligentes, os blogs começaram também a atrair figuras públicas. A blogosfera (política em particular) passou a ser um assunto de conversa..
.
.Por aqui passaram também as artes e as letras, as observações quotidianas, os fascínios e embirrações. E, claro, uma boa dose de polémica. Esta última foi, porém, longe demais, e não nos eximimos das nossas culpas nessa matéria. Depois dos acontecimentos recentes que levaram à cisão conhecida, entenderam os dois outros autores ser inviável prosseguir, tendo em conta os conflitos gerados, a acrimónia, e o próprio feedback negativo que recebemos. Obrigado a todos os que fizeram, de um modo ou de outro, esta Coluna, incluindo os nossos adversários (mas não inimigos)..


A 12 de Junho, começa o .Desejo Casar., .blogue. colectivo formado por um alargado grupo que inclui jornalistas, arquitectos, designers, juristas, argumentistas, filósofos.

No dia seguinte, o editorial de José Manuel Fernandes no .Público. fala sobre O Fim da “Coluna” (ver texto completo em .entrada estendida.): “A .Coluna Infame. acabou. A blogosfera está mais pobre. E o país também - mesmo que a maioria nunca tenha ouvido falar nem da .Coluna., nem da blogosfera.” E também: .A blogosfera é mais democrática, mais aberta, mais plural, mais interessante e mais rica do que os espaços de debate da maioria dos meios de comunicação tradicionais, mesmo os famosos fóruns de discussão radiofónicos (para não falar dos talk-shows televisivos). Na blogosfera reage-se à actualidade em cima da actualidade, e o comentário (ou “post”) colocado num blog gera quase de imediato uma cascata de reacções..

O texto de abertura da secção .Media. do .Público., de 14 de Junho, lança o tema: “Warblogs” Interpelam “Medias” Convencionais, a propósito do papel que os .blogues. começavam a assumir na discussão pública da guerra do Iraque: .Nos Estados Unidos, muitos internautas manifestaram “reservas sobre a capacidade crítica dos correspondentes do seu país e procuraram fontes internacionais de notícias mais equilibradas, ao mesmo tempo que crescia a importância de fontes não convencionais, muito particularmente dos (war)blogs”, afirma José Luis Orihuela, professor de Comunicação na Universidade de Navarra..

Entretanto, em crónica no DNA, Miguel Esteves Cardoso (que mantém o sítio denominado .Pastilhas.) escrevera: .Blogar é escrever num meio terrivelmente aberto . interactivo, instantâneo, espúrio - a partir de um momento terrivelmente particular - o eu, o ser, a alma., e, mais adiante, .A força do blogue está no facto de não haver mediações; do salto ser puro; da combustão ser total., finalizando assim: .Não espanta por isso que seja nos blogues que hoje se vê a nossa língua a saltar e a correr, a fazer das suas e das dela e das tuas e das minhas, envergonhando a prosa paralisada que hoje passa por escrita - e por português - nos nossos jornais. É belo. Belo de ver e belo de ler e belo para escrever..

A 16 de Junho, Francisco José Viegas anuncia o início da vida do Aviz para o dia seguinte, dando mais um impulso decisivo para a expansão e afirmação da blogosfera.

“O Fim da “Coluna”

A “Coluna Infame” acabou. A blogosfera está mais pobre. E o país também - mesmo que a maioria nunca tenha ouvido falar nem da “Coluna”, nem da blogosfera.

Na vertigem delirante das notícias dos últimos dias - Boaventura Sousa Santos a anunciar que vivemos em “fascismo social”, Fátima Felgueiras a dizer-se a primeira presa política pós-25 de Abril, responsáveis políticos a sacudirem a água do capote de uma amnistia mal engendrada em 1999 - o fim da “Coluna Infame” parece um acontecimento menor. Mas não é.

Para os que não conhecem, a blogosfera é um dos mais recentes e interessantes fóruns de debate democrático. Preenchem-na páginas pessoais ou colectivas, criadas na Internet, onde se trocam ideias, informações e sugestões à velocidade própria da net, isto é, em tempo real (para os interessados, ver http://blogo.no.sapo.pt ). Na blogosfera portuguesa a “Coluna Infame” era uma referência fundadora, quer por ser um dos primeiros espaços de debate político desse universo virtual, quer por ser animada por intelectuais de direita. Estas duas qualidades são importantes.

Na verdade, a blogosfera é a mais vibrante das expressões modernas da ágora ateniense, esse espaço público onde os cidadãos se encontravam para discutir os assuntos que a todos diziam respeito. A blogosfera é mais democrática, mais aberta, mais plural, mais interessante e mais rica do que os espaços de debate da maioria dos meios de comunicação tradicionais, mesmo os famosos fóruns de discussão radiofónicos (para não falar dos talk-shows televisivos). Na blogosfera reage-se à actualidade em cima da actualidade, e o comentário (ou “post”) colocado num blog gera quase de imediato uma cascata de reacções. No tempo da blogosfera é, por exemplo, possível denunciar uma mistificação feita em torno de declarações de Wolfowitz de forma tão rápida que a notícia errada não dura senão umas horas no site do jornal inglês “The Guardian”.

No caso português e da “Coluna Infame”, a sua colocação à direita corresponde à emergência de jovens intelectuais educados nos valores do liberalismo e que representam uma geração que pouco tem a ver com as referências clássicas dominantes, por exemplo, entre os jornalistas e a maioria dos intelectuais consagrados. Contra ela surgiram espaços como o “Blog de Esquerda”, sendo que o equilíbrio esquerda-direita neste universo é mais dinâmico e mais real do que na generalidade dos media tradicionais.

A forma como a “Coluna Infame” desaparece também é sintomática: morre porque os seus três animadores se desentenderam quando um deles ultrapassou os limites do cavalheirismo numa resposta a uma provocação do “Blog de Esquerda”. Reparem: cavalheirismo. A blogosfera exige abertura de espírito e poder de encaixe, suporta o desabafo mas privilegia o argumento. E permite que adversários políticos se afirmem amigos e se respeitem. Não era pois por acaso que, ontem, na blogosfera se lamentasse a perda de qualidade dos debates e até das mensagens enviadas para os blogs.

Ficamos por isso à espera de novidades do Pedro Mexia, do Pedro Lomba e do João Pereira Coutinho, os animadores da “Coluna”.”

José Manuel Fernandes
“Público”, 13 de Junho 2003


A 18 de Junho, os .blogues. chegavam à rádio, pela mão de Francisco José Viegas, na Antena 1, no programa .Escrita em Dia., num debate com a participação de José Mário Silva (do Blog de Esquerda), Nuno Costa Santos (do Desejo Casar), Pedro Lomba (ex-A Coluna Infame) e Pedro Mexia (Dicionário do Diabo).

Nuno Costa Santos começou por afirmar ser um .novo-r

changed March 7, 2008