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7.1. Blogosfera em 2003
Escreveu Pacheco Pereira no Público (em 17 de Julho, a propósito do "Arquivo da Internet", referindo que «A blogosfera devia ter um “depósito obrigatório” imediato»):
«Os blogues, enquanto formas individualizadas de expressão, originais e únicas, são uma voz imprescindível para se compreender o país em 2003. Eles expressam um mundo etário, social, comunicacional, cultural, político que, sendo uma continuação do mundo exterior, tem elementos “sui generis”».
2003 é portanto o ano da definitiva afirmação deste fenómeno, cujos "primeiros passos" haviam sido dados já, essencialmente, em 2002.
Os weblogs (contracção de web - "rede" - e log - "diário de bordo") são páginas na Internet, regularmente actualizadas, com ligações a artigos noutras páginas da web, frequentemente com comentários. Os textos são, em regra, datados, sendo geralmente apresentados por ordem cronológica inversa, dos mais recentes para os mais antigos.
O primeiro weblog foi o primeiro website: http://info.cern.ch, o sítio construído em 1992 por Tim Berners-Lee (criador da HTML - linguagem que permite a navegação por hipertexto e que abriu a World Wide Web) no CERN, cujo conteúdo se encontra arquivado no World Wide Web Consortium.
Seguiu-se a página What’s New de NCSA, até que surgiu a página What’s New na Netscape, o .grande blogue. do período de 1993 a 1996. Deu-se então a .explosão. da Internet e, com ela, dos .blogues..
Dave Winer, hoje considerado o pai dos .blogues., criou o seu primeiro weblog em Fevereiro de 1996, como parte do website do .24 Hours of Democracy.; em Abril de 1996, iniciou uma news page, que se tornaria, em 1 de Abril de 1997, no Scripting News, um dos primeiros .blogues. de sempre e actualmente o mais antigo na Internet.
Outros weblogs percursores foram os de Robot Wisdom, Tomalak’s Realm e CamWorld.
Como assinalou António Granado (no “Público” de 23 de Junho deste ano), foi contudo preciso esperar ainda dois anos para que as coisas tomassem um rumo nunca antes esperado. A 23 de Agosto de 1999, foi criado o Blogger.com, uma ferramenta gratuita para criação de weblogs, que revolucionou a edição de textos na Web. Em 3 de Setembro de 2000, a Pyra criou o Blogspot.com, um “site” que aloja gratuitamente milhares de weblogs, em troca de anúncios colocados no topo das páginas. O sucesso foi tal que, em pouco mais de dois meses (a 7 de Novembro de 2000), o Blogspot viu nascer o seu 10.000º blog. No final de Junho, o Blogger anunciava ter mais de 1,5 milhões de utilizadores registados, ainda que muitos weblogs não tivessem mais do que alguns “posts”, ou tenham sido abandonados há muito.
Segundo uma pesquisa do jornalista António Granado (Ponto Media), alguns dos primeiros weblogs portugueses terão sido o .Altas Doses de Cafeína., criado a 19 de Agosto de 2000; o .HiperBock., criado a 29 de Setembro de 2000, e o .Sonhos Virtuais., criado a 15 de Novembro de 2000; acrescenta ainda (em artigo no “Público”, de 23 de Junho) que, entre os primeiros, estariam também o .Macacos Sem Galho. (início a 30 de Março de 1999), o .Gildot.org. (início a 31 de Março de 1999), o .Dee.s Life. (início a 3 de Outubro de 1999), o .Nónio.com. (início a 15 de Agosto de 2000 e o .Velouria.org..
Celebrando a passagem do milénio, António Granado inaugurava, em 2 de Janeiro de 2001, o Ponto Media, escrevendo:
.Se tem dúvidas sobre o que é um weblog, então vale a pena ler este artigo fresquinho (ainda que escrito no século passado) do jornal “The New York Times”: “The concept is simple enough. Create a Web page. Update it regularly with brief personal reflections or witty commentary, sprinkled with links to other pages. Put new entries at the top of the page, pushing older ones down. Voilà, you’ve got yourself a Web log.
.
Alguém está a ler isto?.
Em 27 de Fevereiro de 2002, teve início o .blogue. de Elisabete Barbosa, Jornalismo Digital.
A 8 de Abril de 2002, nascia o Jornalismo e Comunicação, criado no âmbito do Mestrado em Informação e Jornalismo da Universidade do Minho.
A 15 de Outubro de 2002, seria lançada, por João Pereira Coutinho (colunista de .O Independente., Pedro Lomba e Pedro Mexia (críticos literários do Diário de Notícias), .A Coluna Infame., .blogue português de artes, literatura, política e ideias, para conservadores, liberais e independentes...
Também em Outubro de 2002, Manuel Pinto, da Universidade do Minho, adoptou os .blogues. como ferramenta de trabalho, com o Aula de Jornalismo, weblog da turma de terceiro ano de Jornalismo, coordenado pelos respectivos docentes, Manuel Pinto e Sandra Marinho.
Na passagem do ano de 2002 para 2003, surgem dois novos .blogues.:
- a Íntima Fracção (em 30 de Dezembro de 2002), de Francisco Amaral, para .contar tudo o quiserem e tudo o que eu quiser - fraccionadamente e na intimidade do ciberespaço., sobre o histórico programa de rádio com o mesmo nome; e
- a 1 de Janeiro de 2003, o Blog de Esquerda, de José Mário Silva (editor-adjunto do DNA) e do irmão Manuel Deniz Silva, nascendo .um novo espaço de pensamento e opinião . sobre política e cultura., que viria a constituir um .contraponto. face à Coluna Infame, com quem travaram acesos debates, culminando com o episódio que originaria a suspensão desta. Conforme disse José Mário Silva: .Senti que eles tinham uma importância e uma qualidade de reflexão política muito boa e era preciso equilibrar..
Ainda em Janeiro de 2003, Pedro Fonseca, do ContraFactos & Argumentos, disponibilizara já uma lista de weblogs portugueses, então pouco mais que 150. O Blogs em Pt viria a listar os .blogues. criados por portugueses ou em Portugal, entre 25 de Janeiro e 2 de Julho de 2003.
A propósito, .A Coluna Infame. apresentava, a 30 de Janeiro, o seguinte texto:
.BLOGS EM PORTUGAL: Encontrámos uma listagem de blogs portugueses. Surfámos por todos eles.
.
Feita a ronda, constatamos que os únicos sites indispensáveis são mesmo o Ponto Média de António Granado e o Blog de Esquerda. Além destes vossos criados. Mas temos a certeza que os próximos tempos representarão um salto também qualitativo na blogosfera portuguesa. Daremos notícias..
Surgiriam depois outros apontadores, entre os quais o Bloco-Notas (que anunciou entretanto a desactivação do serviço em 16 de Novembro, numa altura em que referenciava 2 724 .blogues.), o Blogues no Sapo, o Frescos, Blogo no Sapo, o Weblog.com.pt e, por fim (a 4 de Novembro), o Blogs.sapo.pt.
Entre 26 de Abril e 27 de Agosto, o Posto de Escuta apresentara também uma página a que chamou .Ecos da blogosfera., a qual consistia em citações de .entradas. de diversos .blogues..
A título de curiosidade, o grande .boom. ocorreu na semana de 30 de Junho a 7 de Julho (com 216 novos .blogues., de acordo com a listagem do Bloco-Notas); o dia mais .produtivo. foi o de 2 de Julho (mais 96 .blogues.); o mês mais .activo. o de Julho (mais 800 .blogues.!).
Também segundo a mesma lista, dos 615 .blogues. referenciados a 18 de Junho, passou-se a 791 em 30 de Junho e a 998 a 5 de Julho; a quantidade referida a 18 de Junho foi .duplicada. em 16 de Julho (1249 .blogues.). No final de Julho, atingiam já 1591, subindo para 1878 no fim de Agosto. O número de 2000 .blogues. foi atingido a 8 de Setembro, ultrapassando-se os 2500 a 18 de Outubro.
No .Público. de 25 de Janeiro, António Granado escrevia, pela primeira vez, sobre os .blogues. de maior projecção: .A Coluna Infame. e .Blog de Esquerda.. A 28, Pedro Mexia refere a .Coluna Infame. no .Diário de Notícias.; a 30 de Janeiro, novamente no .Público., era a vez de Eduardo Prado Coelho se referir aos .blogues..
A 1 de Fevereiro, ainda no .Público. (suplemento .Mil Folhas.), foi Isabel Coutinho a fazer-lhes referência. Também em Fevereiro, a 21, seria Paulo Pinto Mascarenhas, a referir-se aos .blogues., no .Independente..
A 23 de Fevereiro de 2003, inicia-se o Blogue dos Marretas, um dos .blogues. mais humorísticos da blogosfera, que reuniu ao .Statler. (Nuno Jerónimo) e .Waldorf. (João Canavilhas), o .Animal. (Jorge Bacelar), docentes na Universidade da Beira Interior, na Covilhã, respectivamente de Sociologia, Comunicação e Design.
Já em Março, no dia 1, José Mário Silva escrevia no suplemento DNA do .Diário de Notícias., uma crónica sobre .blogues., também disponível no .Escrita Automática. (ver aqui, de seguida, o texto completo em .entrada estendida.).
Em 8 de Março de 2003, nascia mais um .site. sobre webjornalismo em português, chamado webjornalismo.com, da autoria de João Canavilhas (o .Waldorf. do Blogue dos Marretas), com textos, links e notícias, .procurando juntar num único sítio alguns trabalhos que estão dispersos em sites generalistas sobre comunicação ou jornalismo..
.PENSO, BLOGO, EXISTO
Há uma revolução em curso na internet e tem um nome: blog. É provável que os menos atentos ao que se passa na Web só tenham ouvido a palavra esta semana, quando a imprensa clássica anunciou, com algum destaque, a compra pelo gigante Google . «rei» dos motores de busca . da pequena Pyra Labs, a empresa responsável pelo mais popular «interface» desta nova forma de comunicação: o Blogger. Mas em que se traduz afinal este conceito revolucionário, comparado por muitos analistas ao advento da TV?
O melhor é começar pelo princípio. De que falamos ao certo quando falamos de um blog? Dito da maneira mais simples, um blog . abreviatura de web-log . é uma página na internet onde se podem colocar facilmente mensagens escritas ou imagens, por ordem cronológica e com actualização regular (nos casos mais sérios, várias vezes por dia). Cada blogger que mantém um espaço destes pode fazer dele o que muito bem entender: um diário íntimo, um jornal de parede, um museu de glórias pessoais, uma tribuna para discussão de ideias, um púlpito para polémicas, um ponto de encontro ou um muro das lamentações. O blog molda-se à personalidade de quem o criou. E é aí que começa a revolução. Pela primeira vez, qualquer pessoa tem acesso a uma ferramenta informática simples que lhe permite comunicar ao resto do mundo o que quiser, como quiser e quando quiser. Até agora, a publicação de um texto escrito dependia sempre da existência de um jornal e da ultrapassagem de uma série de barreiras e filtros editoriais . que o digam os leitores opinativos habituados a enviar cartas para os jornais de referência. É essa distância, é esse Rubicão que desaparece com os blogs. Em teoria, cada pessoa pode fazer, para si ou para um público virtualmente infinito, o seu próprio jornal. Ou o seu próprio livro (disponível 24 horas por dia, on-line).
Claro que tudo isto já se fazia antes, mas a manutenção de sites pessoais era muitas vezes paga e nem sempre expedita. A grande vantagem deste novo sistema é a sua rapidez. Quem se dirigir à «home-page» do Blogger (www.blogger.com), sai de lá com uma página impecável em três minutos. Depois, a actualização é tão simples que até o mais inexperiente dos internautas consegue fazer um brilharete. Ninguém precisa de conhecer as subtilezas da linguagem HTML e mesmo o «design» da página pode ser escolhido, com um toque do rato, de um vasto catálogo de «roupagens» disponíveis. A bem dizer, só não cria o seu blog quem não quer.
Aliás, os números falam por si. Desde 1999, quando o software ficou disponível, já aderiram ao conceito 500.000 pessoas no mundo todo. A blogosfera, como alguns chamam à comunidade dos bloggers, está em plena expansão, tanto à escala planetária como no nosso país. Vale a pena consultar o index actualizado do «Blogs em Portugal» (http://blogsempt.blogspot.com) e verificar que surgem páginas todos os dias e para todos os gostos (da política à literatura, passando pelo cinema ou pelo desporto). Como seria de esperar, mais de 95% destes blogs têm um interesse muito reduzido. Abundam os devaneios poéticos (quase sempre assustadores), as «private jokes» e os corações destroçados carpindo as suas mágoas «no frio desta noite infinita». É tudo uma questão de procurar bem e não desistir dos 5% de blogs que merecem uma visita diária. O panorama nacional ainda é muito pobre mas já há várias páginas de referência (quase todas mantidas por jornalistas). E como remetem continuamente umas para as outras, seja pela via da polémica ou do elogio, não é difícil separá-las do joio da irrelevância umbiguista.
Interessa-me agora enumerar aqueles que são, no meu entender, os melhores atributos e os principais riscos deste novo «media». Do lado das vantagens, além das já referidas (o acesso rápido e a actualização simples), gostava de destacar a possibilidade que os blogs oferecem, aos cidadãos comuns, de exercerem o seu sentido crítico. Abolidos os intermediários, as opiniões passam a circular directamente do produtor para o consumidor e caberá a cada um escolher as «vozes» que deseja ouvir, ampliando-se assim consideravelmente uma oferta que estava limitada aos «opinion-makers» oficiais, com dia certo para publicarem a crónica no jornal. O trunfo dos bloggers é não terem «dead-lines». Podem escrever a qualquer hora e comentar, em directo (ou quase), o que se vai passando no mundo: um desastre, declarações de guerra, a morte de um escritor.
O problema é que esta capacidade de responder instantaneamente a um estímulo é uma faca de dois gumes. Por um lado, permite uma intervenção directa sobre a realidade em estado bruto, sem influências nem manipulações. Ao tomarmos uma posição, ao formularmos uma ideia, ainda não lemos nem ouvimos o que disse X ou Z. Estamos por isso mais perto de uma verdade pessoal, não formatada pelo pensamento alheio. Mas também mais perto do erro. Sem criar distâncias, olhando para a espuma dos dias quando as coisas «ainda fervem», é mais fácil sucumbir às precipitações e aos equívocos. Ainda assim, para os disparates imperdoáveis há sempre remédio, porque todos os textos podem ser editados em qualquer altura. Quanto ao resto, o tempo encarregar-se-á de fazer o seu papel de juiz.
Se é óbvio que uma certa impunidade pode conduzir a pontuais abusos de linguagem ou provocações gratuitas, não é menos certo que esses «danos colaterais» são um preço baixo que se paga pela liberdade de discutir e polemizar. Aliás, esses entusiasmos e eventuais excessos são perfeitamente compreensíveis e acabam por ser corrigidos pela própria lógica interna da blogosfera. O diálogo entre os blogs e os comentários que os leitores fazem aos textos são as formas ideais, porque não censórias, de auto-regulação.
Por fim, convém não esquecer que a característica fundamental dos blogs se prende com a possibilidade de fazer links para outras páginas (há mesmo blogs só com links). Na maioria dos casos, o link é uma sugestão comentada, uma pista para navegar na Web, muitas vezes de um blog para outro blog e deste segundo blog para um terceiro, etc. Cria-se assim um imenso ecossistema de páginas interligadas, onde a informação flui de uma forma imediata e extraordinariamente flexível.
Quer isto dizer que os blogs podem substituir os jornais? Não, pelo menos por enquanto. Mas podem perfilar-se, nalguns casos, como uma alternativa. Já há de resto quem leia certos blogs portugueses todas as manhãs, antes mesmo, por exemplo, das crónicas de Eduardo Prado Coelho (Público) e de Vasco Pulido Valente (DN)..
José Mário Silva
(esta crónica foi publicada no DNA de 01/03/2003)
Em 20 de Março de 2003, Pacheco Pereira apresenta como tema na sua coluna no .Público. as discussões a propósito da guerra do Iraque, então .bem acesas. na .blogosfera. portuguesa.
A 25 de Abril, nasce o Gato Fedorento, .blogue. de humor, mantido por Ricardo Araújo Pereira, Zé Diogo Quintela, Miguel Góis e Tiago Dores (que integram a equipa das .Produções Fictícias.) - .um blog com opiniões, nenhuma das quais devidamente fundamentada.. na verdade, o grande .blogue. humorístico em Portugal (a par do .Blogue dos Marretas.).
A Revista .Meios., no seu número referente ao mês de Maio, edita um texto sob o tema: “Blogs”: o outro lado da Internet (ver o texto completo também aqui, em “entrada estendida”).
A 4 de Maio de 2003, são editados no .Público. novos artigos sobre o fenómeno dos .weblogs., de Pedro Miguel Madeira.
No dia 6 de Maio, inicia-se o .blogue. mais mediático da .blogosfera., o Abrupto, de Pacheco Pereira . que, para que não restassem dúvidas sobre a autoria, anunciou no dia seguinte o tema do texto que iria apresentar no .Público. a 8 de Maio.
A 7 de Maio, Carlos Pinto Coelho fala sobre os .blogues. no .Acontece. (na RTP2).
Também a 8 de Maio, nasce .O Meu Pipi., talvez o mais famoso .blogue. português - .Blog a pisar o risco do mau gosto, mas sem o ultrapassar. Palavrões não, caralho.. Começava assim: .Tenho dois sonhos: um é instituir a paz no mundo, fazendo com que por meu intermédio os dirigentes de todos os países dêem as mãos e comecem a construir juntos um mundo melhor. O outro é dar uma foda relatada por Gabriel Alves. No primeiro não faço muita questão, mas este gostava mesmo de levar a cabo.. Estava dado o mote.
.O Meu Pipi. viria a afirmar-se com inúmeros textos (.não reproduzíveis.), tendo sempre presentes os ingredientes do sexo, humor, a par de uma vasta gama de palavrões (desde os mais .vulgares. até recuperações de .calão. há muito caído no esquecimento), sendo escrito num português de qualidade, inclusivamente com diversas referências literárias.
““Blogs”: o outro lado da Internet
A recente aquisição da Pyra Labs, a criadora do site www.blogger.com, por parte da empresa Google, sugere fortemente que o blog não é apenas um fenómeno passageiro. Alguns blogs pessoais têm mais visitantes por dia do que páginas de multinacionais. Começa-se a discutir as potencialidade do blog como concorrente da imprensa escrita, sendo que também possui uma das armas mais fortes da rádio, a imediatez.
Mas, afinal, o que é um blog? O blog . ou web log - é um diário publicado na Internet. É uma lista de entradas organizada por ordem cronológica, com a entrada mais recente geralmente no topo. Dizer que é um diário não implica necessariamente que contenha um relato da vida privada de quem o escreve. É um pouco mais como o diário de bordo do capitão de um navio, que descreve todos os dias as aventuras e desventuras da navegação.
O blog é o diário de bordo de quem navega na Internet. Foi assim que começou, pelo menos, há apenas meia dúzia de anos. Alguém encontrava um site obscuro sobre filosofia asiática, e anotava no blog as suas impressões. Talvez pudessem vir a ser úteis a alguém que por aí andasse à deriva. Outras pessoas contavam o que acontecia no seu bairro. Alguns destes textos continham informação que não tinha sido publicada em nenhum órgão de informação tradicional . talvez não tivessem passado o filtro do editor, ou talvez nenhum jornalista tivesse sequer sabido que aquilo aconteceu. Alguma dessa informação poderia ser suficientemente interessante para ser chamada de notícia. Qualquer pessoa pode ter um blog na Internet. Existem várias empresas a oferecer espaço para a página, de graça. E qualquer um pode escrever notícias no seu blog. Viremos a ter uma população inteira de jornalistas? Estaremos perante uma nova forma de jornalismo?
Notícias alternativas
Os blogs publicam notícias, e blogs de especialistas na área da informática, economia ou física nuclear começam a ser consultados com regularidade como fontes de informação alternativas aos media tradicionais. Através do blog, começou a ser possível saber o que não tinha sido noticiado nos jornais, ou sabê-lo antes do jornal sair, com um nível de profundidade impossível na rádio. Nos Estados Unidos, um sindicato decide organizar uma greve. Dez minutos depois de o comentário ser publicado no blog, às três da manhã em Londres, um grupo de discussão on-line que incluía intervenientes portugueses, americanos e franceses elaborava cenários de evolução da situação e planeava soluções. Duas horas depois, a greve é cancelada. Mais algumas horas passam antes de os jornais publicarem a notícia . algumas horas tarde de mais para quem quisesse mudar o curso dos acontecimentos. A televisão, só à noite, se nessa altura ainda houver algo que valha a pena ser contado.
Através do blog, vislumbramos uma revolução dos media. Um jornalismo descentralizado, flexível, imediato, isento de pressões políticas e económicas, uma voz para cada cidadão num espaço público global, em toda a plenitude democrática que só as novas tecnologias podem oferecer. Bom demais para ser verdade?
Richard Smith, investigador e especialista em Comunicação da universidade Simon Fraser, no Canadá, mostra-se optimista, mas com reservas: .Claro que nem tudo o que aparece nos blogs pode ser considerado jornalismo, a menos que adoptemos um conceito muito diluído do que é o jornalismo. Dito isto, creio que é válido afirmar que o conteúdo de alguns pode ser sem dúvida descrito como jornalismo. Alguns blogs são até escritos por jornalistas profissionais, embora uma certa percentagem use pseudónimos, por uma variedade de razões..
A questão é que nem tudo o que é notícia pode ser considerado jornalismo, e nem tudo o que um jornalista profissional escreve é jornalismo. Claro que o jornalismo tradicional tem limitações e problemas. Claro que o gate-keeping pode aproximar-se da censura, e que uma opinião de esquerda dificilmente será publicada num jornal de direita. No entanto, o facto de um jornalista profissional estar condicionado por regras deontológicas não deve ser considerado uma prisão, mas uma garantia de qualidade.
Poderemos desistir de todas as regras e ter ainda jornalismo? A liberdade de expressão é um dos pontos centrais da democracia, mas a liberdade completa de expressão individual levaria à anarquia, não à democracia. Escrever sob pseudónimo é uma garantia de liberdade total, mas poderá haver jornalismo sem que o escritor tome responsabilidade pelo que é dito? A existência de tribunais não garante que haja justiça, e sem dúvida que muitos culpados são absolvidos, e inocentes castigados em nome da lei . mas, ainda assim, geralmente considera-se que estes erros são um mal menor, porque a alternativa não é aceitável. A alternativa é confiar nos homens, em vez de confiar nas leis. Só a responsabilização, associada à possibilidade de punição legal, torna possível a democracia, e a liberdade do indivíduo num contexto social (a liberdade individual tem que estar limitada pelo respeito dos direitos dos outros).
Autoridade, conhecimento e responsabilidade
Oscar Wilde disse que não faz sentido termos uma arte cingida à obediência das regras da moral. Se o jornalismo fosse uma arte, faria sentido exigir uma liberdade absoluta para o jornalista a todo o custo. Mas a arte, se pode ser um componente do jornalismo, não será seguramente a sua essência. O jornalismo do blog é fundamentalmente um jornalismo de opinião. As opiniões podem ser jornalismo, mas apenas quando analisam factos de forma útil, ou os predizem com bases razoáveis de probabilidade. Uma liberdade total, uma total ausência de responsabilização, implica uma liberdade de ignorar os factos, e uma opinião expressa sem respeito pelos factos, ou até com respeito pelos factos mas sem a possibilidade de dar uma garantia desse respeito ao leitor, não é mais do que um rumor.
Quantos de nós é que têm o tempo e a vocação para investigar um rumor? Se um desconhecido me abordar na rua e me sugerir que tome um certo medicamento, porque isso melhoraria a minha saúde, ele não me está a fornecer qualquer informação, mesmo que isso seja verdade, enquanto não se identificar como médico. O argumento de autoridade funciona porque a autoridade está baseada não só num conhecimento de especialista mas também na responsabilidade. Acredito no médico não só porque ele sabe que medicamentos devem ser tomados, mas também porque o médico poderia sofrer consequências legais no caso de receitar um medicamento errado. Quando o autor de um blog escreve sob pseudónimo, perde a credibilidade ao prescindir da identidade.
O futuro do blog não é tão negro assim. O autor de um blog pode obter autoridade através da referência a fontes, que se forem links poderão ser verificadas imediatamente. Alguns destes links poderão ser fontes absolutamente fidedignas. Quem assina o blog pode usar a sua verdadeira identidade (embora isto só seja relevante se houver uma forma fácil de a comprovar).
Os blogs podem ser a única via para algumas verdades, se puderem evitar ser compilações de rumores. Embora eu prefira confiar em leis do que nos homens, um homem ou grupo de homens poderão provar que merecem essa confiança, mesmo sem leis que os limitem e controlem. Seja como for, o blog já encontrou a sua função, mesmo que se limitasse a ser uma fonte de rumores a usar por jornalistas, porque uma notícia começa com frequência num rumor.
Na opinião de Richard Smith, .alguns jornalistas irão procurar ideias nos blogs, e o estilo de escrita poderá influenciar o actual estilo jornalístico. Não creio que irão substituir os media tradicionais, mas creio que para alguns tipos de informação (e opinião), os leitores irão optar por um blog que conhecem e em que confiam. Tal como os vários media, ao surgirem, não substituíram os media anteriores, também os blogs irão ocupar o seu próprio espaço dentro do ambiente existente. Podemos ver a situação como uma ecologia mediática em que os blogs preenchem um nicho..
É fácil cedermos à tentação de classificar, mas é ainda demasiado cedo para decidirmos o futuro do blog. Poderá, um dia, ser regulamentado. Talvez deva sê-lo, mas só até certo ponto. Um blog sem regras não é jornalismo, e um blog com as mesmas regras do jornalismo seria a tecnologia sem a filosofia, não já um blog em toda a sua arrogância intelectual, e até artística. Algo se teria perdido. Acredito que não seja preciso ter uma liberdade completa do indivíduo para se poder ter arte e jornalismo em simultâneo - creio que a democracia basta.”
Revista “Meios”, Maio 2003
A 9 de Maio, o .Público. (no suplemento Y) faz nova referência aos .blogues. nacionais.
A propósito da .chegada. de Pacheco Pereira, a 10 de Maio é a vez do .Diário de Notícias. abordar o tema .blogues. (ver texto de Armando Rafael em “entrada estendida”), lançando pistas para a descoberta deste “admirável mundo novo”, com sugestões de “blogues” posicionados à direita e à esquerda, humorísticos ou “literários”…
Nesta altura, o Blogs em .pt regista já mais de 400 .blogues. portugueses, subindo para 500 a 20 de Maio.
A 17 de Maio, no .Expresso., Paulo Querido lança o tema da abertura do . até então . .mundo fechado da blogosfera. e a viragem dos .blogues. para o exterior, não só para o público da net, mas, de forma mais alargada, para o público em geral.
A 26 de Maio, no suplemento .Computadores. do “Público”, Pedro Fonseca faz o relato do que se passou no encontro .Blogtalk . European Conference on Weblogs., em Viena, a 23 e 24 de Maio.
Ainda em Maio, o .Diário Económico. publica também um interessante e pertinente artigo sobre weblogs, da autoria de Carlota Mascarenhas, referindo que: .A política é o tema mais discutido nos .weblogs., devido à liberdade de expressão.. Mas há também espaços de humor, por exemplo com o .Blogue dos Marretas., .onde se analisa a actualidade e o universo dos .blogs. com um tom irónico e divertido. (ver texto completo em “entrada estendida”).
“José Pacheco Pereira em versão «blogger»
O eurodeputado social-democrata José Pacheco Pereira é a mais recente estrela do universo dos bloggers portugueses, tendo aberto esta semana o seu diário ao público [www.abrupto.blogspot.com]. A partir de agora, quem quiser saber o que ele pensa ou partilhar dos seus desabafos, bastar dirigir-se àquele endereço, e entrar. Ali ficará a saber que o autor da biografia de Álvaro Cunhal adora a BBC Learning, e terá oportunidade de lhe mandar uma mensagem. Se não gostar de Pacheco Pereira ou das suas divagações, tem muito por onde escolher. Basta dirigir-se a um dos muitos portais já existentes -marretas.blogspot.com (animado por três professores da Universidade da Beira Interior, na Covilhã), blogo.no.sapo.pt ou cruzescanhoto.blogspot.com, entre outros.
Se optar por um diário de alguém mais conotado com a esquerda pode escolher entre blog-de-esquerda.blogspot.com (do jornalista José Mário Silva) e o www.paisrelativo.blogspot.com (de jovens socialistas como Pedro Adão e Silva e Mark Kirkby). Se quiser opiniões ou desabafos de direita, também há. Em maior número até. Desde a www.colunainfame.blogspot.com (dos jornalistas Pedro Mexia e João Pereira Coutinho) à www.valetefrates.blogspot .com, passando pelo www.fumacas.blogspot.com.
Em alternativa, neste mundo que se aproxima muito daquilo que em tempos foram os jornais de parede, e que se situa a meio caminho entre um chat e a interactividade que é proporcionada por um site, ainda pode ter outras opções de escolha.
Se gosta do estilo e do humor das produções fictícias, tem o www.gatofedorento.blogspot.com, um diário animado por Ricardo Araújo Pereira, José Diogo Quintela, Tiago Dores e Miguel Góis. Se prefere algo mais literário, então o melhor é dirigir-se à janela-indiscreta.blogspot.com ou, então, ao prazer-inculto.blogspot.com (do escritor Possidónio Cachapa). Caso tenha saudades dos textos e do estilo de Miguel Esteves Cardoso, tem como opção aquilo a que se chama os filhos do MEC, entre os quais contra-a-corrente.blogspot.com.
Depois tudo depende da sua vontade. Ou lê e desliga ou participa e deixa a sua opinião, agora que a intervenção no Iraque já não motiva tantas clivagens entre bloggers, como ainda há pouco era visível, num mundo de páginas, desabafos e opiniões que parece ter explodido em Portugal nos últimos seis meses. Foi um blogger que me garantiu.”
Armando Rafael
Diário de Notícias - 10 de Maio de 2003
“Internet - Portugal adere em força aos ‘weblogs’
A política é o tema mais discutido nos ‘weblogs’, devido à liberdade de
expressão.
Portugal está cada vez mais presente na blogosfera, contando já com mais 400 ‘weblogs’ nacionais sobre os mais variados assuntos, desde política, à cultura, passando pelo humor. O fenómeno nasceu no dia 1 de Abril de 1997 -data considerada como a primeira entrada num ‘weblog’ a nível internacional - pelas mãos de Dave Winer que criou o «Scriptting News Archive».
Chama-se ‘blog’, abreviatura de ‘weblog’, a qualquer registro frequente de informações na internet. Um dos factores atractivos nos ‘blogs’ é o facto de permitir aos utilizadores publicar conteúdos sem ter que dominar a construção de páginas na Internet, sem conhecimento técnico especializado.
Foram também surgindo alguns ‘blogs’, como o «Blogs em .pt» e o «blogo.no.sapo», que funcionam exclusivamente como apontadores, detectando o aparecimento de novos ‘weblogs’ portugueses.
No «blogo.no.sapo», existe mesmo um sistema de categorização e apreciação da blogosfera nacional. Segundo o apontador, na categoria de Actualidade, o ingrediente principal é a actualidade nacional ou internacional, debatida num registo opinativo, abarcando temas como a política, economia, desporto, justiça, religião ou os media. Aqui destacam-se ‘blogs’ como o «Ponto Média», do jornalista António Granado, o «Abrupto» de José Pacheco Pereira, o «Coluna Infame», que nasceu pelas mãos de Pedro Mexia ou o «De Esquerda», mantido por Pedro Crespo.
Boa disposição e provocação são as palavras de ordem nos ‘blogs’ que constam da categoria Humor, onde se discute política, cultura ou actualidade, sempre de forma mais «incisiva», como refere o «blogo.no.sapo». ‘Blogs’ como o «Blogue dos Marretas» ou o «Gato fedorento», tratam a informação com bom humor, uma pitada de ironia e um toque de sarcasmo. No caso das Artes e Letras, «Bisturi», «Freira Dadaísta», «Real Absoluto» ou «Prazer Inculto» são alguns dos ‘weblogs’ cujo o espaço é dedicado à reflexão sobre a cultura, desde a construção das letras à divulgação das artes.
Os «nossos» ‘blogs’
Foi graças a um texto publicado na Internet, enumerando instruções para criar um ‘blog’, que Pedro Mexia criou a «Coluna Infame», que surge em Outubro de 2002, altura em que existiam cerca de 200 ‘weblogs’ em Portugal, mas nenhum de cariz político. «Achava piada fazê-lo e depois do 11 de Setembro achei que o momento de repolitização era oportuno», frisa Pedro Mexia. Sublinhando que em Portugal os jornais evitam o jogo da independência, não tendo, portanto, posição editorial, o fundador da «Coluna Infame» acredita que, nos ‘blogs’ essa tendência é assumida. «É a simplicidade e a liberdade de expressão», frisa Pedro Mexia. Salientando que os ‘blogs’ nacionais foram alvo de uma subida de atenção com o surgimento do Abrupto, de Pacheco pereira, Pedro Mexia refere que há a tendência perigosa de presumir que as coisas feitas e ditas por figuras públicas são melhores. «Os melhores textos que leio nos ‘blogs são, sem dúvida, de ilustres desconhecidos».
O «De Esquerda», mantido por Pedro Crespo, inclui-se também nos ‘blogs’ políticos. Caracterizando os ‘weblogs’ como um espaço de intervenção digital, grátis e de fácil utilização, o autor do «De Esquerda» acredita que a língua portuguesa tem uma presença forte no mundo dos ‘blogs’, apesar da blosfera lusa ser ainda pequena. «Grande parte dos ‘blogs’ são para consumo interno, para distribuir pelos amigos (.), mas os outros são, a meu ver, os mais interessantes, com espaços de discussão e reflexão sobre temas genéricos e actuais», frisa.
Pedro Crespo refere que há hoje uma comunidade de ‘blogs’, donde se criam oposições de estimação, como Direita vs Esquerda. «Acabamos por repartir entre nós os leitores». Frisando que os ‘blogs’ não ameaçam a imprensa escrita nem a rádio ou televisão, Pedro Crespo resume os ‘blogs’ a uma camaradagem saudável em que todos se tratam por tu, mesmo quando não se concorda. «No De Esquerda posso discordar das medidas que o governo de direita implementa e sugerir propostas, recomendar último livro do Ohran Pamuk ou um restaurante na zona ribeirinha do Porto».
«O Quinto dos Impérios» é um dos ‘blogs’ recém-nascidos na blogosfera nacional pelas mãos de cinco amigos com vontade de discutir política e falar de coisas que o jornalismo tradicional não aborda normalmente. Diogo Belford Henriques, Fernando Albino, Francisco Mendes da Silva, João Vacas e Martim Borges de Freitas criaram um novo ‘blog’, também de cariz político. «O Quinto dos Impérios» surgiu para fazer política, discutir a actualidade e para nos mantermos mais ou menos juntos e atentos à realidade nacional, visto que agora vivemos em três países diferentes», acrescenta João Vacas. Sublinhando que os ‘blogs’ são «uma ameaça interessante ao conceito tradicional de jornalismo e um desafio para quem tem que idealizar e dirigir publicações e programações atractivas», os autores acreditam que a blogosfera permite um acesso «mais directo e menos filtrado por linhas editoriais, ao pensamento e opinião de muitas pessoas de valor».
Passando ao humor, o «Blogue dos Marretas», mantido inicialmente por Statler (Nuno Amaral Jerónimo) e Waldorf (João Canavilhas), conta agora com Animal (Jorge Bacelar), todos docentes na Universidade da Beira Interior (Covilhã). «Tudo começou porque já usávamos blogues como ferramenta de apoio às aulas e também como campo de investigação», frisa João Canavilhas. A ideia evoluiu e surgiu um ‘blog’ onde se analisa a actualidade e o universo dos ‘blogs’ com um tom irónico e divertido.
Os «Marretas» acreditam que a massificação da Internet foi um fulcral para a libertação da opinião, sublinhando que, nesse aspecto, os ‘blogs’ são a simplificação do processo técnico, democratizando ainda mais o sistema. «Pensamos que os blogues terão um impacto muito positivo em vários campos profissionais e permitirão o aparecimento de novos valores no campo da cultura», frisa «Walldorf».
Os media em ‘blog’
António Granado criou o «Ponto Média» a 2 de Janeiro de 2001. «Há já alguns meses que seguia o Media News, do Jim Romenesko, e achei que seria interessante fazer um ‘weblog’ sobre jornalismo em português», refere o jornalista, salientando que 2003 será certamente o ano dos ‘weblogs’ em Portugal. Actualizado uma vez por dia, o Ponto Média oferece um ‘clipping’ diário dos media nacionais e internacionais.
Apesar de ser difícil prever o futuro dos ‘blogs’ em Portugal, o jornalista acredita que estamos apenas a assistir ao início do fenómeno. »os media portugueses só agora acordaram para o fenómeno. Isto tem feito com que, cada vez que um artigo sobre ‘weblogs’ sai nos jornais, sejam criados mais umas dezenas», salienta António Granado. «Os ‘weblogs’ pessoais continuarão a ser criados com bastante frequência e veremos surgir ‘photoblogs’ (’weblogs’ baseados em fotografias) como cogumelos, actualizados a partir dos telemóveis com câmara fotográfica. Nessa altura perceberemos o quanto a nossa privacidade está ameaçada’, frisa.
A educação é outra das áreas que, segundo António Granado, começará a usufruir das vantagens dos ‘blogs’. ‘Com tantos artigos sobre ‘weblogs’, os educadores perceberão o quanto estes podem ser úteis na sua profissão. A experiência pioneira dos cursos de Comunicação da Universidade do Minho e da Universidade do Porto serão seguidas por muitos outros cursos e até por outros graus de ensino’.”
Carlota Mascarenhas
Diário Económico
Em 2 de Junho, Pedro Fonseca apresenta, também no suplemento .Computadores. do .Público., novo artigo sobre a conferência Blogtalk, realizada em Viena: .Maioria dos ‘bloggers’ ainda são info-ricos..
Surge no Abrupto, a 3 de Junho, o que terá sido o primeiro poema em Portugal a usar a palavra .blogue., um soneto de Vasco Graça Moura (.recusando. a solicitação para que abrisse também um .blogue.):
.Não há nada no mundo que me pague
para aqui estar. não há nada que jogue
e nada que responda ou faça blague
por eu, panteramente, estar no blog.
não há verso do rilke que me afague,
por mais que o vgm aqui dialogue
com o jpp, quer me embriague,
quer passe fome, ou me espreguice e drogue.
sou a pantera fora da internet.
passo lá por acaso. depois saio
e volto às grades onde alguém me mete.
e rujo e rosno e mordo e não me ensaio
nada nas piruetas da disquette
de apagá-la depois. só me distraio..
Haviam então começado (já desde 9 de Abril) os eventos do “É a cultura, estúpido!” (.happening. cultural organizado pelas .Produções Fictícias.); na terceira sessão, a 4 de Junho, sendo o tema .Livros de Verão., reuniram-se alguns .bloguistas. (nomeadamente os .polemistas. Pedro Mexia e José Mário Silva), debatendo também a situação da blogosfera, com moderação de Anabela Mota Ribeiro, fechando com o stand-up de Ricardo de Araújo Pereira. José Mário Silva fez uma analogia entre a blogosfera e os cafés de antigamente; foi também realçada a qualidade da escrita nos .blogues..
No início de Junho, o Blog de Esquerda (por intermédio do .convidado. Daniel Oliveira) e A Coluna Infame (na pessoa de João Pereira Coutinho) .desentendem-se., na sequência de uma .provocação”/referência de ligação à .extrema-direita. (.entrada. de dia 5 no Blog de Esquerda), a que J. P. Coutinho respondeu em A Coluna Infame a 6 de Junho, resposta não subscrita pelos outros membros do .blogue. (ainda com .contra-resposta. de Daniel Oliveira, no mesmo dia).
Após a cisão, com a saída, no dia 7, de João Pereira Coutinho, o episódio acabaria por culminar, a 10 de Junho, na suspensão da Coluna Infame:
.A Coluna Infame termina aqui a sua jornada. Começámos em Outubro de 2002, fascinados pelo fenómeno blogger, e convencidos de que era útil travar deste modo novo o combate cultural contra a hegemonia intelectual da esquerda. Desde essa data, o número de blogs mais que duplicou, e muitos deles defendem os mesmos valores que nós. Facto inédito, a «não-esquerda» domina mesmo a blogosfera portuguesa. Paralelamente, cresceu o interesse dos media por este fenómeno. Para além de uma pequena legião de talentos anónimos, cultos e inteligentes, os blogs começaram também a atrair figuras públicas. A blogosfera (política em particular) passou a ser um assunto de conversa..
.
.Por aqui passaram também as artes e as letras, as observações quotidianas, os fascínios e embirrações. E, claro, uma boa dose de polémica. Esta última foi, porém, longe demais, e não nos eximimos das nossas culpas nessa matéria. Depois dos acontecimentos recentes que levaram à cisão conhecida, entenderam os dois outros autores ser inviável prosseguir, tendo em conta os conflitos gerados, a acrimónia, e o próprio feedback negativo que recebemos. Obrigado a todos os que fizeram, de um modo ou de outro, esta Coluna, incluindo os nossos adversários (mas não inimigos)..
A 12 de Junho, começa o .Desejo Casar., .blogue. colectivo formado por um alargado grupo que inclui jornalistas, arquitectos, designers, juristas, argumentistas, filósofos.
No dia seguinte, o editorial de José Manuel Fernandes no .Público. fala sobre O Fim da “Coluna” (ver texto completo em .entrada estendida.): “A .Coluna Infame. acabou. A blogosfera está mais pobre. E o país também - mesmo que a maioria nunca tenha ouvido falar nem da .Coluna., nem da blogosfera.” E também: .A blogosfera é mais democrática, mais aberta, mais plural, mais interessante e mais rica do que os espaços de debate da maioria dos meios de comunicação tradicionais, mesmo os famosos fóruns de discussão radiofónicos (para não falar dos talk-shows televisivos). Na blogosfera reage-se à actualidade em cima da actualidade, e o comentário (ou “post”) colocado num blog gera quase de imediato uma cascata de reacções..
O texto de abertura da secção .Media. do .Público., de 14 de Junho, lança o tema: “Warblogs” Interpelam “Medias” Convencionais, a propósito do papel que os .blogues. começavam a assumir na discussão pública da guerra do Iraque: .Nos Estados Unidos, muitos internautas manifestaram “reservas sobre a capacidade crítica dos correspondentes do seu país e procuraram fontes internacionais de notícias mais equilibradas, ao mesmo tempo que crescia a importância de fontes não convencionais, muito particularmente dos (war)blogs”, afirma José Luis Orihuela, professor de Comunicação na Universidade de Navarra..
Entretanto, em crónica no DNA, Miguel Esteves Cardoso (que mantém o sítio denominado .Pastilhas.) escrevera: .Blogar é escrever num meio terrivelmente aberto . interactivo, instantâneo, espúrio - a partir de um momento terrivelmente particular - o eu, o ser, a alma., e, mais adiante, .A força do blogue está no facto de não haver mediações; do salto ser puro; da combustão ser total., finalizando assim: .Não espanta por isso que seja nos blogues que hoje se vê a nossa língua a saltar e a correr, a fazer das suas e das dela e das tuas e das minhas, envergonhando a prosa paralisada que hoje passa por escrita - e por português - nos nossos jornais. É belo. Belo de ver e belo de ler e belo para escrever..
A 16 de Junho, Francisco José Viegas anuncia o início da vida do Aviz para o dia seguinte, dando mais um impulso decisivo para a expansão e afirmação da blogosfera.
“O Fim da “Coluna”
A “Coluna Infame” acabou. A blogosfera está mais pobre. E o país também - mesmo que a maioria nunca tenha ouvido falar nem da “Coluna”, nem da blogosfera.
Na vertigem delirante das notícias dos últimos dias - Boaventura Sousa Santos a anunciar que vivemos em “fascismo social”, Fátima Felgueiras a dizer-se a primeira presa política pós-25 de Abril, responsáveis políticos a sacudirem a água do capote de uma amnistia mal engendrada em 1999 - o fim da “Coluna Infame” parece um acontecimento menor. Mas não é.
Para os que não conhecem, a blogosfera é um dos mais recentes e interessantes fóruns de debate democrático. Preenchem-na páginas pessoais ou colectivas, criadas na Internet, onde se trocam ideias, informações e sugestões à velocidade própria da net, isto é, em tempo real (para os interessados, ver http://blogo.no.sapo.pt ). Na blogosfera portuguesa a “Coluna Infame” era uma referência fundadora, quer por ser um dos primeiros espaços de debate político desse universo virtual, quer por ser animada por intelectuais de direita. Estas duas qualidades são importantes.
Na verdade, a blogosfera é a mais vibrante das expressões modernas da ágora ateniense, esse espaço público onde os cidadãos se encontravam para discutir os assuntos que a todos diziam respeito. A blogosfera é mais democrática, mais aberta, mais plural, mais interessante e mais rica do que os espaços de debate da maioria dos meios de comunicação tradicionais, mesmo os famosos fóruns de discussão radiofónicos (para não falar dos talk-shows televisivos). Na blogosfera reage-se à actualidade em cima da actualidade, e o comentário (ou “post”) colocado num blog gera quase de imediato uma cascata de reacções. No tempo da blogosfera é, por exemplo, possível denunciar uma mistificação feita em torno de declarações de Wolfowitz de forma tão rápida que a notícia errada não dura senão umas horas no site do jornal inglês “The Guardian”.
No caso português e da “Coluna Infame”, a sua colocação à direita corresponde à emergência de jovens intelectuais educados nos valores do liberalismo e que representam uma geração que pouco tem a ver com as referências clássicas dominantes, por exemplo, entre os jornalistas e a maioria dos intelectuais consagrados. Contra ela surgiram espaços como o “Blog de Esquerda”, sendo que o equilíbrio esquerda-direita neste universo é mais dinâmico e mais real do que na generalidade dos media tradicionais.
A forma como a “Coluna Infame” desaparece também é sintomática: morre porque os seus três animadores se desentenderam quando um deles ultrapassou os limites do cavalheirismo numa resposta a uma provocação do “Blog de Esquerda”. Reparem: cavalheirismo. A blogosfera exige abertura de espírito e poder de encaixe, suporta o desabafo mas privilegia o argumento. E permite que adversários políticos se afirmem amigos e se respeitem. Não era pois por acaso que, ontem, na blogosfera se lamentasse a perda de qualidade dos debates e até das mensagens enviadas para os blogs.
Ficamos por isso à espera de novidades do Pedro Mexia, do Pedro Lomba e do João Pereira Coutinho, os animadores da “Coluna”.”
José Manuel Fernandes
“Público”, 13 de Junho 2003
A 18 de Junho, os .blogues. chegavam à rádio, pela mão de Francisco José Viegas, na Antena 1, no programa .Escrita em Dia., num debate com a participação de José Mário Silva (do Blog de Esquerda), Nuno Costa Santos (do Desejo Casar), Pedro Lomba (ex-A Coluna Infame) e Pedro Mexia (Dicionário do Diabo).
Nuno Costa Santos começou por afirmar ser um .novo-rico da blogosfera., dada a recente chegada, enquanto Pedro Lomba divulgou o seu novo “blogue” e Pedro Mexia anunciou o Dicionário do Diabo, com maior abrangência para além do campo político.
Francisco José Viegas lançou a questão colocada pelo Abrupto sobre o “umbiguismo na blogosfera”, tendo José Mário Silva defendido que os .blogues são um media alternativo, são diários…. e que se trata de .blogues de personalidades..
Pedro Lomba relativizou a importância do fenómeno: .A Coluna tinha 500 ou 700 leitores diários, não é importante….. Não obstante, afirmou que podem ser .um incentivo para os jornais melhorarem..
Sobre o seu papel pioneiro nos .blogues., José Mário Silva referiu o .desprezo inicial do jornalismo clássico. perante o fenómeno, situação invertida com a chegada de muitos jornalistas, assim como a de Pacheco Pereira.
Pedro Mexia recordou o contexto do aparecimento dos .blogues políticos em Portugal, na altura da guerra do Iraque., reflectindo posições políticas de direita ou de esquerda, num .momento muito politizado..
José Mário Silva concluiu sublinhando ainda a “surpreendente qualidade de alguns textos editados nos .blogues.“.
Também no dia 18, Pedro Mexia é o primeiro dos membros de “A Coluna Infame” a retomar um .blogue. (uma semana depois do encerramento do anterior), o .Dicionário do Diabo.: .Aqui se escreverá sobre política, artes e letras, comportamentos. Haverá diálogos com os leitores. Umas quantas polémicas serão inevitáveis. E não recuso uma boa dose de pura escrita diarística, cujo conceito também se discutirá nesta página..
Seguiu-se-lhe de imediato Pedro Lomba, a 20 de Junho, com o Flor de Obsessão.
No mesmo dia, nasceu também o Socio[B]logue, de João L. Nogueira . .Diário de campo: observações, reflexões e interrogações sociológicas., introduzindo o estudo sociológico na blogosfera, uma visita obrigatória para uma melhor compreensão do .fenómeno..
Em 19 de Junho, Pacheco Pereira volta a tratar o tema .blogues. na sua coluna no .Público.:
.Seja como for, a comunicação na esfera pública ganhou com os blogues. Ainda não tem uma massa crítica estável, mas já tem uma massa crítica instável. É um mundo efervescente, com nascimentos e mortes todos os dias, com um mercado rude de influência e opinião, de relações de poder e guerras intestinas, digno da .mão invisível. de Adam Smith ou de Florença e Veneza dos bons tempos dos Medici e dos Pazzi. Às vezes espreme-se tudo num dia e fica pouca coisa, mas o que fica é bom e fica sempre alguma coisa. O mesmo se passa com o resto da comunicação social - também, quando se espreme, às vezes não fica quase nada. Por isso, os blogues somam..
“Espelho Meu, Espelho Meu
Eu sou suspeito porque também tenho um, mas a explosão dos blogues é um acontecimento importante na esfera pública portuguesa. É mais tarde do que noutros países, mas também não é assim tão tarde - a realidade dos blogues como forma alternativa de comunicação tornou-se conhecida para a opinião pública em geral durante a guerra do Iraque.
Um blogue é uma página pessoal na rede que se desdobra como um pergaminho antigo, organizada de modo cronológico da actualidade para trás.
O seu autor (ou autores porque há blogues colectivos) escreve ou coloca fotos, ou músicas, ou qualquer outro produto digitalizado, em entradas diárias que se vão sucedendo de cimo da página para baixo, mergulhando na invisibilidade as entradas mais antigas, ao sabor do cursor. As entradas ainda mais antigas acabam num arquivo, ou seja, fora da página activa. O “software” para fazer estas páginas, e o local para as instalar, é fornecido gratuitamente na sua versão mais simples por várias empresas, e não exige qualquer conhecimento especializado de informática. Quem tiver um computador ligado à rede e um processador de texto pode fazer um blogue em meia hora, sem gastar nada.
Os actuais autores de blogues não sabem a felicidade que têm de ter esse instrumento, porque eles são a realização de um sonho que parecia inatingível para gerações de estudantes com pretensões intelectuais do liceu e da universidade: ter uma revista literária, um jornal onde se pudesse escrever o que se quisesse. Gerações de jovens “litterati” tiveram essa vontade, alguns realizaram-na com enorme esforço. Era muito caro, os procedimentos para publicar burocráticos e onerosos, as tipografias a chumbo obrigavam a morosas revisões, primeiras provas, segundas provas, linóleos, gravuras, etc., etc. E, num país como Portugal, antes do 25 de Abril, era muitas vezes impossível devido à censura. Eu tive essa experiência e sei como é.
Depois e, num breve instante, deu-se uma revolução. As máquinas de escrever deram lugar aos computadores - imaginem o que era rever um texto e passá-lo “a limpo” -, os processadores de texto evoluíram para o “desktop publishing”. A rede realizou outro sonho também inimaginável - o da Enciclopédia Universal em hipertexto, ter o catálogo da biblioteca em linha e ter muitos dos livros em linha, ter o saber todo em linha - e, a crescente passagem do analógico ao digital, unificou num único fio electrónico texto, imagens, música. Depois, “publicar na rede” tem a mais absoluta das audiências potenciais, o mundo todo, e acabou com o problema das tiragens.
Os blogues são um passo neste processo, depois dos “newsgroups”, dos “chats”, dos boletins em linha e dos diários em linha. A fórmula do blogue, o seu arranjo cronológico, favorece determinado tipo de escrita intimista, mas as suas potencialidades permitem ir mais longe. Há hoje na blogosfera portuguesa de tudo: diários íntimos, diários falsos, diários exibicionistas, blogues obscenos, blogues satíricos, blogues de impressões quotidianas, blogues de futebol, blogues regionais, blogues científicos, blogues de bibliófilos, blogues escritos para serem lidos pelo namorado(a), blogues literários, blogues sobre poesia clássica, blogues sobre o latim, blogues de investigação para doutoramentos, blogues jornalísticos, blogues de estudantes que têm o exame amanhã, blogues de música, arquitectura, direito, economia, psiquiatria, há blogues do partido do dr. Monteiro, do Bloco de Esquerda, das juventudes do PS, monárquicos, reaccionários e esquerdistas, blogues dos amigos de Hayek, dos amigos de Keynes, dos amigos da boa vida sob o signo de Epicuro, etc., etc. Não citarei nenhum em particular, se forem ao Blogues em PT (http://blogsempt.blogspot.com/ ) terão a lista em bruto e no Blogo (http://blogo.no.sapo.pt/ ) uma lista já tratada por categorias.
A blogosfera, um neologismo aceitável porque transmite a ideia “atmosférica” e comunitária que os blogues ainda são, reflecte as correntes do resto do espaço público mais do que muitos dos autores de blogues pensam. Para além do carácter estético e literário de muitos textos, da utilidade dos blogues para o trabalho científico, do seu papel como “media” alternativos, eles aumentam a informação, e não são uma mera continuidade do “mundo exterior”, acrescentando dimensões novas.
Na blogosfera há muitos relatos de eventos que nunca chegam aos jornais ou que, quando chegam, são aqui vistos com outros pontos de vista alternativos. Nos últimos dias, pude acompanhar vários eventos, desde colóquios na Feira do Livro, a um concerto de Baremboim no Carnagie Hall, pelo olhar dos blogues. É o relato muitas vezes pessoalíssimo, subjectivo, interessado, demasiado próximo? É, mas e o dos jornalistas acaso é diferente? É verdade que é um mundo muito juvenil, demasiado lisboeta e às vezes “intelectualizado” no mau sentido, com má-língua de café, mas qual é o problema? Com isso pode-se bem, relativiza-se.
Há também possibilidades novas como a de um discurso crítico sobre a própria comunicação social que não tem qualquer paralelo nos órgãos de comunicação tradicionais. Não é apenas a televisão que é criticada, ou a rádio, mas a imprensa escrita. No último mês, encontra-se na blogosfera abundante material sobre a denúncia de várias operações de desinformação com base em declarações de Wolfowitz, ou na história dos roubos do Museu de Bagdad, ou no número de vítimas da guerra. A imprensa, rádio e televisão que participaram nessas desinformações, ou seja, fizeram mau jornalismo quando não “jornalismo” politizado, continuam impávidas e serenas a repetir as mesmas coisas. Só que já não podem alegar que não sabiam e manter a impunidade.
A imediaticidade do meio também permite uma crítica ou uma reflexão sobre os eventos muito rápida. No caso da conferência de imprensa e da entrevista à RTP de Fátima Felgueiras, vários blogues levantaram no mesmo dia todas as objecções que, uma semana depois, emergiram na comunicação tradicional como se fossem grandes novidades. É verdade que esta imediaticidade também se presta à asneira, mas aí os blogues em nada se distinguem da comunicação social tradicional. Mais: são melhores, porque como são muitos e diferenciados os pontos de vista, a correcção das asneiras é mais rápida.
Como em todos os momentos da história das tecnologias e como aconteceu desde o primeiro minuto com a Internet, florescem as utopias sobre os blogues. O tempo encarregar-se-á de lhes dar um papel e de mostrar o que mudaram e aquilo em que são uma continuidade ou um prolongamento dos “media” tradicionais. Há e haverá problemas éticos suscitados pela margem ténue entre a privacidade e a intimidade, tão propícia a ser ultrapassada pelo carácter intimista da escrita nos blogues, contrastando com a sua total exposição pública. Estes problemas não são distintos de outros já conhecidos pelo carácter de “aldeia global” da rede.
Seja como for, a comunicação na esfera pública ganhou com os blogues. Ainda não tem uma massa crítica estável, mas já tem uma massa crítica instável. É um mundo efervescente, com nascimentos e mortes todos os dias, com um mercado rude de influência e opinião, de relações de poder e guerras intestinas, digno da “mão invisível” de Adam Smith ou de Florença e Veneza dos bons tempos dos Medici e dos Pazzi. Às vezes espreme-se tudo num dia e fica pouca coisa, mas o que fica é bom e fica sempre alguma coisa. O mesmo se passa com o resto da comunicação social - também, quando se espreme, às vezes não fica quase nada. Por isso, os blogues somam.”
José Pacheco Pereira
“Público”, 19 de Junho 2003
A 21 de Junho, na Revista .Única., do .Expresso., faz-se também referência à dicotomia .direita-esquerda., então bastante patente na .muito politizada «blogosfera» nacional., com alusão ao fim de .A Coluna Infame..
No mesmo dia, um artigo de Pedro Rolo Duarte no “DNA” (suplemento do “Diário de Notícias”) questiona a .promiscuidade. entre jornalistas e .bloguistas., referindo nomeadamente:
.Os .blogues., tal como existem, montados e alimentados por gente que tem acesso aos jornais e à opinião pública . Pedro Mexia, João Pereira Coutinho, Pacheco Pereira, José Mário Silva, entre outros -, constituem para mim uma espécie de .Portugal Fashion. da opinião: eles exibem naquela passerelle electrónica o que não têm lata, ou coragem, ou vontade de .vender. nos jornais onde podem e devem publicar o que pensam . como os estilistas mostram na passerelle o que nunca irão vender.
Trata-se, portanto, de um exercício de vaidade pura, de presunção sem pai nem mãe.
.
.Acho que uma das maiores virtudes da imprensa é o facto de ser finita no espaço e no tempo. Isto obriga a quem escreve, quem edita, quem publica, a escolher - e é na escolha, é nesse acto individual, perigosamente ditatorial, da escolha, da opção, que está a .flor do sal. desta profissão, desta paixão. Nesta medida, quando os profissionais do jornalismo se envolvem em .blogues., estão a negar a essência do seu trabalho e a viciar o jogo da liberdade. Se houvesse leis sobre a matéria e eu pudesse legislar, os .blogues. existiam. Mas tinham esta reserva legal: só a eles deveriam ter acesso os que, pelas mais diversas razões, não têm espaço próprio nos meios de comunicação. Ponto final.
.
.Blogues., dizem vocês? Claro que sim. Mas para os que não têm outra forma de manifestar a sua opinião. Para os que têm, como estes de que falo, desculpem lá, mas cheira-me a esturro: presunção, vaidade, ou apenas uma forma de poupar no psicanalista..
A blogosfera portuguesa “fervilhava”: o .Destaque. do .Público. de 23 de Junho apresentava alguns dos principais .blogues. (ver textos . numerados de 1 a 10 . em .entrada estendida. . via Blog Clipping).
A 24 de Junho, depois de Francisco Amaral (ÿntima Fracção), também Carlos Vaz Marques, jornalista da TSF, lançava o seu .blogue., .Outro, eu..
No dia 26, a revista .Visão. publica também um artigo (de Gabriela Lourenço e Mário Rui Cardoso) que contribui activamente para a .explosão. da blogosfera nacional (ver amanhã o texto completo, também em .entrada estendida.):
.Bem-vindo à blogosfera.: .Um espaço de liberdade total ou um exercício de narcisismo? Com sarcasmo, humor ou seriedade, os pensamentos de centenas de portugueses revelam-se na Internet. Uns mais mediáticos do que outros . todos os autores têm algo a dizer. Está na hora de actualizar os dicionários: a palavra blogue entrou no léxico nacional..
Referia-se ainda a tónica da dicotomia política (.Esquerda./.Direita.) que marcou a fase inicial da blogosfera, assinalando-se também a vertente humorística, com destaque particular para o .Blogue dos Marretas..
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.A Nova Ágora da Democracia, Ou Quando a Política Chega À blogosfera
No Brasil, a blogosfera conta com mais de três mil blogues. Em Portugal, existem perto de mil. Mas a erupção do fenómeno, nascido no ano passado, parece estar agora a revelar-se e ilustra-se com a apresentação diária de dezenas de blogues. Basta observar a lista disponível em blogsempt.blogspot.com, à qual já aderiram, entre outros, Francisco José Viegas (aviz.blogspot.com), Jorge Ferreira (22blog.com/jf2003/), Miguel Vale de Almeida (valedealmeida.blogspot.com) e Nelson de Matos (textosdecontracapa.blogspot.com). Para meados de Julho, e depois de José Pacheco Pereira (ver caixa), é a vez do deputado socialista José Magalhães entrar na blogosfera com um prolongamento do seu Ciberscópio, publicado no jornal “A Capital”.
Muitos dos blogues nacionais são meramente acessórios, adoptando registos diarísticos, que, aparentemente, só interessam a quem os produz. Outros, são tidos como uma espécie de serviço público: a eles afluem um elevado e diversificado número de leitores; neles se podem ler comentários, opiniões e textos de divulgação que abrangem desde a política à literatura, passando pela educação e ideias, até às artes e ao humor. Neste contexto, existem blogues temáticos, que cingem os seus escritos, por exemplo, ao jornalismo, e blogues que mesclam propostas. Entre estes últimos, encontram-se algumas das páginas mais interessantes da blogosfera. E é significativo que sejam vincadamente politizados.
No rol de blogues políticos - e aqui não se incluem aqueles que pecam pelo puro “exibicionismo político”, como foi aludido no Desejo Casar - a fronteira faz-se entre a direita conservadora e a esquerda distante do centro. Que edificaram um muro ideológico naquela que foi a fase mais politizada na blogosfera: durante a guerra no Iraque. Assunto que, além de ter incrementado uma clara clivagem de posições, desencadeou a discussão de muitos outros temas e acontecimentos políticos.
Em termos exclusivamente quantitativos, é longa a distância que separa a direita e a esquerda: os esquerdistas estão representados num reduzido número de blogues, enquanto a galáxia da direita não pára de aumentar, sendo até mais organizada (veja-se a criação da União dos Blogues Livres - organização interblogacional contra o perigo totalitário marxista na blogosfera, que congrega dezenas de blogues).
“A vida política é uma chatice”
A disparidade política, contudo, pode também ser desvalorizada e entendida como mais um elemento de uma “realidade mais complexa”. Pelo menos, é esta a posição de Pacheco Pereira (abrupto.blogspot.com), que, nas suas reflexões sobre blogues, escreveu o seguinte: “O que se passa em alguns blogues políticos é que existe uma forte tendência auto-proclamatória, de auto-classificação, que acompanha quase sempre uma maior pobreza analítica, a dificuldade de pensar a política como uma actividade complexa, que, em territórios como estes, só sobrevive se for associada a uma mais vasta perspectiva cultural e social. Quem chega assim tem a tentação de plantar a bandeira logo, marcar o território e escolher lado. Depois faz sempre batalhas de posição, e essas batalhas não nos ensinam nada”.
A resposta a esta e a outras considerações de Pacheco Pereira veio de O País Relativo (paisrelativo.blogspot.com) - “as juventudes do PS”, como o eurodeputado do PSD insinua na sua última crónica no PÚBLICO -, assinada por Rui Branco e Pedro Machado: “O melhor dos leitores de Bourdieu, Pacheco Pereira marca a agenda do que há e não há para discutir, (só) propõe temas de relevo e reserva para si certos tópicos apetecíveis. Esta tentativa para impor como legítima uma certa (a sua) visão das divisões e para apresentar como natural aquilo que resulta de uma (a sua) construção revela uma pulsão totalitária iniludível. O Abrupto quer transformar-se na rotunda dos Produtos Estrela da blogosfera e Pacheco no seu polícia sinaleiro”.
Independentemente das divergências, os blogues políticos continuam a enfileirar-se na dianteira dos blogues mais visitados. Os novos contornos do debate magnetizam a curiosidade da maioria dos visitantes e daí deriva uma profícua interactividade entre bloguistas e leitores. Seja através das caixas de comentários disponibilizadas por alguns blogues, seja através do envio de e-mails. E note-se que entre os blogues marcadamente políticos, são extremamente ténues as colagens partidárias, sendo até, em alguns casos, recusadas. Para João Pereira Coutinho, da desaparecida Coluna Infame (ver caixa), a gradual abertura de blogues por políticos explica-se assim: “A vida política é uma chatice, um tédio. São vidas tristes”. Na blogosfera, por enquanto, ainda não há rumores entediantes..
Maria José Oliveira, .Público., 23 de Junho 2003
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.Um Fenómeno com Seis Anos
Quando Dave Winer fez aquele que é considerado o primeiro “post” de sempre num weblog, no já longínquo dia 1 de Abril de 1997, estava certamente longe de imaginar o fenómeno global que iria desencadear. Desde o início da World Wide Web que muitos cibernautas faziam as suas páginas na Internet e aí colocavam ligações para outras páginas que consideravam interessantes. No entanto, apesar desta ligação próxima, as primeiras páginas construídas na WWW não podem nem devem ser consideradas como sendo os primeiros exemplos de weblogs. A palavra weblog - como sinónimo de uma página ordenada cronologicamente, onde um autor coloca periodicamente as suas próprias ideias ou ligações para outras páginas que considera interessantes - só aparece pela primeira vez em Dezembro de 1997 pela mão de Jorn Barger.
No entanto foi preciso esperar dois anos para que as coisas tomassem um rumo nunca antes esperado. No dia 23 de Agosto de 1999 foi criado o Blogger.com, uma ferramenta gratuita para criação de weblogs, que revolucionou a edição de textos na Web. Em 3 de Setembro de 2000, a Pyra acrescentou a cereja em cima do bolo ao criar o Blogspot.com, um “site” que aloja gratuitamente milhares de weblogs, em troca de anúncios colocados no topo das páginas. O sucesso foi tal que, em pouco mais de dois meses (a 7 de Novembro de 2000), o Blogspot viu nascer o seu 10.000º blog.
Na passada semana, o Blogger anunciou que tem 1,5 milhões de utilizadores registados, ainda que muitos weblogs não tenham mais do que alguns “posts”, ou tenham sido abandonados há muito. Aliás, várias tentativas têm sido feitas ao longo dos anos para descobrir quantos weblogs estão activos no mundo inteiro. Uma das mais sérias tem algumas semanas e pode ser consultada no endereço http://www.idlewords.com/crawler/crawl_report.pl . Na altura em que o consultei para escrever este artigo, contavam-se 463.994 blogs, sendo o português actualmente a segunda língua mais falada na blogosfera, muito por culpa dos brasileiros.
Em Portugal, o fenómeno dos weblogs terá começado no início de 1999. Ao contrário do que podem fazer crer alguns artigos publicados em jornais e revistas nos últimos meses, os blogs sobre jornalismo ou política estão longe de ser a maioria ou de sequer terem iniciado a moda em Portugal. Há alguma discussão entre os cibernautas sobre o que é ou não um weblog mas, seja qual for a definição que adoptemos, entre os primeiros “sites” portugueses a aderir a este fenómeno estão certamente o Macacos Sem Galho, o Gildot.org, o Dee’s Life, o Altas Doses de Cafeína, o Nonio.com, o Velouria.org, o Sonhos Virtuais e o Hiperbock, todos criados ainda no século passado.
Mas não há dúvida nenhuma que 2003 marca a data da explosão dos weblogs em Portugal. Em Janeiro deste ano, Pedro Fonseca criava aquela que é a mais fiável lista de weblogs lusos, em http://blogsempt.blogspot.com . Tinha na altura cerca de 150 blogs indexados. Na última consulta que fiz tinha 690. E nem sequer vale a pena fixar este número porque, na sequência deste destaque do PÚBLICO e de outros artigos que durante esta semana serão publicados noutros órgãos de comunicação social, o número crescerá - como é costume acontecer sempre que os media falam de blogs -, e arriscava-me mesmo a dizer que ultrapassará os 1000 antes do final deste mês.
A este súbito interesse dos media pela blogosfera, e consequentemente dos seus leitores, não é alheio o facto de, nos últimos meses, algumas personagens mediáticas terem criado o seu próprio weblog. Depois dos blogs de política, à esquerda e à direita (que nasceram como cogumelos), foi o aparecimento do Abrupto - http://abrupto.blogspot.com - de José Pacheco Pereira que trouxe para a ribalta este fenómeno até então circunscrito a umas centenas de aderentes em Portugal. Goste-se ou não do que escreve o seu autor, não há dúvida que depois do nascimento do Abrupto se nota uma maior efervescência na blogosfera portuguesa, com weblogs a serem criados todos os dias, tornando impossível o seu acompanhamento mesmo pelos mais dedicados cibernautas.
Esta explosão trará inevitavelmente crises de crescimento. Haverá weblogs que não compreenderão o ambiente de crítica aberta que se vive na blogosfera, outros que não estarão preparados para persistir na exigente tarefa da escrita diária, outros ainda que se cansarão facilmente de escrever para leitores imaginários que nunca (ou quase nunca) aparecem - é bom nunca esquecermos que o acesso à Internet é ainda um privilégio de uma fatia muito estreita da população. Mas a pluralidade de vozes que esta explosão trouxe à Internet portuguesa só pode ser positiva, como é positiva a pluralidade de órgãos de comunicação social na esfera pública. Como acontece com outros sectores da sociedade, os mais bem escritos, mais interessantes, mais persistentes resistirão e ganharão cada vez mais credibilidade. Os outros desaparecerão sem deixar qualquer rasto. Será a selecção natural aplicada à blogosfera.
P.S. - Agora que o artigo terminou, talvez se tenha tentado a criar o seu próprio weblog, para ver como é. Sente-se ao computador, ligue-se à Internet, vá a http://www.blogger.com e inscreva-se. Em menos de cinco minutos, terá o seu próprio blog para escrever o que lhe apetecer. Seja bem-vinda/o..
António Granado*, .Público., 23 de Junho 2003
*Jornalista do PÚBLICO e “weblogger” desde Janeiro de 2001
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.Os Blogues da Discórdia
Fazer uma selecção na blogosfera não é tarefa fácil. O PÚBLICO escolheu, de entre os blogues politizados, sete espaços onde os textos revelam maior consistência. E optou por manter a Coluna Infame, apesar do seu recente desaparecimento. O fecho deste blogue não lhe retira importância nem estanca os seus efeitos, pelo que é legítima a sua inclusão nesta mostra..
Maria José Oliveira, .Público., 23 de Junho 2003
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.Pacheco Pereira “Perde Tempo” com Blogues
abrupto.blogspot.com
Quando Pacheco Pereira chegou à blogosfera, nos primeiros dias de Maio último, a incredulidade tomou conta dos bloguistas. O eurodeputado encontra uma explicação para o cepticismo: “Fiquei com a ideia que achavam pouco provável que alguém com fácil acesso aos outros meios de comunicação e com muito que fazer, não iria ‘perder tempo’ num blogue. Durante alguns dias prolongou-se uma discussão em torno da verdadeira identidade da abreviatura JPP. Até ao “post” de 7 de Maio, no qual o eurodeputado do PSD decidiu “tirar todas as dúvidas”: em jeito de pré-publicação, transcreveu o primeiro parágrafo do texto que havia escrito para o PÚBLICO e que seria publicado no dia seguinte. As reacções efusivas não se fizeram esperar.
No excerto do soneto de Sá de Miranda, que serve como cartão de apresentação do Abrupto -”m’espanto às vezes, outras m’avergonho” - e nos “posts” debutantes do blogue, Pacheco Pereira levantou o véu sobre as suas propostas de reflexão. Que vão desde tertúlias literárias virtuais, passando por comentários sobre a actualidade nacional e internacional, até a mini-análises do fenómeno bloguístico. Desenganem-se, pois, aqueles que julgam ali encontrar textos testamentários exclusivamente sobre política. Denunciando que, “nos últimos 20 anos”, chegou a utilizar o pseudónimo de Abrupto para discorrer sobre arte, literatura e cinema em “vários obscuros jornais e revistas”, Pacheco Pereira afirma: “Existe uma ideia muito reducionista do que é a actividade política e do que são os políticos”. E interroga: “Porque razão é que de mim se espera que eu fale apenas de política?”.
Pacheco Pereira foi o primeiro político a entrar na blogosfera. Para já, o vice-presidente do Parlamento Europeu parece retirar satisfação da “verdadeira dialéctica” com o exterior. E não esconde um certo orgulho: “Não me queixo da resposta de quem me lê. O Abrupto teve já cerca de 25 mil ‘pageviews’ em duas semanas”. É obra.
Além do Abrupto, que é actualizado quase diariamente (as pausas acontecem por obrigação das constantes viagens), Pacheco Pereira abriu recentemente o Estudos sobre o Comunismo, blogue homónimo de uma publicação editada entre 1983 e 1985. A ideia de ressuscitar a revista, dedicada ao estudo científico do comunismo, em formato “on line” era já um “projecto antigo”. “Arranquei com o blogue como instrumento de trabalho regular, em contacto com outros investigadores”, conta, acrescentando, porém, que a versão virtual serve apenas como “instrumento activo de investigação e registo bibliográfico”. A intenção é, afirma, “agrupar num sítio mais estável os produtos finais”. O Abrupto, esse, vai de vento em popa, ascendendo à galeria dos blogues mais visitados. Apesar da larga afluência de leitores, Pacheco Pereira diz que o Abrupto “é um entre 500″..
.Público., 23 de Junho 2003
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.Blogue Familiar
blogue-de-esquerda.blospot.com
Nasceu no primeiro dia do ano. E seis meses depois, o “Blogue” de Esquerda (BdE) recebe já cerca de 400 visitas diárias, numa impressionante contabilidade somente partilhada com a Coluna Infame (entretanto dissolvida), o Abrupto e o Blogue dos Marretas. O seu “cartão de visita” refere que ali se escreve sobre “Política, Cultura, Ideias, Opiniões, Manifestos e Etc.” - e neste “etc” cabem por vezes trechos sentimentais. Adiante.
Os irmãos José Mário Silva, 31 anos, jornalista e poeta, e Manuel Silva, 26 anos, doutorando em Ciências Musicais, em Paris, são os autores do BdE, que conta também com as colaborações regulares de Daniel Oliveira, Sandra Augusto França, Filipe Moura e Fernando Venâncio. Perante a corruptela da sua denominação, há uma questão que se impõe: qual a relação do “Blog” de Esquerda com o Bloco de Esquerda? José Mário esclarece: “Existe uma proximidade ideológica, mas fizemos questão de não ter qualquer ligação ao Bloco. Até porque em muitos aspectos não estamos de acordo com as linhas do BE. É preciso separar as águas”, diz. E acrescenta: “Isto é um espaço de liberdade a sério”. Um espaço que, segundo o “post” inaugural, aspira a tornar-se num “fórum aberto a todos os que se sentem à esquerda das esquerdas convencionais”.
A intenção estendeu-se igualmente à direita e, na verdade, outra coisa não seria possível, já que o mapa político da “blogosfera” tem vindo a ser dominado pelos conservadores (e demais variações). Facto para o qual José Mário Silva não encontra muitas explicações. Tem, no entanto, uma certeza: “Na ‘blogosfera’ não existem diferenças sociais, culturais ou geográficas. Não se trata de um reflexo da sociedade, mas se pegarmos em 20 ou 30 blogues é possível traçar um perfil”. Entre outras disparidades que podem ser nomeadas, aquela que adquire um cariz mais estimulante é a que envolve o debate político. Basta espiar as reacções dos bloguistas - por vezes, um “post” leva a outro e a outro e a outro - e o elevado índice de comentários suscitados pelas questões políticas e partidárias.
Há muito que José Mário se faz acompanhar de um caderninho, daqueles onde se vai anotando frases e pensamentos soltos. Agora, as folhas brancas servem também para esboçar os “posts” diários do BdE. José Mário admite: “Isto é viciante”. E isso traduz-se numa das primeiras impressões que revela - “Tenho a sensação que faço isto há dois anos”..
.Público., 23 de Junho 2003
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.Primus Inter Pares
colunainfame.blogspot.com
A denúncia da tortura e a tradução da crueldade da Inquisição no século XVII singularizaram “A história da coluna infame”, livro seminal de Alessandro Manzoni, romancista, poeta e político do século XIX. Entende-se, pois, como reveladora a escolha do título do blogue de Pedro Mexia, Pedro Lomba e João Pereira Coutinho: em várias dimensões, a Coluna Infame foi pioneira e ímpar, tendo mesmo involuntariamente contribuído para experiências miméticas.
Com um número de visitas que ascendia a meio milhar por dia, o blogue depressa se converteu numa referência incontornável, sustentada pela qualidade dos seus textos. Gravitando em torno das artes, da política ou da literatura, a Coluna Infame, posicionada na direita conservadora, revelou escritos pertinentes, críticos e desafiantes, ao mesmo tempo que, porventura sem esse propósito, ganhou funções didácticas.
Os três autores acabaram por transformar a relação do leitor com o blogue numa discussão contínua que manteve desperto o espírito crítico e o “prazer intelectual”, aludido por Mexia, era notório. Sem uma obediência estrita à actualidade, a Coluna Infame permitiu “ressuscitar um certo tipo de escrita” baseado na “precisão e concisão”, explicou Pedro Lomba, admitindo que espera “daqui a uns anos saltar para um jornal”.
Apesar de as questões políticas não terem sido dominantes, foram elas que provocaram as maiores controvérsias com outros bloguistas. “Sou defensor de uma certa agressividade”, apontou Mexia. Não poucas vezes, João Pereira Coutinho foi acusado de assumir posições extremistas ou de ser demasiado truculento e agressivo. “Esses comentários provêem de uma certa ignorância histórica. Os 48 anos de ditadura retiraram a política das ruas”, argumentou, sublinhando que continua a estranhar-se a “frontalidade”. “Se lessem a prosa jornalística da I República, viam que eu não passo de um menino de coro”, acrescentou.
A Coluna Infame acabou no passado dia 10. Um desentendimento interno e uma consequente cisão resultou no fecho do blogue. Mas há novidades: Pedro Mexia já regressou, a solo, com o dicionariodiabo.blogspot.com; Pedro Lomba, também a solo, confirmou já o seu retorno; e João Pereira Coutinho prepara-se para abrir um “site” pessoal com várias componentes, entre elas um blogue, um arquivo de textos seus publicados nos últimos sete anos e “links” para várias publicações..
.Público., 23 de Junho 2003
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.Agência de Notícias da Blogosfera
cruzescanhoto.blogspot.com
«O Cruzes Canhoto! é um daqueles blogues que deixam o leitor a balançar entre a estupefacção e a pergunta “mas estes tipos não fazem mais nada?”. Explique-se: a escrita diária de “posts” é não só pautada por um impressionante acompanhamento da actualidade (nacional e internacional), como também se faz acompanhar por um ou mais “links” que remetem para as mais variadas moradas da Net e poupam trabalho ao visitante.
A mega-produção do Cruzes é assegurada por apenas duas pessoas - Nuno Guerreiro (assina N), 30 anos, bibliotecário, e Jorge Palinhos (J), 25 anos, coordenador editorial - e tem a sua base no Porto, embora os dois bloguistas sejam naturais de Lisboa e Leiria, respectivamente. O trabalho de ambos explica a assiduidade dos “posts” e a remissão para informações veiculadas por órgãos de comunicação nacionais e internacionais: “Estamos junto de terminais e por isso é mais fácil fazer um trabalho de ‘posts’ intermitente”, conta Nuno Guerreiro.
Criado em Fevereiro deste ano, o Cruzes foi concebido devido àquilo que Guerreiro chama um “desequilíbrio de forças ideológico” na blogosfera. Tendencialmente de direita, acrescenta. Tal como a sua própria denominação sugere, o blogue assume uma posição política de esquerda, embora o faça “sem cartilhas”, ressalva. “Existem muitas clivagens nos blogues de esquerda. Parece que estão a pegar numa cartilha”, diz. Mas nota, porém, que a “novidade” da generalidade do diálogo político na blogosfera é precisamente o seu “descomprometimento”.
O cariz marcadamente informativo do Cruzes Canhoto não se reduz, contudo, à actividade política. A partir de uma base de dados ancorada em jornais, televisões e publicações internacionais, o blogue serve também como meio de divulgação dos mais diversos assuntos. “Impenitentemente impertinente, inclinado sobre a política, a sociedade e a cultura”, pode ler-se, em jeito de sub-título.
Os dois autores criaram ainda uma pequena “janela” com as “últimas notícias” e uma longa lista de links para outros blogues portugueses e estrangeiros, dividida em vários módulos de apresentação: “Pacto de Canhotos”, “Aliança de Fachos”, “Blogues Desalinhados”, “Mecoblogues”, Biblogues” ou “Irmãos e Amigos”..
.Público., 23 de Junho de 2003
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.Animal, Statler e Waldorf
marretas.blogspot.com
O contador marcou 10 mil visitas no dia 13 de Maio. A celebração fez-se com um comentário, intitulado “Os três marretinhas de Fátima”, que terminava assim: “O mundo está mesmo perdido”. Actualmente, o Blogue dos Marretas ultrapassou já a fasquia das 20 mil visitas e cerca de três meses volvidos sobre o seu aparecimento, não se pode apontar falta de entusiasmo ao trio de autores, baptizados com os nomes de Animal, Statler e Waldorf.
A escolha da designação do blog e dos pseudónimos surgiu defronte de um “Happy Meal” da Macdonald’s - a embalagem oferecia bonecos dos Marretas em borracha. Pelo menos, é esta a versão contada por um dos seus criadores. Sob a “máscara” das personagens da série televisiva (e com o mesmo cariz desconcertante) encontram-se Jorge Bacelar (Animal), 43 anos, Nuno Jerónimo (Statler), 31, e João Canavilhas (Waldorf), 37, amigos de longa data e professores na Universidade da Beira Interior, na Covilhã.
No Blogue dos Marretas, o terreno ideológico ostenta uma fronteira: dois de direita (Statler e Waldorf) e um “infiltrado” de esquerda (Animal). “Criámos facções: os velhotes são à direita e eu sou assumidamente de esquerda”, conta Jorge Bacelar. Resultado: “Já dizemos que somos serviço público”.
Pese embora as divergências, que tiveram especial relevância no período da guerra no Iraque, os Marretas preservam uma cumplicidade que se nota sobretudo no tom humorístico dos “posts”. “No início pensámos em discutir com seriedade. Até descobrirmos que nos achavam graça”, diz Nuno Jerónimo. Seja sobre política, cidadania, educação ou cultura, os autores raramente escrevem sem pertinência. “Tentamos dar aos comentários um tom jocoso, provocatório e talvez as pessoas apreciem o nosso sentido de humor”, afirma Bacelar.
A abordagem da actualidade política, reincidente neste blogue, promove uma elevada interactividade com os leitores e devolve aos seus criadores um efectivo debate de ideias: “Aqui na Covilhã a realidade é completamente diferente daquela que existe em Lisboa ou no Porto. Do ponto de vista pessoal, alargou o leque de pessoas com quem me confronto”, explica Nuno Jerónimo.
Da experimentação ao vício foi um pequeno instante. O Blogue dos Marretas prima por uma actualização diária quase pontual - os visitantes assíduos depressa aprendem os horários de trabalho bloguístico de cada um dos autores - e adivinha-se que continuará assim ainda por muito tempo. Jorge Bacelar justifica: “Somos bonecos de peluche, se nos cansarmos deste brinquedo vamos brincar para outro lado. Mas neste momento é difícil, pois sentimo-nos muito bem”..
.Público., 23 de Junho 2003
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.A Esquerda Relativa
paisrelativo.blogspot.com
Resgata o título de um poema de Alexandre O’Neill, “O País Relativo”, e nele embarcam Filipe Nunes, Mariana Vieira da Silva, Mark Kirkby, Miguel Cabrita, Pedro Adão e Silva, Pedro Machado, Rui Branco, Sílvia Sousa, Tiago Tibúrcio, Domingos Farinho e Luís Filipe Borges (este último saiu entretanto e já fundou o blogue Desejo Casar).
Poder-se-ia repescar a frase de Manuel Alegre - “não somos independentes na esquerda” - para apresentar o País Relativo. Entre os seus criadores, amigos de longa data, encontram-se militantes do PS (um deles dirigente nacional e um outro chefe de gabinete de Ferro Rodrigues), mas não se julgue que a actividade ou o discurso partidário ensombram este blogue, nascido em finais de Fevereiro. Apesar das infundadas reivindicações de textos de índole político-partidária, lançadas por muitos leitores, os bloguistas estendem a sua escrita a temas tão diversos como o cinema, as viagens, a literatura ou a música. “As pessoas não podem comparar o País Relativo à Acção Socialista: não é nem nunca será”, diz Rui Branco, historiador a viver em Florença. Como se pode ler no “post” inaugural do blogue, a “trespassante lucidez e actualidade” do poema de O’Neill, que descreveu um Portugal sorumbático e fragilizado, são motivos para a exposição de ideias e para o arranque de debates interactivos. Embora Mariana Vieira da Silva admita que “gostava que existisse na blogosfera um maior equilíbrio entre a direita e a esquerda”, não é por essa razão que as discussões esmorecem.
Rui Branco explica que o modelo bloguístico revisita um método de debate do século XIX: “Os parlamentares eram muito mais cultos do que actualmente e tinham uma forma de discutir, com grande vivacidade, que está a regressar agora nos blogues”. Sublinhando a “saudável convivência” e a “crítica irónica” que agora ressurge, o historiador aponta ainda que, em alguns casos, o diálogo é “uma lição de Estado”. E remata: “É uma espécie de blogues dos fillhos da madrugada e isso revela um espírito diferente. Desde logo porque não somos info-excluídos”..
.Público., 23 de Junho 2003
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.É Um Blogue Português com Certeza
noquintodosimperios.blogspot.com
Quem é de esquerda tem “mais facilidade” em escrever na imprensa escrita. Logo, os de direita utilizam os blogues porque “não têm acesso” a outros espaços de publicação. Quem o diz é Diogo Henriques, um dos autores do blogue No Quinto dos Impérios, que, embora tenha nascido há pouco mais de um mês, é já um dos sítios mais visitados da blogosfera. Paradigma da aldeia global (à escala europeia, refira-se), o blogue é mantido por mais quatro dinamizadores (além de Diogo Henriques, de Lisboa), espalhados em diferentes geografias. A saber: Fernando Albino, em Londres, João Vacas e Miguel Borges de Freitas, ambos em Bruxelas, e Francisco Mendes da Silva, que vive entre Coimbra e Viseu.
Para além de refrear o distanciamento físico, o blogue ilustra igualmente as ideias políticas dos cinco amigos, todos eles filiados no PP. Mas a participação política activa não condiciona, assegura Diogo Henriques, a profusão e o conteúdo dos “posts”. “O debate político é mais rápido, mais descomprometido e não segue uma disciplina partidária”, afirma.
Com um título inspirado no padre António Vieira (não em Fernando Pessoa), o blogue apresenta-se como “liberal e conservador”, recolhendo ainda estes epítetos duas correntes: “Tradicionalista ou democrata-cristão”. E ressalvam que as empatias variam “consoante os dias e as assinaturas”. Escrevem que não são “saudosistas” - têm, antes, saudades “da nossa horta à beira-mar plantada” - e saúdam os leitores “como o lindo azulejo de uma casa portuguesa: seja bem vindo quem vier por bem”.
Apesar da militância activa dos bloguistas - que se revela, muitas vezes, em referências “irónicas” à Nova Democracia, de Manuel Monteiro -, o No Quinto dos Impérios é um lugar abrangente, onde se prodigaliza a “partilha de experiências e de heróis”, declara Diogo Henriques, acrescentando que o diálogo estende-se muitas vezes a afinidades culturais. E o cruzamento de opiniões faz-se segundo um estilo de escrita “que estava muito perdido”, sustentado em “bases diferentes” e propício a “discussões estimulantes”..
.Público., 23 de Junho 2003
Ver de seguida o texto publicado na revista .Visão. de 26 de Junho de 2003.
Ainda a 26 de Junho, o .Público. refere-se novamente ao .fenómeno da blogosfera., num texto de Leonete Botelho:
.Nos seus pequenos territórios envidraçados, tudo pode ser dito sem castigo, tudo pode ser feito sem censura. São uma mistura de .voyeurs. e exibicionistas em estilo .soft., ora penteando-se demoradamente em frente ao espelho, ora despindo-se em suave .striptease., ora espiando-se uns aos outros como querem que os espiem a eles. Para que escreve alguém senão para outro alguém, depois de para si mesmo? Esta crónica, por exemplo, para que serve se não for citada em nenhum blogue nos próximos dias? Mas do que mais gosto nos blogues é da sua diversidade. Intrínseca e extrínseca. Faz-me acreditar que o futuro é possível sem que tenhamos todos de nos alistar em qualquer coisa, sem que tenhamos todos de ter rótulos redutores, esquerda-direita, homem-mulher, conservadores-liberais, e tantas coisas que tais. Que todos podemos ser constelações improváveis. E sermos, assim, sempre um pouco mais ricos.”
.Bem-vindo à blogosfera
Um espaço de liberdade total ou um exercício de narcisismo? Com sarcasmo, humor ou seriedade, os pensamentos de centenas de portugueses revelam-se na Internet. Uns mais mediáticos do que outros, todos os autores têm algo a dizer. Está na hora de actualizar os dicionários: a palavra blogue entrou no léxico nacional.
Já o relógio ultrapassa a meia-noite quando Pedro Mexia, 30 anos, se senta à frente do computador. Durante horas dedilha com entusiasmo o teclado, escrevendo pensamentos, estimulando discussões, partilhando poesias na Internet. Chega a estar acordado até às 5 da manhã. «Os dias em que sinto maiores afinidades com os toxicodependentes são aqueles em que não tenho Net», admite, um pouco olheirento.
Afinal, o que anima e deixa internetodependente um crítico literário? O mesmo que estimula um eurodeputado, um professor universitário, um jornalista ou um designer. Ou que move um conservador de direita, um radical de esquerda ou um anarquista convicto: os blogues (ou weblogs, no original, em inglês). A palavra parece estranha, mas não significa mais do que uma página na Internet com características próprias e aspecto de diário íntimo . individual ou colectiva, é actualizada regularmente e contém textos ordenados de forma cronológica. Com um conjunto de ligações para outras páginas, os blogues podem dar a possibilidade aos visitantes de comentarem os textos.
Se em 1997, quando surgiram pela mão de Dave Winer, não passavam de meras listas de links sobre os gostos e interesses dos seus autores, acompanhados de breves comentários, hoje, os blogues estão muito mais sofisticados. Nestas páginas, mistura-se reflexão e textos de carácter mais íntimo, havendo algumas ultra-especializadas em mil e um assuntos, da política ao humor, passando pela literatura, as artes, os assuntos sociais ou o futebol (os principais blogues portugueses estão reunidos em www.blogsempt.blogspot.com ou http://blogo.no.sapo.pt, que os arruma por temas).
As novidades em relação aos já «velhinhos» chats, fóruns e grupos de discussão são muitas: os chats estão mais associados a conversas de adolescentes; os fóruns têm uma componente mais séria mas falta-lhes a marca de «autoria». É a assinatura que transforma o blogue numa espécie de janela com vista para a personalidade e as ideias de alguém. Além disso, nos blogues assume-se . quase sempre . a identidade, ao contrário dos chats, fóruns e grupos de discussão, onde impera o anonimato.
Espaço de liberdade
Em busca de liberdade de expressão, os bloguistas portugueses multiplicam-se diariamente. Há seis meses, os blogues nacionais não eram mais de 150, hoje, são quase 800. Pela facilidade de criação de um blogue, qualquer pessoa com Internet pode ter um (ver caixa). De repente, descobre-se que o vizinho ou o colega de trabalho «despejam» as suas ideias, opiniões e gostos numa página, acessível a quem souber a morada electrónica. Na blogosfera escreve-se sobre tudo sem qualquer restrição. Susceptibilidades à parte, centenas de pessoas rumam diariamente ao blogue www.omeupipi.blogspot.com, com muita «verve» e sem papas na língua. É o exemplo máximo de uma escrita que só na Internet poderia sobreviver. «Apesar de ser preciso ter estômago para o ler, aquela página tem uma «arrumação» interessante. Aí está uma coisa que nunca chegaria aos jornais ou a livro, mas tem lugar ali», refere José Manuel Fernandes, director do jornal Público, que esteve desde a primeira hora atento a este fenómeno.
Os blogues atraem quem gosta de escrever e não tem onde.
E também quem escreve por profissão mas não se esgota nas páginas dos jornais, nos textos publicitários ou nas rábulas televisivas. Basta querer dizer. Nascido pelas mãos de um grupo de amigos que dizem ter pouco em comum («a nível ideológico e até clubístico»), o Gato Fedorento encontrou no humor o ponto de convergência das vontades. Um blogue sem tema, mas com um tom definido, que fala de tudo o que passa pela cabeça de quatro rapazes entre 26 e 30 anos, autores dos textos das Produções Fictícias. «Só tínhamos acesso à televisão através do Herman. Pela primeira vez, podemos escrever para um público razoavelmente vasto sem intermediários», afirma Ricardo Araújo Pereira, 29 anos. Hoje têm uma média superior a 600 visitas diárias.
«O que me leva a alimentar o meu weblog é o mesmo que me leva a ser jornalista: vontade de comunicar com os outros e suspeita de que o que tenho para escrever interessa a alguém», explica António Granado que, numa decisão de novo milénio, inaugurou o seu blogue a 2 de Janeiro de 2001. No Ponto Média, contam-se «estórias sobre jornalismo e jornalistas» mas, de vez em quando, também se mete a colherada noutros temas. Ao sábado, um resumo do weblog de Granado sai da blogosfera e aterra nas páginas do Público.
Para o também jornalista José Mário Silva, 31 anos, um dos autores do Blog de Esquerda, o aspecto interessante deste meio é o facto de «poder escrever sobre assuntos que sentimos não ter legitimidade ou oportunidade para escrever no jornal». Ou como referiu Miguel Esteves Cardoso numa das últimas crónicas no DNA: «Blogar é escrever num meio terrivelmente aberto . interactivo, instantâneo, espúrio (…) A força do blogue está no facto de não haver mediações; do salto ser puro; da combustão ser total.» Afinal, até o eurodeputado Pacheco Pereira parece dar passos maiores no seu Abrupto, como nota Nelson de Matos, 58 anos, editor da Dom Quixote e também autor de um blogue, o Textos de Contracapa: «Nos textos de imprensa ou na TSF, ele defende as perspectivas de um partido, enquanto ali está mais solto. Até consegue criticar Marcelo Rebelo de Sousa.» Em suma, um outro espírito, reconhece Francisco José Viegas. O escritor e jornalista abriu o Aviz há pouco mais de uma semana. «Nos blogues falamos mais francamente.»
Há uma semana, Pacheco Pereira dissertou sobre este fenómeno na sua coluna habitual no Público. «A comunicação na esfera pública ganhou com os blogues. Ainda não tem uma massa crítica estável, mas já tem uma massa crítica instável. É um mundo efervescente, com nascimentos e mortes todos os dias, com um mercado rude de opinião, de relações de poder e guerras intestinas», escreveu. O autor de Abrupto (que recebeu mais de 50 mil visitas num mês e meio) conclui: «Às vezes espreme-se tudo num dia e fica pouca coisa, mas o que fica é bom e fica sempre alguma coisa.» O eurodeputado, que, como figura pública, acabou por mediatizar os blogues, realça ainda a «felicidade» dos bloguistas pela posse destes espaços . «eles são a realização de um sonho que parecia inatingível para as gerações de estudantes com pretensões intelectuais do liceu e da universidade: ter uma revista literária, um jornal onde se pudesse escrever o que se quisesse».
Imprensa debaixo de olho
Nem todos estão de acordo com a incursão de jornalistas e de pessoas com acesso aos meios de comunicação no mundo dos blogues. Para Pedro Rolo Duarte, editor do DNA, isso não passa de «um exercício de vaidade». «No dia em que for despedido, faço um blogue. É divertido e um espaço de liberdade muito saudável. Mas acho que uma das maiores virtudes da imprensa é o facto de ser finita no espaço e no tempo. Quem escreve nos jornais tem de saber escolher de entre aquilo que tem para dizer», argumenta.
O sociólogo José Bragança de Miranda concorda com esta perspectiva e afirma convicto: «É o narcisismo que atrai os criadores de blogues que já escrevem noutros espaços.»
Mas as «turras» entre jornalismo e bloguismo não se ficam por aqui. As opiniões são variadas. Há quem considere o segundo uma ameaça ao primeiro. Mas há também quem o encare pela positiva e o veja como um observatório permanente, não só da realidade, como daquilo que se escreve nos jornais. A maior «glória» da blogosfera foi quando o Guardian retirou do seu site uma notícia sobre Paul Wolfowitz, depois de «muito barulho» nos blogues acusando o diário inglês de ter separado do contexto as afirmações do conselheiro de Defesa norte-americano. «É mais uma aceleração do tempo. Vai-nos obrigar a um cuidado que nós, jornalistas, não temos hoje. Vamos estar mais vigiados», assinala José Manuel Fernandes.
Direita vs esquerda
O blogue A Coluna Infame, lançado em Outubro de 2002 pelos críticos literários do DNA Pedro Mexia e Pedro Lomba e pelo colunista de O Independente João Pereira Coutinho, foi o primeiro a dar nas vistas, com os seus textos de inspiração direitista sobre artes, política e literatura. O suficiente para o editor-adjunto do DNA, José Mário Silva, amigo pessoal de Mexia, ter decidido criar um blogue, juntamente com o irmão, Manuel Nunes Silva, como respos